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Julho | 2015

Handicap automático, uma idéia infeliz.
24/07/2015 - 17h35min

As mudanças são sempre complicadas de serem aceitas. Sempre que se propõe algo novo, aparecem milhares de conservadores no mau sentido para atacar o proposto seja ele um novo modelo de negócio, um novo modelo de relação de trabalho, um novo modo de se comunicar ou mesmo uma nova forma de se organizar os páreos do Hipódromo da Gávea.

Acredito muito que o ser humano não pode de jeito nenhum ser reativo. A situação fica mais agravante ainda quando percebemos, como já foi mostrado algumas vezes neste espaço comparando–se um programa de 50 anos atrás com os de hoje, que nosso esporte parou no tempo! Nosso modelo é antigo, aliás antigo não, antigo nos remete a algo positivo, nosso modelo é velho, ultrapassado e há vários pontos que podem ser atacados neste sentido como por exemplo o horário dos páreos, o intervalo entre os mesmos, simulcasting ou corridas "solteiras", entretenimento entre os páreos, quantidade de páreos por dia, quantidade de reuniões por semana, dias da semana em que os páreos são corridos (hoje em dia as corridas concorrem com um sem número de atrações nos fins de semana, o que não ocorria há cinquenta anos) e etc... Qualquer tentativa neste sentido, ainda que seja frustrada, acho completamente válida.

Há mais de um ano, esta associação, em conjunto com a associação dos profissionais do turfe, já alertava, em várias matérias, para a dificuldade que o Jockey Club Brasileiro encontraria para formar páreos em futuro próximo àquele (ex. http://raialeve.com.br/conteudo/index.php?cod_cont=55297&&mes=04&&ano=2014&&cod_secao=3). Hoje, diante da dificuldade de formação de páreos, o JCB, ao invés de preocupar–se com o seu negócio, com sua tarefa empresarial, tira da cartola uma idéia que funciona relativamente bem em um país vizinho com condições de contorno completamente diferentes da brasileira e tenta enfiar goela abaixo de proprietários e profissionais cariocas sem qualquer debate bem à moda da casa.
Mesmo assim, por uma questão de perfil pessoal, não admito ser reativo a qualquer mudança e resolvi estudar a proposta do tal Handicap Automático. Depois de entender a proposta e verificar o já dito acima, ou seja, que nossas condições de contorno (inscrição paga, profissionais com cultura diferente, profissionais em situação calamitosa, comissão de corridas pouco atuante e etc...) são completamente diferentes resolvi analisar os páreos do último fim de semana, corridos entre 17 e 20 de Julho aonde o os valores de rating estabelecidos pelo Jockey Club Brasileiro estavam escritos no programa oficial.

Adotei como premissa, para avaliar a nova proposta e a capacidade de classificação do handicapeur do Jockey Club Brasileiro, fixar–me nos resultados dos páreos aonde tivéssemos animais que estivesse correndo com o mesmo peso e que tivessem rating com pelo menos 4 pontos de diferença. Para que os leitores tenham uma idéia, quatro pontos de diferençam separam por exemplo o ganhador de grupo I Caballo de Hierro do bom Case In Point que já fez sucesso em alguns páreos de claiming e hoje encara turmas um pouco mais fortes. Os mesmos quatro pontos, separam a ganhadora de grupo II Desert Dream do valente Valmayor ou o também ganhador de Grupo Beauséjour do bravo Ninho del Sol ou de Jorge Baú.
Acredito que os leitores tenham entendido bem que quatro pontos, teoricamente denotam uma turma completamente diferente, ou seja, animais que nem deveriam estar alinhados no mesmo páreo salvo no caso de alguma aventura dos responsáveis pelo de menor rating.

No período, tivemos nada menos do que dez dos vinte e seis páreos possíveis (páreos de 3 anos perdedor todos possuem rating 0 e provas clássicas retiramos da contagem porque obviamente todas irão apresentar tal diferença) aonde tínhamos animais com rating de pelo menos 4 pontos a mais com o mesmo peso ou mais leves (sic) do que outros.

Se já é absolutamente estarrecedor observar que aproximadamente 40% dos páreos continham animais que teoricamente, pela classificação do JCB nem deveriam estar alinhados disputando o mesmo páreo ou se tivessem deveria haver uma considerável diferença de peso entre eles, mais estarrecedor ainda é o resultado destes páreos. Em oito dos dez páreos, os animais de rating maior não se sobrepuseram aos de rating menor mesmo não concedendo nenhuma vantagem de peso aos mesmos, mesmo nos páreos aonde os de rating maior eram maioria numérica. Em apenas dois páreos os animais de maior rating se sobrepuseram.

Este resultado sepulta de uma vez por todas a idéia de que o tal Handicap automático possa ser uma solução viável para nosso turfe, seja pela incompetência de nossos handicapeurs em estabelecer os ratings, seja pela cultura de nossos profissionais, seja pela natureza da idéia, seja pelo que for!

Se já não bastasse a absurda idéia de modificar completamente a chamada dos páreos sem prévio debate com os principais stakeholders, a idéia em si é terrível!

Arthur Stern
Presidente da ACPCPSI



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