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Setembro | 2010
Em homenagem ao ilustríssimo Fragoso Pires, por Luiz Fernando Dannemann 28/09/2010 - 23h35min
Na primeira reunião após as eleições de Maio de 2008, numa sexta feira chuvosa, compareci ao Hipódromo da Gávea em companhia do Guignoni especificamente para desejar boas vindas ao LECCA, sendo recebido pelo embaixador Pires do Rio, que me disse estar o novo Presidente do JCB em viagem pelo interior de São Paulo. Era um ato simbólico que demonstraria ao LECCA, que embora tivesse trabalhado imensamente para que aquele abraço fosse dado no Cláudio Ramos, eu estava priorizando o turfe, deixando de lado qualquer situação política em prol das corridas de cavalo.
Naquele momento, em que fui surpreendido com a ausência do novo Presidente logo na primeira reunião turfística do clube sob seu comando, sentado no meu camarote, após encaminhar o meu desejo de sucesso ao ingressante por intermédio de um de seus vices, lembrei–me imediatamente do “day after” de José Carlos Fragoso Pires.
Era numa quinta feira e a Tribuna Social, que na reunião anterior, parecia uma cidade abandonada, estava lotada, completamente diferente, não apenas em número, mas, sobretudo em gênero. As pessoas estavam acompanhadas das respectivas mulheres, e também dos filhos, numa imediata demonstração de que estava ocorrendo uma mudança significativa no cerne da instituição.
Na comissão de corridas daquela grandiosa noite os diretores eleitos, Afonso à frente, promoviam uma digna revolução, um autêntico choque de ordem. Lembrei–me perfeitamente do Toni Quintella ingressando no carro em direção ao partidor para acompanhar a largada de cada páreo, bem como das primeiras resoluções sendo assinadas, nas primeiras horas daquele mandato, o Jockey Club Brasileiro renascia das suas próprias cinzas.
Não era uma mudança apenas de homens, era uma mudança de atitudes, de comportamento, era os turfistas reassumindo o prado após longos anos de estagnação onde o clube, através de pessoas que viviam apenas à sombra de um passado (Luis Eduardo da Costa Carvalho entre eles) tentavam erradamente manter vivos certos sobrenomes que já não mais existiam, algo que morrera com alguns turfistas consagrados e que não encontrara sucessão eficiente, presididos por alguém que não representava o turfe, eleito também pela parte distante do hipódromo, pelos chamados “votos de cabresto”, muito mais infiéis ainda do que os votos da garagem e da piscina.
Durante anos o clube viveu como se fosse uma estátua do “velho” Paula Machado, aquele que se hoje fosse vivo, nenhum tipo de especulação estaria investindo contra os órgãos vitais da instituição, ninguém ousaria sequer levantar simbolicamente uma marreta em direção a uma só cocheira, haveria de ter sempre um segurança pronto a expulsar esse tipo de vilão.
A candidatura do LECCA teria sido apenas mais uma tentativa de tentar manter viva a era Taunay, de tentar criar um novo mito, de fomentar um novo erro, desta feita, baseado em um turfista comum, sem a determinação e a história suficiente para congregar o turfe, alguém que não deveria ter ultrapassado jamais as grades da varanda do Salão das Rosas, que devia ter se calado diante da investida de Julio Bozano, e ter priorizado o clube ao invés da sua vaidade ferida quando lhe foi retirado o apoio por algumas lideranças que hoje já não lutam por mais nada aqui, como é o caso de algumas famílias consagradas, ícones da criação, e que hoje preferem se manter caladas.
Nas primeiras semanas de seu mandato, tal como José Carlos, só que em direções opostas, LECCA já dissera ao que veio. Colocou uma espécie de “porta voz” para falar em nome dele e tratou de virar as costas para os sócios e para uma série de conselhos que lhe demos, tratando de caminhar apenas em busca de seus funestos programas, que nada mais eram se não tentativas completamente erradas de repatriação dos recursos do clube.
LECCA confundira tudo, passou a governar como se tivéssemos tomado um dia recursos do exterior, tratando de fomentar uma banca de apostas internacional, que aqui veio fazer morada, dando–lhe novas armas para destruir o nosso MGA; instalando televisores na tribuna social; cedendo sem luvas a nossa melhor agência; perdoando todas as dívidas; rasgando as cláusulas de proteção que possuíamos diante do jogo paralelo; e aceitando continuar engavetando notas fiscais contra o clube sem qualquer raciocínio fiscal.
LECCA ainda fizera mais, assinara com o inadimplente perdoado, sem concorrência, e sem nenhuma proposta de retorno, um contrato que outorgava direitos de instalação de milhares de máquinas caça–níqueis dentro do hipódromo, sem que consultasse ninguém para fazê–lo, sequer um companheiro eleito como ele como manda o Estatuto. LECCA dera ainda autorização para que esse grupo estrangeiro, em nome do clube, desenvolvesse um “trabalho” para obtenção de licenças na capital da República.
Sobre o tema Estatuto, LECCA também protagonizara um outro vexame ao ter que abortar uma convocação já feita para uma AGE que votaria uma reforma maldita na “constituição” do clube, ao escrever sozinho, sem consultar novamente ninguém, cláusulas estapafúrdicas que colocavam a instituição a mercê de um monocrata, já preparando o terreno para transformar o clube num Cassino sem Vilas Hípicas.
Quanto às transformações, tratou também de demitir quase todos os funcionários importantes do clube em troca de outros com salários superiores, diminuiu cerca de 90% da segurança dos sócios, destruiu as pistas de treinamento, o peão do prado, acabou com o “bombril”, aumentando o ativo do Restaurante Victória, deixou a tribuna social sem serviço de restaurante, demitiu Ernani Pires Ferreira e não ocupou os principais cargos do clube, como a Casa de Apostas, o Marketing e principalmente a presidência da Comissão de Corridas.
Paralelo a isso tudo dera provimento, assinatura e esperança a um plano atravessado, igualmente maldito, que existia nas gavetas do clube, que tencionava exatamente destruir as vilas hípicas em troca de escritórios comerciais. Novamente sem concorrência, uma vez mais aceitando a primeira pessoa do singular, acatando o primeiro e único número que permitiu aparecer. Novamente uma AGE convocada, e novamente uma AGE adiada. Nova exposição do clube na mídia, novo enfrentamento com os sócios, e nova perpetuação da empáfia que trouxera de onde veio.
Sobre o projeto BOULEVARD, gostaria de abrir um parêntese para participar aos turfistas que o plano de demolir as Vilas não vinha acompanhado de nenhum centro de treinamento. Em reunião feita com o LECCA, na presença de seis outros sócios do clube, ele disse claramente que os proprietários teriam que ir ao mercado procurar alojamento para os seus cavalos, e que os comodatários e profissionais teriam que desocupar os prédio do clube.
Após esse fantástico depoimento, procuramos o Luis Oswaldo, bastante conhecido (não de mim) mais de alguns de nós, o “mentor” do projeto, proprietário da Performance, que motivara a Odebrecht a participar com ele disso, para dizer ao empreendedor que nada seria aprovado caso não existisse um plano de recompor as cocheiras em algum lugar e com elas restabelecer os direitos dos profissionais e proprietários. Nascia, exigida por esses turfistas, a promessa de um Centro de Treinamento, muito a contragosto de uma pequena corrente que apoiava o LECCA, composta de um proprietário de Centro de Treinamento.
Imaginem os senhores que o plano inicial era na direção de MAGÉ. O Jockey Club Brasileiro, e o empreendedor proporiam a mudança dos cavalos para o município de Magé, tendo ao que se sabe iniciado até conversas com o proprietário do antigo Hipódromo Ipiranga. Essa era a “região serrana” preferida do LECCA e dos interessados, uma solução pronta e perfeitamente confortável para o bolso, nada pobre, do projeto. O JCB da era LECCA, por ele, mudaria–se para Magé. Estava aprovado, e ponto final.
Tanto o CASSINO quanto o BOULEVARD estão sendo pensados sem qualquer sustentação econômica, sem que o clube (e o turfe) tirassem o melhor proveito deles, seriam projetos em que os “especuladores” seriam o melhores beneficiados. Perderíamos as cocheiras e o hospital; incomodaríamos vários bairros vizinhos; faríamos um LOBBY enorme junto ao Prefeito e Vereadores; nos desgastaríamos junto aos formadores de opinião contrários aos dois empreendimentos; nos colocaríamos no epicentro da conhecida guerra dos caça–níqueis; desalojaríamos centenas de pessoas provenientes das famílias dos profissionais; arriscaríamos perder os apostadores em cavalo e os cavalos dos proprietários pequenos, que são a mola mestra dessa atividade; seríamos “usados” em Brasília, e tudo isso para beneficiar terceiros, para proporcionar novos bilionários de fora, para que os “barões” do jogo e os “coronéis” da construção civil fossem os únicos contemplados.
A triste e desnecessária participação minoritária em nosso próprio latifúndio, o continuado estado de pobreza diante da apresentação desses números, a inviabilidade de futuro para a nossa instituição, e o empobrecimento dos nossos profissionais, tratariam de envergonhar a nossa história.
Fechado o parêntese, e concluindo: Por isso sou OPOSIÇÃO ao LECCA; por isso, na minha casa, ninguém suporta sequer ouvi–lo; por isso nos mudamos para Campinas exatamente para não vê–lo; por isso não pouparemos qualquer esforço para frear essas investidas não revestidas de qualquer interesse para a instituição. Por isso faremos de tudo para não fazer parte, nem do outro lado, dessa vergonha que querem transformar um clube de corridas de cavalo com tradição secular.
Talvez a especulação dos barões e coronéis, nem sequer imaginam a quanto monta os investimentos da criação nacional, talvez não tenham se dado conta de que o clube tem dono e que não pertence a uma só pessoa e muito menos estaria desprotegido.
Para finalizar, quero dizer que essa semana, eu pude conversar longamente com o nosso eterno Presidente: Dr. José Carlos Fragoso Pires, o que por questões éticas manterei o nosso proveitoso diálogo sob reserva, porém farei uma revelação no mínimo tão surpreendente quanto vem sendo pra mim (negativamente) esses programas paralelos ao turfe que o LECCA nos propõe desde que assumiu.
José Carlos me fizera recordar, que embora tivesse aprovado junto aos sócios um empreendimento comercial que ficava no subsolo do peão do prado, muito mais interessante sob todos os pontos de vista do que esse que aí está, em que o clube receberia 34% da receita (e não 12,5%), além de preservar as Vilas Hípicas e etc., desistiu de levá–lo adiante pelo simples fato de que a movimentação de terra, tal como a que acarretaria no “Boulevard”, em que seriam necessários milhares e milhares de caminhões para remover os entulhos em direção à Barra da Tijuca, e ainda os milhares e milhares de caminhões necessários a transportar os materiais de construção em direção a ele, não apenas acabaria com a paz dos bairros vizinhos, como também sujaria a cidade toda, da zona sul a zona oeste, da zona leste a zona norte, e que o empreendimento seria fatalmente embargado pela justiça, o que faria da "emenda" algo pior do que o "soneto".
Esse é o ponto que difere o nosso JCB, do JCB do B deles; é a prova de que devemos começar a construir agora uma CHAPA ÚNICA formada por verdadeiros turfistas, que possam discutir em grupo, baseado em um leque máximo de propostas e alternativas que venham efetivamente ajudar a superar os nossos problemas, reunindo esforços responsáveis para fazer retornar o turfe ao caminho em que trilhava naqueles anos noventa, sob o comando e o bom senso de José Carlos Fragoso Pires. |

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