O tempo é inexorável. E lá se vão 33 anos. Numa rápida viagem no tempo, convido vocês, turfistas, a dar um pulo no ano de 1987. Que ano glorioso para o nosso esporte! O Haras São José Expedictus, da família Paula Machado, presenteou os turfistas com mais uma das tantas joias da sua criação através da história do turfe brasileiro. Itajara, que na língua tupi–guarani, significa, o senhor das pedras. Eleito numa promoção do jornal “O Globo”, o melhor cavalo de corrida brasileiro de todos os tempos, o filho de Felício e Apple Honey, pode até não ser unanimidade neste sentido. Mas, uma coisa ninguém jamais vai discutir. Numa houve um puro–sangue tão popular, tão carismático, e com tanta capacidade de encantar as multidões e divulgar o turfe nacional. Um craque inexpugnável, que marcou época.
Itajara nas pistas era sinónimo de hipódromo superlotado. De espaço generoso na mídia. De narrações inesquecíveis do saudoso Ernani Pires Ferreira, no Programa “Fantástico”, nas noites de domingo na televisão. Itajara correu sete vezes e jamais foi derrotado. Parecia uma força da natureza, com a velocidade do vento, do som e da luz. Para ele não havia trem de corrida. Preparado pelo treinador Francisco Saraiva e montado por José Ferreira Reis, o Reizinho, ele ignorava os rivais. O ritmo era imposto por ele. E foi assim, que depois de ganhar três páreos de turma, foi a esfera clássica para ganhar os GPs Estado do Rio de Janeiro, Francisco Eduardo de Paula Machado, a Taça de Ouro, Cruzeiro do Sul, o Derby, e Jockey Club Brasileiro. Tríplice–coroado invicto.
Itajara, muita gente desconhece esta informação, seria a primeira foto a cores do antigo Jornal do Brasil, onde eu trabalhava naquele período. E isto aconteceria no dia em que ele ganharia o Grande Prêmio Brasil. E numa semana em que a Seleção Brasileira de Futebol estava jogando. Itajara já tinha sido comparado a tudo e a todos que eram importantes, inclusive ao rei do futebol, Pelé. João Saldanha escreveu na sua coluna. “Itajara, o cavalo do povo”. E outros cronistas diziam que ele era o Pelé do turfe. Infelizmente, grave contusão no tendão, obrigou os seus responsáveis a leva–lo de forma prematura para a reprodução. E Itajara não pode incluir no seu currículo, o triunfo na maior prova do turfe brasileiro. Que pena!
Na sua despedida das pistas, o prado carioca ficou lotado, para que os fãs se despedissem dele. E Itajara fez um galope ovacionado pela multidão. Comparado, em termos de popularidade, apenas a Tirolesa, craque da criação Seabra, da década de 50, Itajara proporcionou momentos mágicos e calorosos aos turfistas cariocas e brasileiros. E foi, sem sombra da dúvida, o maior garoto–propaganda do esporte na história com sua incrível aceleração. O seu triunfo no Derby, em que ganhou disparado e fez parecer que os outros concorrentes estavam paralisados, foi um dos momentos eternos do prado carioca. Na entrada da reta, o público de todas as tribunas se levantou de forma simultânea, como se tivesse havido um ensaio, e começou a aplaudir a sua vitória 600 metros antes que ela fosse consumada. E ela veio por vários corpos. Quem viu este momento, e, graças a Deus, eu estava lá para ver, sabe muito bem o que significa um puro–sangue da mais absoluta exceção. Capaz de hipnotizar a plateia e levar ao delírio milhares de indivíduos. Itajara era assim. Um fenômeno!
por Paulo Gama