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Setembro | 2007

Centros de Doma, por Milton Lodi
04/09/2007 - 13h56min

Centros de Doma e de Recuperação (Milton Lodi)

Desde há alguns anos, o turfe brasileiro tem sofrido influência do turfe norte–americano. Os norte–americanos praticam um turfe comercial, não respeitam as normas das filosofias da criação e das corridas que se iniciaram na Europa, basicamente na Inglaterra. Conceitos firmados à base de experiência e bom senso foram simplesmente ignorados e substituídos pelo canto sedutor dos dólares. Um lindo e promissor potro não é entendido como um futuro eventual grande ganhador clássico, um melhorador da raça, mas como um potro a ser vendido por muito dinheiro. É sempre anunciada a bolsa do páreo, e não o valor a ser recebido pelo proprietário do ganhador, de cerca de 45% da bolsa (em páreo de bolsa de 100.000 dólares, cabe ao proprietário do ganhador aproximadamente 45.000 dólares).

O volume de dinheiro investido no turfe norte–americano é de tal ordem que desencadeia uma fortíssima concorrência, uma alta de custos e preços, com conseqüências danosas para a parte técnica. Proprietários e profissionais cada vez tentam correr mais cedo os seus animais, procurando antecipar dentro do possível o ressarcimento dos seus investimentos. Os clubes promotores de corridas cada vez mais programam páreos e melhoram dotações para os produtos da nova geração. O resultado é a incrível quebra do número de potros em início de campanha nas pistas. Calcula–se que cerca de 18% (dezoito por cento) de cada geração não chega a estrear, devidamente "triturados". Se lembrarmos que nascem nos Estados Unidos mais de 37.000 potros anualmente, chega–se ao absurdo número de mais de 6.500 produtos que não chegam a correr. Se lembrarmos que a produção anual de potros no Brasil é de 3.000, faça–se as contas, o equivalente ao mais do dobro da totalidade da produção brasileira não chega a correr. Esse é o preço da política turfística norte–americana, puramente comercial, mais e mais dinheiro, o mais depressa possível.

É claro que os gigantescos investimentos financeiros geram bons frutos, como o grande número de hipódromos cada vez mais confortáveis e luxuosos, aparelhagens cada vez melhores e mais sofisticadas, haras melhor equipados, etc. O público comparece às corridas em grande número, os movimentos de apostas são enormes (aos olhos brasileiros). Mas a fixação em dinheiro, a procura de melhores preços nas vendas de potros em leilões já claramente demonstram o lado negativo para a criação norte–americana de um modo geral. O enorme sucesso de NORTHERN DANCER seguido pelo de MR. PROSPECTOR inundou os Estados Unidos com seus pedigrees, mesmo todos sabendo que os descendentes de MR. PROSPECTOR, como o próprio, não primam por bons aprumos. A não entrada de novos garanhões ingleses e alemães na criação do cavalo de corrida nos Estados Unidos pode levar a um indesejado futuro.

A prática de páreos de velocidade, em excesso, é incrível. Para não se estender nesse detalhe, só duas pequenas lembranças. Uma do potro STORM, um filho de AKSAR brilhante ganhador de Gr.1 na Gávea, em ótimo tempo na grama em 2.000 metros, e que os norte–americanos levaram, fazendo–o correr normalmente em 6 furlongs (1.200 metros) na pista de areia em hipódromo do Texas, sem qualquer padrão comparável aos hipódromos do leste e do oeste dos Estados Unidos. Outro caso a ser lembrado é o da SWEET ETERNITY, brilhante ganhadora do Grande Prêmio São Paulo, Gr.1, em 2.400 metros na grama, que lá correu em 1.300 metros. Um loucura completa!

Essa prática de cada vez mais antecipar a estréia dos potros, incentivar a precocidade, já tem reflexos em nosso país.

Copiando a Argentina, país eminentemente produtor de cavalos para exportação, com mais do dobro de nascimentos anuais que o Brasil, o Jockey Club de São Paulo enriqueceu em muito as ofertas de páreos para os 2 anos, visando também a exportação. Na Argentina nascem cerca de 7.000 potros/ano.

Antigamente, no Hipódromo da Gávea, só era permitida a entrada de produtos da geração a estrear no ano seguinte, depois da semana do Grande Prêmio Brasil, isto é, em agosto. Os leilões eram em outubro e novembro. Hoje, com leilões até em janeiro do ano anterior, isto é, um ano antes da chamada para os primeiros páreos de potros, criaram–se problemas, dentre eles o custo de manutenção pelos proprietários de muitos meses mais, e a acomodação dos comprados que não no hipódromo e/ou centros de treinamento. Tratos e cuidas inadequadas a animais ainda em desenvolvimento, necessitando de paciência, de ensinamentos, de doma moderna, de amansamento racional, tudo aquilo que a pressa e o imediatismo dos hipódromos e dos centros não podem oferecer em sua plenitude. E isso para não falar nos custos.

Essa nova realidade, com grande massa de potros saindo mais cedo dos haras, abriu um novo campo. Como raciocínio, se a produção anual é de 3.000 potros, e se há leilões no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo e no Rio de Janeiro, pode–se alvitrar que cerca de 2.000 potros, ou semelhante, devem ficar em algum lugar adequado entre as saídas dos haras e o início dos trabalhos visando a estréia nas pistas.

Aí entrariam, e já começaram a entrar, os centros de doma e amansamento, e também de recuperação. No Brasil já há gente especializada em doma racional, com calma e técnica, e dando oportunidade de um desenvolvimento saudável, graduado, não estressante, fazendo com que os potros se transformem, sem mossas físicas, nem morais, nem mentais, em cavalos de corridas prontos para serem iniciados.

Mais barato, mais adequado, é um novo campo que surge para os proprietários de potros, compradores e/ou criadores.

por Milton Lodi



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