Nos últimos 20 anos, ou talvez mais, me acostumei a pegar o taxi do C.A.Martins na portaria da Tribuna Social do Jockey Club Brasileiro. Era um papo agradável, cordial e sempre espirituoso. Carlinhos era um bom homem e sempre teve bom coração. Durante muito tempo, a nossa conversa, no trajeto Praça Santos Dumont até a Rua Sá Ferreira, em Copacabana, falava das suas idas e vindas à profissão de jóquei. Os seus problemas de peso, as poucas oportunidades, as injustiças e a enorme dificuldade de sustentar a sua família montando cavalos de corrida.
Na verdade, Carlos Alberto Martins era um excelente motorista. Calmo, habilidoso e atento igual ao menino franzino que vi pela primeira vez, no dorso de um cavalo de corrida. Nos seus tempos de aprendiz, ele fez toda a plateia de turfistas cariocas jurarem que estava diante de um futuro jóquei consagrado. Foi uma vida sofrida. Com erros e acertos. Os erros lhe custaram vencer numa profissão em que a disciplina vale mais do que o talento. O jóquei apenas regular, mas esforçado e focado, às vezes chega muito mais longe do que ele próprio espera. Os talentosos, mas desajustados e indisciplinados, deixam para trás aquela frase interminável dos fãs: “já pensou se este cara tivesse mais comprometimento, mais juízo...”, etc. e tal.
Como pai e marido, entretanto, Martins teve muitos acertos. Sempre foi um sujeito agregador e carinhoso. As nossas rápidas conversas, no curto trajeto entre a Gávea e Copacabana agora haviam mudado completamente de foco. O assunto era sempre a filha Marcelle Martins. Carlinhos conhecia bem os seus erros e era exigente com a joqueta para que ela não os repetisse. Vibrou demais e se realizou através dela no tempo das vacas gordas. Um tempo em que ela, com a descarga de aprendiz e menos os dois quilos como joqueta, assinava mais montarias do que todos os jóqueis da Gávea. Vitórias e mais vitórias. Era a redenção de Carlinhos.
Com a passagem a categoria de jóquei, e por consequência a perda da descarga, e posteriormente a diminuição de um quilo por ser joqueta, Marcelle entrou no inferno zodiacal. E Carlinhos sucumbiu a mais esta decepção. Lutava com um estado de saúde debilitado. Ele sofria com a falta de oportunidades da menina e os seus erros na vida pessoal. A fase ruim da filha o fazia se arrepiar e voltar ao seu próprio passado. Nas segundas–feiras, Carlinhos acompanhava Marcelle até a Tribuna dos Profissionais para incentiva–la no dia de assinar montarias. Na maioria das vezes poucas oportunidades. E aí, a inevitável decepção.
Nos últimos meses, entretanto, Carlinhos estava eufórico com as oportunidades surgidas para Marcelle montar nos Estados Unidos. Pediu–me para que conversasse com ela antes da viagem e a orientasse melhor. Coloquei–me a sua disposição. Mas não houve tempo. Antes que lhe dirigisse a palavra, o avião da joqueta, com destino aos Estados Unidos, decolou. E o taxi do C.A.Martins. Bem, infelizmente, este nunca mais vai me levar até Copacabana...
por Paulo Gama