A sua voz era inconfundível na Rádio Nacional FM. Tinha aquele som afetivo do amigo do peito. O cara que você divide as alegrias, e, também as amarguras. Apaixonado por música, Hilton Abi Rihan escreveu dois livros inesquecíveis. Canções, cantores e compositores que marcaram o Brasil, e, Sambas enredos que marcaram o Brasil.
As outras paixões do dia a dia, na rotina desta vida, eram o futebol, e, o turfe. O Flamengo estava sempre presente, pela manhã, na padaria da Rua Djalma Ulrich, em Copacabana, no religioso café da manhã. E, as façanhas de Jorge Ricardo nas pistas da Gávea, eram outro tema do seu bate–papo. Puxa vida! Hilton foi embora e nem viu na telinha o triunfo de Courmayer ontem à noite. Foi o de número 13.351. Ele fazia questão de anotar num caderninho.
Hilton Abi Rihan era amigo dos seus amigos. Solidário, prestativo e atencioso. Era amante amante da música, e conhecia o assunto como poucos. Na profissão de radialista escreveu linda história nas rádios Nacional AM, na Rádio Globo, e recentemente, na Rádio Nacional FM. Aos 86 anos era um homem atualizado, vibrante e de bem com a vida.
No turfe viveu intensamente o dia a dia desde as décadas de 60. Nas conversas de outrora Luiz Rigoni era o tema predileto, assim como os jóqueis chilenos Juan Marchant, Oswaldo Ulloa e Pancho Irygoyen.
Depois surgiu Jorge Ricardo, que tomou conta do seu coração. Nos últimos tempos se afastou um pouco do prado. Preferia o agente credenciado da Djalma Ulrich, em Copacabana por causa dos amigos do dia a dia, Roberto, o Argentino, e, Miguel Italiano, que lhe municiava com as barbadas. Não tinha tempo para estudar as linhas do retrospecto por causa do horário puxado da Rádio.
Mais um amigo se foi. Hilton Abi Rihan vai deixar saudade. Aquela voz bonita e acolhedora ainda vai ecoar nos meus ouvidos por alguns anos. Desde o bom dia, nas manhãs da nossa padaria, até os jantares a beira da praia, falando do Flamengo dele, e, do meu Fluminense. E, o nosso assunto predileto. As coisas do turfe. As proezas de Juvenal Machado da Silva, que deixaram saudade. O violino de Luiz Rigoni que toca para eternidade no dorso dos cavalos. E, o incansável, Jorge Antônio Ricardo, que ama tanto o que faz, montar cavalos, que nem o mais sensível turfista, consegue entender por que ele se recusa a parar de montar. Hilton Abi Rihan era um dos poucos que sabia. Apaixonado por ele, ele sempre repetia. "Ricardinho é igual a mim. Eu não largo a rádio pelo amor que tenho pela minha profissão. Ele também não larga os cavalos por que a maior alegria de sua existência é estar em cima deles. Nada o traz mais euforia do aquela sensação".
Ontem à noite, quando Ricardinho comemorou o triunfo de número, 13.351 de sua vida, olhou para a câmera, mandou um beijo para os filhos em casa, e abraçou carinhosamente o jovem treinador, Lucas Dantas Reis, lembrei de imediato de Hilton Abi Rihan. Impossível evitar, sozinho no meu apartamento, as lágrimas que rolaram do meu rosto. Senti o vazio do meu coração. O tempo é inexorável. Mais um amigo se foi. Os gênios conhecem a cabeça dos outros gênios. Os cara comuns tão possuem esta capacidade. Hilton Abi Rihan, um gênio do microfone, tinha a alma que lhe permitia conhecer o gênio do esporte. Desliguei a televisão e fui dormir. O sono dos justos.
Puro–sangue melhor apresentado

Oak Chronnos vencendo agora, dia 27/07
Oak Chronnos, de criação do Haras Anderson, e propriedade do Stud Sampaio, teve apresentação de luxo de Roberto Morgado Neto, que aos poucos evolui cada vez mais na profissão, e um dia vai tocar o céu, e tocar nas nuvens, como um dia o fez o seu pai, o gênio, Roberto Morgado Júnior. Que Deus os proteja.
Joqueada da semana

F. Leandro
Francisco Leandro domina o turfe argentino com tenacidade e paixão. Consegue algo difícil para um esportista. Na Argentina, onde a rivalidade entre os hermanos e os brasileiros, existe absurda desde o futebol, até qualquer confronto de camisas de qualquer esporte. E é idolatrado por eles. São oito anos de domínio absoluto nos hipódromos de lá. No dorso de Votre Bien, no Clássico Peru, Grupo 2, Leandrinho fez gol de placa. Correu na frente um cavalo que normalmente atuar atrás, e ganhou a prova, ao surpreender os rivais. Fez quadriplete num dia, e, quimplete, no outro, e iluminou com o seu talento as tardes e noites de San Isidro e Palermo. Numa coluna em que só falei de gênios, não poderia deixar de mencionar este cearense porreta, que conquistou o país hermano.
Personagem

Ricardinho, recordista mundial de vitórias. 13.351 vitórias
Jorge Ricardo tem estátua na social de JCB. E por isso, de vez em quando, ele reencarna o homem, entra na raia, e, de ponta a ponta, ele faz as memórias das pessoas, simples mortais, que um gênio passou por aqui. Os proprietários, os treinadores, entre outros personagens do turfe, se esquecem dele, e, das alegrias que ele já os proporcionou e, as suas famílias, e, as fotos das vitórias tiradas com eles, durante tantos anos. Aí aparece o garoto Lucas Dantas Reis, filho de excelente profissional, Leonardo José Reis, e lhe dá montaria. Pode vivenciar esta alegria e sensação que só os gênios conseguem nos transmitir. Courmayer, de ponta a ponta, ganhou montada pelo personagem da semana. E, de tantas outras semanas de nossas vidas turfísticas.
Homenagem pessoal deste jornalista a Hilton Abi Rihan, que amava Jorge Ricardo. Morreu, mas lá de cima assistiu e vibrou com o
triunfo de jóquei com maior número de vitórias de todos os tempos.
Paulo Gama