O turfe carioca, no final da década de 70 e início dos anos 80, era uma festa. O Hipódromo da Gávea sempre tinha as suas arquibancadas lotadas. Belas joqueadas eram aplaudidas de pé pela frenética assistência. E direções duvidosas eram premiadas com vaias ensurdecedoras e gritos de protestos. Eram outros tempos. Tempos da chamada imprensa escrita e falada. Nos jornais, a cobertura diária era enorme, com os aprontos e trabalhos de distância revelados pelos cronometristas, Oscar Griffiths e Gil Moniz Viana. Nenhum turfista se encaminhava ao prado sem estar por dentro dos treinos dos cavalos. E, além disso, o noticiário era vasto, com informações das cocheiras, programação dos principais craques e entrevistas sistemáticas com jóqueis e treinadores para falar das melhores montarias e inscrições.
Além desta intensa interação entre os turfistas e a imprensa, através dos jornais, haviam promoções especiais comandadas pelo jornalista Wilson do Nascimento, popularmente conhecido por “Mosquito Elétrico”. Wilson era moreno, baixo, agitado e com uma fala rouca e fina. O apelido lhe caía com perfeição. Falava sem parar, não ficava quieto por muito tempo e não se conformava com a inércia. No último domingo, ao ver o marasmo em que se transformou o turfe carioca dos dias atuais senti saudade de Wilson do Nascimento. Devo admitir, entretanto, que em 1984, em que cobri as férias do Gil Moniz Viana, no jornal Última Hora, ficava impaciente com a agitação ininterrupta do Mosquito Elétrico. Ele era então o editor de turfe, ou seja, o meu chefe. E aturar, durante 30 dias, o seu falatório na redação e as intermináveis telefonemas, foi uma eternidade. Mas Wilson Nascimento foi um grande promotor de eventos populares.
Durante o seu período na redação do jornal, ele fez o concurso de palpites entre os jóqueis e treinadores. Promoveu o troféu “O Homem do Turfe”, que todo ano homenageava o melhor dirigente do esporte da temporada, geralmente um criador ou proprietário. Envolvia a diretoria do Jockey Club no evento e fazia a festa de entrega do prêmio no picadeiro de escola de aprendizes. Era organizado um churrasco gigante com participação de profissionais e dirigentes. Todo ano também promovia o concurso “A Rainha do Turfe”, em que modelos desfilavam numa passarela. Uma delas era eleita à rainha e recebia a coroa da vencedora no ano anterior. Estas promoções eram acompanhadas com interesse pelos turfistas e popularizavam o esporte. Wilson foi responsável também pela edição de um tabloide semanal de oito paginas exclusivamente com entrevistas e matérias sobre turfe. O tabloide era distribuído, às sextas–feiras, junto com o jornal Última Hora, nas bancas de jornal.
No último domingo, dia do Derby, fiquei impressionado com a pouca presença de público. Os melhores puros–sangues do Brasil na raia. A presença no prado de três dos melhores jóqueis da América do Sul, Pablo Falero, Jorge Ricardo e Altair Domingos. E, mesmo assim, pouco interesse popular. Teve chope, cachorro–quente e brinquedos para as crianças. Mas, infelizmente a divulgação só foi feita na televisão interna do clube. Wilson do Nascimento, um fanático turfista, deve ter se mexido na própria tumba. Com certeza, se ele ainda fosse vivo, teria idealizado umas três promoções diferentes numa paisagem tão linda. Os páreos teriam famosos homenageados. Os fãs se acotovelariam com os turfistas para aplaudi–los por que as celebridades viriam prestigiar pessoalmente o evento. O miolo do prado seria palco de alguma agitação popular. Provavelmente um funk barulhento no lugar do trompete. Uma gigantesca feira de artigos virtuais para motivar os adolescentes. Mas, infelizmente, nos dias atuais, não existem caras como o saudoso Wilson do Nascimento, o Mosquito Elétrico. O único mosquito da atualidade é o da Dengue. E deste, todo mundo quer distância.
por Paulo Gama