Conheci muitos profissionais, treinadores e jóqueis principalmente, que militaram no turfe
brasileiro através dos tempos, que colaboraram no funcionamento do turfe, no dia a dia das cocheiras e das
corridas.
Havia em São Paulo dois irmãos, ambos considerados bons treinadores, que eram completamente
diferentes. Um deles era de fino trato, bem educado, amigável, participava das associações de profissionais.
Chamava–se Silvio de Paula Mendes. Treinou para studs importantes, e com afabilidade e educação era por todos
benquisto. O irmão dele era o Waldemar de Paula Mendes, de tez avermelhada, sanguinolenta, grande, muito gordo e
muito forte. Era bom treinador. Impressionava pelo físico possante, tinha uma grande força física. Não admitia ser
cobrado, de vez em quando pegava um e o atirava longe. Dois irmãos, contemporâneos, e completamente diferentes.
Curioso tambem foi Claudemiro Pereira. Pessoalmente muito amigável, sempre alegre, gostava das boas
coisas que a vida oferece. De trato doce, amigo, todos gostavam dele. Era talvez o mais querido e popular entre os
treinadores de sua época. Mas isso pessoalmente e como treinador. Como jóquei, era violento, aplicava
"partidos", fechava competidores, segurava outros pelas mantas, pelos culotes, tanto abria
propositadamente na reta para prejudicar como também jogava seu cavalo para dentro. Era temível e temido, de uma
coragem incomum. Mas ele só se transformava quando montado, o seu normal era a alegria, a amizade. Como treinador
teve muito sucesso.
Oswaldo e Gonçalino Feijó eram irmãos. Oswaldo foi dos melhores treinadores, de
maior sucesso, no turfe carioca. Seu sistema de treinamento era basicamente forte, apurava seus animais nos
trabalhos. Teve dois filhos tambem muito bons treinadores, Adayr e Enir. Oswaldo Feijó morreu turbeculoso, e
apesar de não ter condições físicas, diariamente todo encapotado, madrugava no hipódromo para ver e acompanhar os
seus cavalos. O irmão Gonçalino era diferente. Mais sociável, bom de churrascos e de copos, treinava em sistema
diferente, muita movimentação, muitos galopes, mas trabalhos de distâncias e partidas sem apurar, esse era
basicamente o sistema. Ganhou muito, deixou muitos bons seguidores. Dentro dessa linha de treinamento estava o
inesquecível Ernani de Freitas, talvez o primeiro a instituir um treinamento mais racional, mais suave, mais
individualizado, e que até hoje é o treinador recordista em número de vitórias, mais de 3.000. Por sinal, o atual
vice–campeão brasileiro em número de vitórias, com mais de 2.800 e ainda em atividade, é Alcides Morales, que como
Gonçalino Feijó pratica o treinamento racional, não violento, não de olhos fixos no cronômetro, mas nas condições,
na individualidade de cada cavalo.
Também partidário do treinamento à base de galopes não violentos e
de sensibilidade foi Elídio Pierre Gusso. Muito observador, acompanhava detalhadamente a mobilidade diária de seus
cavalos, aumentando ou diminuindo a intensidade dos galopes diários de acordo com a sua experiência e
sensibilidade. O treinador paranaense radicado há muitos anos em São Paulo, o super vitorioso Pedro Nickel, além
dos trabalhos de pista e de cocheiras, tem como um dos seus ponto fortes, a observação diária de todos os cavalos,
dele ou não, nas caminhadas à tarde. É muito difícil encontrar–se um treinador como Elídio Pierre Gusso, como
Alcides Morales e acredito que mais alguns, muito poucos.
Com a grande quantidade de animais a serem
trabalhados diariamente, com os horários de fechamento das raias, pela maléfica influência da técnica (?)
norte–americana de trabalhar, infelizmente a maioria, ou pelo menos boa parte dos treinadores, treinam em função
dos cronômetros. É de impressionar a quantidade de animais que se lesionam em conseqüência da pouca sensibilidade
e pela fixação nos cronômetros, pela pressa em terminar os trabalhos e fechar os animais. Mesmo nos centros de
treinamentos, a rotina dos hipódromos reina. Mesmo sem horários obrigatórios, a rotina é mantida. Começam os
trabalhos às 5 horas da manhã, seja no escuro, no frio e/ou com nevoeiro, a rotina diária é quase imutável,
galopes sempre no mesmo sentido (no contrário aos dos ponteiros dos relógios), os cavalariços sempre com a
preocupação do horário, sempre sem a adequada paciência e sempre com pressa. Mudar o horário dos trabalhos de raia
em função das condições climáticas, nem pensar, a ordem é manter a quase secular rotina, nada importa, é repetir,
repetir, repetir. Até os trabalhos fortes são repetidos, a cada vez tentando–se conseguir um tempo menor. Como os
cavalos não são de ferro nem de aço, é corriqueiro, é comum o surgimento de distensões musculares, manqueiras,
etc. Mas a rotina segue, vamos que vamos.
Os treinadores foram se adaptando através os anos, acordam
bem cedo, trabalham até a acomodação dos seus animais nos respectivos boxes, e vão almoçar, e via de regra dormir
à tarde. Muitos sequer voltam às cocheiras à tarde. O passeio dos cavalos à tarde, que deveria durar, de animal
para animal, de meia a uma hora, na verdade fica por conta dos cavalariços, que muitas vezes continuam com pressa
para fechar os animais.
Apenas como curiosidade, para que se tenha a noção do pouco entendimento dos
norte–americanos com o verdadeiro turfe, vou contar um detalhe ocorrido com o treinador brasileiro Zilmar Duarte
Guedes. Ele foi fazer uma temporada nos Estados Unidos. Após o trabalho matinal e o descanso habitual, mandou que
o cavalariço levasse o cavalo para caminhar à tarde. Foi chamado pela administração do hipódromo, o seu cavalo
estaria prejudicando o descanso dos outros animais. Na verdade, após aquele espaço de tempo para os trabalhos das
manhãs, os cavalos ficavam todo o resto do tempo, imagino eu que por volta de 22 horas diárias, presos nos boxes.
Eu pergunto se algum atleta pode ficar bem treinado se for obrigado a permanecer trancado em seu quarto 22 horas
por dia. É a total falta de senso, de conhecimento. Às vezes eu fico com medo que mais essa
"modernidade", para não dizer insensatez e burrice, chegue ao nosso turfe.
Voltando aos
profissionais do turfe, tivemos muita gente interessante. Um dos exemplos era o do já muitas vezes citado
Francisco Irigoyen. Com ele, trabalhar nem pensar, e às vezes nem montar. Gostava de festas, de beber, de dançar,
era alegre, conquistador, muito bom de conversa. Era um homem da noite. Mas quis a natureza que ele fosse um
jóquei, de grande qualidade, sensibilidade, inteligência, noção de percurso, eficácia. Não gostava da sua
profissão, montava por obrigação, sua extrema habilidade estava em montar cavalos de corridas. Muitas vezes
montava sem condições físicas, chegava em críticas situações. Era difícil vê–lo trabalhar durante a semana, e
mesmo sem condições ideais, na sela era um príncipe.
O treinador José Silvestre de Souza era mineiro,
foi para a Gávea ainda jovem para trabalhar com o treinador Gonçalino Feijó. Aprendeu com o seu mestre que o
cavalo deve ser preparado para correr o máximo no dia da corrida e não nos trabalhos, foi cavalariço e gerente,
mudou–se para São Paulo, e terminou como um admirável treinador, com treinamento individualizado. Seus maiores
amigos eram os próprios cavalariços, sempre simples, trabalhador, boa índole, e com indiscutível sucesso em sua
profissão.
Esse assunto de curiosidades dos profissionais do turfe é muito agradável de ser lembrado.
Oportunamente vou voltar a ele.
por Milton Lodi