ELISABETH era uma potranca lindíssima, feminina, escura, filha do irlandês KAMERAN KHAN na francesa CANIDIA, essa por PHARIS. Era a cruza do sangue AGA KHAN com o de MARCEL BOUSSAC, as duas classes máximas mundiais da época. Com a morte do inesquecível Boussac, seus dois haras na Normandia foram vendidos, o "Fresnay–le–Buffard" para a família Niarkos, e o "Du Jardy" para Jean Luc Lagardére. A nobreza de ELIZABETH era estampada na sua aparência, no seu aspecto físico. Ela não foi nenhum fenômeno, mas ganhadora importante, ótimas colocações clássicas, e sua vitória no Premio Juan José Paso, na areia de Palermo, 1.000 metros, para éguas, foi a primeira das quatro vitórias brasileiras, nos dias 28 e 29 de maio de 1960. EXCÊNTRICA, filha de ROYAL FOREST e EXTRA, por BRITISH EMPIRE, uma boa castanha, a 4ª colocada no mesmo páreo, a seguir foi exportada para a Alemanha.
MAJOR’S DILEMMA, um castanho de porte vigoroso, foi o segundo ganhador brasileiro dos quatro. O pai era o irlandês ORBANEJA, importado através Walter Noble, um filho de GOYA II em DOCTOR’S DILEMMA, essa importada pela Comissão de Fomento do Jockey Club de São Paulo, filha de PHEROZSHAH (PHAROS em MUMTAZ MAHAL). MAJOR’S DILEMMA era ventrudo, costelas largas, aspecto vigoroso, passeava montado todas as tardes por bem mais do dobro do que o habitual, e precisava ser sempre alertado para caminhar. Corria sempre na primeira turma, rendia bem em ambas as pistas, mas na areia era praticamente imbatível. Ganhou em 2.500 metros, ganhando com grande autoridade uma prova que deve ser encarada hoje como um páreo de Listed.
É curioso observar que a mãe de ELIZABETH tinha a cruza PHARIS (PHAROS) x TOURBILLON, e o pai de MAJOR’S DILEMMA a mesma cruza, mas ao contrário, GOYA II (TOURBILLON) x PHEROZSHAH (PHAROS).
No mesmo páreo de MAJOR’S DILEMMA, correu LOHENGRIN, 4° colocado, à época recordista dos 2.400 metros na grama da Gávea, filho de ORSENIGO e LORETTA, por HUNTER’S MOON. Esse LOHENGRIN foi exportado como reprodutor para o Peru, onde conseguiu grande sucesso.
A terceira vitória brasileira no dia 28 de maio foi através de DERAH, égua preta, forte, ótima ganhadora clássica, que venceu facilmente em 1.600 metros um páreo reservado a éguas de alto padrão. O pai de DERAH era o italiano MINOTAURO, bom ganhador em seu país, filho de ORTELLO, o "TEDDY italiano". A mãe de DERAH era MARSA, esta de criação do especial Haras Bela Esperança de José Paulino Nogueira, uma SEVENTH WONDER em filha de YEOMANSTOWN. Linha baixa de origem uruguaia, do Haras Casupá, de Don Juan Amoroso. DERAH corria uma barbaridade.
No domingo, 29 de maio, os três outros componentes do lote brasileiro de oito, todos paulistas, correram na grama de San Isidro os 2.400 metros. O ganhador foi ESCORIAL, filho de ORSENIGO e ESCOA, por BRITISH EMPIRE. Era um cavalo de muita qualidade, tríplice coroado carioca, que além de expressiva e brilhante campanha no Brasil, já havia vencido o GP Carlos Pellegrini, em 3.000 metros. ESCORIAL, antes de servir na criação brasileira, foi exportado para a Europa como reprodutor.
É curioso notar–se que ORSENIGO, italiano, nasceu de uma troca de coberturas entre ORTELLO, o melhor garanhão italiano da época na Itália, e OLEANDE, o melhor da época na Alemanha. A épica vitória de ESCORIAL no "25 de Mayo" teve retumbância mundial.
O segundo colocado, à uma pequena diferença, após uma luta titânica, foi FARWELL (invicto no Brasil com 15 vitórias), para muitos, o melhor corredor nacional de todos os tempos. Era um filho do inglês BURPHAM (HYPERION) em ótima égua clássica da criação Bela Esperança, MARILÚ, uma WOOD NOTE em linha feminina inglesa.
NARVICK foi o outro brasileiro, recordista no Brasil dos 3.000 metros, e que chegou em 5°. NARVICK era filho de ANTONYM (VATOUT), que foi sequestrado pelos alemães quando da invasão da França na guerra de 1939–1945, na égua CICCÊ, por DENBIGH. Essa linha feminina veio do Haras Maranguape, PE.
Analisando–se, mesmo por alto, os sangues que permitiram o estrondoso sucesso de 1960, percebe–se o alto padrão de nomes como os da criação AGA KHAN e MARCEL BOUSSAC, de ORTELLO, de OLEANDER, de HYPERION, de VATOUT, de linhas maternas as mais ilustres, nomes e criações consagradas nacional e internacionalmente.
A atual realidade turfística brasileira nos mostra um panorama bem diferente. Sem qualquer intuito de criticar, a queda do padrão financeiro do turfe em geral, tendo como um dos pontos principais a fragilidade dos clubes promotores de corridas e os prêmios oferecidos na metade do necessário (na melhor das hipóteses, já que nem todos estão com os pagamentos dos prêmios em dia), isso já há bastante tempo.
Em função da atual situação, e da influência do turfe norte–americano no mundo, hoje as importações de garanhões e reprodutoras têm em mira os Estados Unidos.
Como há uma grande diferença entre os valores financeiros do mercado norte–americano e o brasileiro, os brasileiros nem sempre conseguem trazer um cavalo já aprovado, e que tenha ao mesmo tempo filiação, campanha e conformação física de altíssimo padrão.
Se as condições do nosso turfe fossem como a de 1960, com o turfe brasileiro em alta, as coisas seriam diferentes.
Exceções à parte, essa é a situação.
por Milton Lodi