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Abril | 2007

Leilão, Cloro, por Milton Lodi
03/04/2007 - 17h15min

Mario D’Andréa era um gaúcho radicado em São Paulo, um excelente vendedor de cavalos, especialmente de potros. Um dos seus clientes preferenciais era Hernani Azevedo Silva, do Haras São Luiz. Era o maior e melhor vendedor da época. Quando ele morreu, foi de imediato providenciado um leilão de liquidação, pois era também criador e proprietário. Mario tinha muitos amigos, seus cavalos tinham um certo padrão, e muita gente foi comprar e prestigiar o evento, que se realizou no Parque da Água Branca, em São Paulo, local habitual de exposições e vendas de animais. Eu fui acompanhado por uma filha, olhamos todos os animais, conversamos com muita gente, circulamos e assistimos o leilão até o fim. Quando a minha filha e eu chegamos dias depois ao Rio, a minha mulher veio rindo me dizer que ela tinha recebido um telefonema de São Paulo, no dia seguinte ao tal leilão, de uma mulher não identificada que disse a ela, eu ter sido visto no leilão, o tempo todo abraçado a "uma garotinha", um escândalo para um homem casado. Ela já sabia que uma das nossas meninas, à época com cerca de 20 anos, iria comigo, e achou graça na fiscalização maldosa. Muitos anos mais tarde, fiquei sabendo que, quem havia telefonado, era uma pseudo–amiga, indignada com a "traição". Mulher é um bicho danado, há que se ter muito cuidado.

Antes de 1950, um fato curiosíssimo ocorreu com o cavalo uruguaio CLORO, que era de propriedade do Comendador Gervásio Seabra, pai dos irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra. CLORO fazia campanha no Hipódromo dos Moinhos de Vento, o que antecedeu o Cristal, em Porto Alegre. CLORO era treinado por Pedro Casella. Quem cuidava na Gávea dos animais do Comendador era o treinador Gonçalino Feijó. Resolveram que CLORO iria correr o Grande Prêmio Paraná, no então Hipódromo de Guabirotuba. Gonçalino mandou um cavalariço–redeador de avião para Porto Alegre, para que o cavalo fosse para o Paraná. Naquela época, os transportes eram feitos por trem, e com seu acompanhante, CLORO iniciou a viagem em uma quinta–feira pela manhã, e após 12 horas o trem parou para passar a noite, já que os trens só andavam de dia e de segundas às sextas–feiras (às noites e aos sábados e domingos, ficavam parados). No primeiro dia, 12 horas de viagem, até Santa Maria. E assim, a cada fim de jornada, o cavalariço–redeador arranjava um lugar para soltar o cavalo, um gramado onde o CLORO pudesse passar a noite solto. Manso, bem atendido, no dia seguinte cedo voltava ao trem para nova jornada. O cavalariço–redeador dormia por perto, a cada parada pedia auxílio a um ou a outro, que nunca era negado. Em uma das paradas teve que ser feita uma baldeação, o trem parava de um lado de um rio, e o cavalo foi puxado para uma balsa, e do outro lado pegou outro trem. Fez trechos em vagão com comodidade para cavalos, e em outros para gado, vagão sem teto (não havia outros animais, era só o CLORO e o seu cavalariço–redeador). Assim o cavalo saiu de Porto Alegre, atravessou Santa Catarina, e chegou a Curitiba após oito ou nove dias de viagem. Já sem ferraduras, que se gastaram pelo caminho, CLORO foi andando do trem até o hipódromo. No dia da chegada, sexta–feira da semana anterior ao Grande Prêmio Paraná, o cavalo foi ferrado e levado a caminhar. Também só andou puxado no sábado e no domingo. De segunda–feira ao sábado, galopou diariamente com o seu cavalariço–redeador, não realizou nenhum trabalho, nem forte nem suave, nem distância nem partida, só foi bem galopado. CLORO correu assim o GP Paraná. Foi montado por Armando Rosa, que, como costumava fazer, atropelou na última reta junto à cerca externa. CLORO foi segundo, perdendo por cabeça para BROTE, treinado por Roberto de Oliveira Filho e montado por Noé Monteiro. No dia seguinte, segunda–feira cedo, CLORO voltou a viajar, de trem, de volta para Porto Alegre. Sem um sábado e domingo no meio, chegou ao seu destino no fim da sexta–feira, sempre manso, enfrentando as condições inóspitas sem criar casos, aceitando tudo com mansidão. Foi entregue para o seu treinador Pedro Casella. O cavalariço–redeador pegou um avião e voltou para o Rio.

Nome do cavalariço–redeador?  ALCIDES MORALES, o treinador vivo maior ganhador de corridas no Brasil, a caminho de 2.800 vitórias (em 28/11/06, só na Gávea, tinha 2781 vitórias), e mais de 180 vitórias em provas do calendário clássico.

De simples cavalariço, a cavalariço–redeador, só redeador (trabalhava de parelha com Francisco Irigoyen), foi a segundo–gerente do treinador Gonçalino Feijó, e depois a treinador de sucesso incontestável.

ALCIDES MORALES, uma vida de sucessos.

por Milton Lodi



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