Francisco Soares de Abreu é
treinador há 49 anos. Uma das figuras mais populares do turfe, “Chico Preto” está com 83 anos. Mora há décadas na
Vila Lagoa 23. A cocheira, toda pintada, com jeito de nova, comprova o zelo e a dedicação do veterano
profissional.
Chefe de família numerosa, tem quatro filhos, sendo três homens: Cláudio, que foi jóquei,
formado em química, mora em Iguaba Grande, onde é proprietário de duas farmácias e está abrindo uma terceira;
Oseas, ex–treinador, atualmente atua no ramo de antiguidades; e Amaro, engenheiro, reside em Manaus. A filha,
Apolônia Rita, é bióloga, trabalha no Fundão e também é dona de farmácia, em Iguaba Grande. Tem, ainda, três
filhos de criação: Luiz Henrique, técnico em Raios–X; Luiz Carlos, técnico em hidráulica; e Luzinete, assistente
social.
Sua estréia, como treinador, ocorreu no dia 13 de setembro de 1956, apresentando a égua
Maranita. O presidente João Goulart, turfista e amigo de Chico Preto, era sócio do cavalo Bar, nascido em 1958,
filho de Vagabond II e Palina, da criação Peixoto de Castro, que corria em nome do brigadeiro Franklin Rocha. Foi,
sem dúvida, o melhor animal que cuidou.
No Grande Prêmio Brasil de 1964, num lote de 16 animais,
montado por José Portilho, Bar terminou em terceiro para Leigo e Don Bolinha. Outros animais do presidente atuavam
na farda do Stud Sidi, em sociedade com Isaac Sidi. Foi uma época de muitas vitórias, com Chico Preto figurando
entre os mais vitoriosos na estatística. Jango mantinha, também, o Stud Uruguaiana. Gostava tanto de corridas,
que, em certas ocasiões, ficava incógnito no pátio de automóveis, assistindo a alguns páreos.
Passados
esses tempos, os de maior brilho em sua longa carreira, teve outro cavalo muito bom, Lugareño (1976), ganhador de
várias corridas na Gávea. O filho de Estentor venceu o GP Presidente da República em 1982, no Tarumã. – em 81,
havia obtido a segunda colocação na mesma prova, em Porto Alegre, no Cristal.
Um fato curioso aconteceu
quando Lugareño venceu um Grande Prêmio no hipódromo de Campos. Chico Preto tinha por hábito assistir as corridas
locais de dentro da pista, na cerca externa. Naquela época, a iluminação do prado campista era muito precária. No
último páreo, dia fechado de inverno, Chico, de sobretudo preto, postou–se no lugar habitual para acompanhar a
carreira. Um cavalo atropelou pela cerca externa e, na escuridão, atropelou Chico Preto. Felizmente, nada de mais
sério aconteceu. Quem duvidar da história, pergunte ao treinador.
Francisco Abreu sempre foi muito bem
relacionado. Além do presidente João Goulart, foi amigo do ministro Oswaldo Aranha, turfista e grande criador,
titular do Haras Vargem Alegre. Mantém ótimo relacionamento com o prefeito César Maia, que quando comparecia ao
hipódromo, por ocasião do clássico em homenagem à Prefeitura, fazia questão de abraçar e conversar com o antigo
profissional.
No momento, Chico prepara alguns potros de propriedade do Stud Red Label, do advogado e
professor Paulo Saboya, ex–secretário de Justiça do Rio de Janeiro, que deverão estrear em 2006. Na quarta–feira,
21 de dezembro, durante a festa de Natal promovida pela Associação dos Profissionais, o presidente Marcos
Carvalho, numa justa homenagem, entregou a Chico Preto uma placa como reconhecimento pelo grandioso trabalho
prestado em favor do turfe. Emocionado, o treinador disse que não está mais em idade de ter fortes emoções. No dia
seguinte, pela manhã, ao mostrar, orgulhosamente, a placa ao repórter, disse: Querem matar o
Velho!
Chico Preto, homem digno e trabalhador, tenho a honra de ser seu
amigo!
por Sérgio Rezende