Com o passar dos anos, alguns fatos do cotidiano nos sensibilizam e provocam, de imediato, autêntica viagem no tempo. De repente voltei ao passado, após a cordial iniciativa da nova diretoria do JCB, de antecipar para o próximo sábado, a primeira reunião semanal, e liberar a data de domingo, dia 25 de outubro, para o turfe paulista realizar com exclusividade a sua festa do Grande Prêmio São Paulo. Nos meus primeiros passos, aos 13 anos, no belo prado carioca, a programação de sábado contava com a minha absoluta preferência. Não sei bem explicar o motivo. Talvez, por sempre ter sido pessoa ansiosa, a sabatina me transmitia a sensação de que não era mais preciso esperar tanto pela jornada dos dias consecutivos do mais absoluto prazer e paixão. E, além disso, o fato de saber, que se as coisas não acontecessem como eu esperava, ainda haviam chance de recuperar o tempo e o dinheiro perdidos. Com sinceridade, não sei se era apenas isso. Haviam outros atrativos.
Depois de esperar o meio de semana, não cheguei a pegar o período de corridas nas quintas–feiras à tarde, o sábado surgia como a abertura das cortinas para o espetáculo de emoções. Alguns anos depois, surgiu a reunião de sexta–feira, substituída, recentemente, pela de terça. Chegar cedo no hipódromo aos sábados era um hábito da rotina. Nada de almoçar em casa. Na última tribuna popular, perto da entrada da reta final, e vizinha a grande curva, era servido, por volta do meio–dia, um angu maravilhoso. Depois de alugar um binóculo, com a moça da Tribuna A, o meu preferido era o nº 18, eu perambulava por todo o prado. Logo eram abertas as bombonieres, localizadas nas entradas laterais, a carrocinha de cachorros–quentes, entre outras opções. Além disso, havia a "Baiana", nas grades de entrada da Tribuna Especial B, com os sanduiches de carne assada e de linguiça. Bem servidos, uma delícia!
As corridas na raia de grama, nos sábados, tinham um desfile de fardas coloridas, lindas, tradicionais e temidas. Na grama leve, a pedra de apostas, sempre elegia como favoritos os cavalos dos Haras São José e Expedictus. Até hoje, ainda posso sentir brilhar, nos meus olhos, aquela tonalidade ouro, com costuras azuis e boné ouro, envergada quase sempre pelo chileno Gabriel Meneses. Que tocada! Que rigor! Para um menino de 13 anos, o cara era como um daqueles heróis dos desenhos animados, capazes de levantar o mundo com as próprias mãos. E magro, esguio e elegante, Gonçalino Feijó de Almeida, o Goncinha, um dos últimos freios ainda em atividade naquela época, vestia a farda branca, com mangas azuis e boné encarnado, da poderosa Fazenda Mondesir, da família Peixoto de Castro. Que coudelaria! Que jóquei!
Logo a seguir aconteceram as minhas primeiras incursões na Tribuna Social. Eu já estava mais velho, tinha alcançado a maior idade, e até já esperava dar 13h30m para telefonar para o popular "Espada", o Valmir, que organizava a melhor "redoblona" da cidade. Qual turfista que se preza nunca fez esta aposta, que nem mesmo o Google consegue identificar tal palavra? Para nós todos era uma palavra mágica. Uma palavra santa, semana após semana. O Valmir se foi há alguns anos. Mas deixou um exemplo de homem digno, gentil, cordial e elegante. Por onde andará agora o Mapa do Valmir? Todos nós turfistas o escondíamos da segurança do clube. Até muitos de vocês, que hoje estão por aí, no alto da Tribuna Social. Não é mesmo? Bons tempos, sem fantasmas, sem tamanha hipocrisia e nem tantos pecados mortais. Qual de vocês turfistas não tem um sábado inesquecível na memória? Pode ser que no próximo dia 24 de outubro você possa vir a ter outro. Quem sabe? Uma tacada? Talvez... A gente nunca sabe, não é?
Por Paulo Gama