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Março | 2015

Na última sexta–feira o Raia Leve entrevistou o jovem proprietário Omar Tárik de Medeiros Vargens.
24/03/2015 - 07h50min

Arquivo Pessoal

Sr. Omar com o aprendiz W.S.Cardoso

Sr. Omar, poderia nos dizer um pouco como foi seu início no turfe? Seu pai sempre foi proprietário de cavalos. Nos conte um pouco da história de vocês no turfe.

Meu início no turfe ocorreu ainda na condição de nascituro pois, mesmo gestante, minha mãe (Aurea), acabava acompanhando meu pai (João Baptista), em qualquer hipódromo que lhes fosse possível visitar.

Bem, a história da paixão pelas corridinhas vem crescendo a cada geração. Meu avô (Hervê) era turfista de verdade! Por ser pessoa muito organizada, mas dispor de recursos financeiros limitados, todo mês, quando recebia o "ordenado", separava em envelopes valores para todas as despesas. Como podem imaginar, havia o envelope turfe!

A distância do subúrbio da Central ao hipódromo raramente foi empecilho às tardes vividas na Tribuna Especial A ou B. Nesse embalo, criou meu pai e influenciou, de forma reflexa, toda a família a entender um pouco de corridas de cavalos, especialmente sobre as modalidades de apostas.

Ocorreu que meu pai, não se satisfez em acertar uma acumulada e torcer de longe pelos ídolos de quatro patas. De tanto frequentar o hipódromo da Gávea, agora acompanhado ou não de meu avô, fez grandes amizades com jovens turfistas que se engajavam na atividade, entre eles, Leo Cury, ampliando, desta maneira, os conhecimentos sobre corridas, cavalos e bastidores.

Como nasci em dezembro de 1979, na década de 80 já estava por lá. Dei minhas corridinhas na pelouse, fazendo do programa um chicote, e catei pule no chão como todas as dezenas de crianças que frequentavam o prado. Contudo, gostava mesmo era de marcar o programa e de ver cavalo correr. Esse gosto aumentou ainda mais quando meu pai comprou o primeiro PSI em 1987, comprou não, compramos. Mesmo aos sete anos, acordava de madrugada aos sábados pra ver apronto, depois visitar o bicho na cocheira do Leo.

Daí em diante, com as novas amizades e experiências, tudo foi aumentando. Tínhamos sempre um cavalinho em Campos, o que proporcionava um motivo para, de vez em quando, viajar às terças também ao hipódromo dos canaviais e lá fazer outras amizades também, em especial com a tradicionalíssima família Gomes.

Era muito legal mesmo. Um mundo realmente mágico, não apenas para crianças.

Tem alguma história curiosa sobre algum animal que possa nos contar?

São várias, mas agora me ocorre uma. Eu devia ter uns nove anos quando o meu pai ganhou um cavalo, já inválido para corridas. Se não estou enganado, foi o D. Guignoni quem lhe deu o cavalo para levar para nosso pequeno sítio em Rio Bonito. A chegada do alazão, Fearless Boy, um quatro e duas vitórias, acredito, foi um acontecimento na região. Todo mundo queria vê–lo. O detalhe foi que o caminhão do Jockey Club de Campos passou por lá antes da construção do box que seria destinado ao novo hóspede. Para poder alojá–lo, uma das varandas da casa foi destinada ao nosso PSI de 500 kg! Devidamente fechada com bambus, uma cama foi improvisada e, por alguns dias, almoçávamos com a presença da cabeça do cavalo dentro da sala, entrando pela janela! À noite, talvez sentindo–se sozinho, ele batia na janela do quarto com a cabeça.

É evidente que diante da nossa inexperiência, alguns acidentes sem grande importância ocorreram, mas nada que pudesse abalar a excelente relação com o puro sangue. Virou um cachorrinho. Ficava solto o dia inteiro, completamente solto. Todas as crianças da região o montavam no pelo mesmo, até sem rédeas.

Com o tempo, alguns cavaleiros começaram a montá–lo e a fazê–lo correr nas estradas de terra batida. Pronto, sonho de turfista é sempre ver cavalo correr no prado... Após nova visita do caminhão de Campos, nosso companheiro foi embarcado para a cocheira do Genildo Gomes. Depois de alguns meses de galopes e trabalhos, o nome dele estava de novo no programa.

A expectativa era grande...Entretanto, verdadeiro turfista respeita o cavalo e quem entende dele. No dia do apronto final, meu pai acordou dizendo que havia sonhado que o cavalo não queria ou não ia correr, algo assim. Poucos minutos depois, ligou pra Campos e soube que o nosso cavalinho havia voltado a sentir o joelho e que, de fato, não poderia voltar a correr.

Muitos turfistas são mais afeitos às apostas, muitos são mais afeitos à criação, muitos mais ligados em tentar ser proprietário de um animal de exceção, outros buscando sempre um cavalo útil em animais mais experimentados. Como o senhor se define como amante do turfe? Quais “áreas” do turfe mais se interessa?

Interesso–me por tudo que está relacionado às corridas de cavalo. Não me importa onde e como. Leio sobre criação, treinamento, turfe internacional, o que estiver a meu alcance, tento me inteirar. Confesso que há alguns anos, mais de cinco certamente, as apostas não me tem despertado muito interesse. Quando estou no hipódromo, eventualmente, faço um joguinho ou entro de sócio de algum bolo que meu pai tenha marcado e ficado um pouco caro.

No que está relacionado à atividade de proprietário, está claro para mim que quero participar. É evidente que com um investimento limitado – e obviamente que a limitação não é por mim imposta –, fica mais complicada a corrida por cavalos de exceção. Ainda assim, estou com uma potranca da geração 2012 ainda por estrear... Já tentei criar lá no Paraná com uma égua mas, após o primeiro aborto, acabei me desanimando em razão dos custos de manutenção. Meu pai costuma dizer que eu gosto de matungo. Tudo bem, eu lhe respondo que gosto de receber prêmio às sextas–feiras... Cavalos medianos, não apenas pelo seu custo inicial, mas também pela frequência em que correm e pela enturmação que enfrentam, acabam proporcionando prejuízos e lucros menores. Como minha ideia é correr e obter o máximo de fotografias possíveis, não me importo.

O que o senhor mais admira em um profissional treinador? O que o faz escolher os treinadores com os quais prefere trabalhar?

Bem, como invejo o trabalho desses senhores que treinam cavalos de corrida... Certamente quem está de fora não tem noção das dificuldades da atividade. Tenho certeza, todavia, de que os problemas, em sua franca maioria, são trazidos pelos homens e não pelos atletas. Acho que além da dedicação, da organização administrativa, da capacidade de observação e do entendimento sobre corrida de cavalo e não somente sobre cavalo de corridas, o treinador deve ser integralmente honesto com os proprietários, seja a respeito da condição atlética do cavalo ou em relação a custos de manutenção. Temos cavalos para nos divertir, pago o trato como se estivesse pagando um terapeuta. Agora é chato ficar cético em relação aos profissionais, não gosto nem dessas conversas.

E em relação aos jóqueis, o que mais admira?

Como eram boas aquelas discussões entre torcedores do Juvenal e do Ricardinho... Há muitos jóqueis que nos brindam com direções fabulosas em páreos importantes. Isso mostra a capacidade, o sangue frio para tomar a decisão certa mesmo em situações de extrema tensão e responsabilidade. Por outro lado, valorizo o atleta, aquele que disputa cada carreira como se fosse a mais importante de sua vida. Aquele que, mesmo sendo consagrado, corre atrás das melhores oportunidades, pois quer sempre vencer. Quem está envolvido nesta atividade, tem que ter fixação pelo winner circle. O Ricardo certamente é o nosso maior exemplo.

Qual foi a sua maior alegria no turfe?

Uma vez o treinador Joel Redenschi, sem nenhuma intenção filosófica ou existencialista, suponho, disse–me que a simples transposição dos muros do hipódromo da Gavea já nos fazia entrar em um mundo de magia, que nos levava a esquecer os problemas que enfrentamos externamente. Acho que assim te respondo melhor. Foram muitas as alegrias, mas diante de público tão distinto, não há conquista na raia, seja como proprietário ou meramente como turfista, que possa suplantar a ideia de dividir a magia dos cavalos.

De qualquer forma, confesso que mesmo tendo visto correr Itajara e todos os craques que o seguiram, era fã de carteirinha do Much Better. Adorava vê–lo vencer. Ele e Ricardo simbolizavam uma dupla maravilhosa. Os adversários eram sempre os excepcionais, mas eram eles que, juntos e sem os devidos louros, venciam quase tudo e a todos. A cada páreo aparecia um fastasma que era indistintamente exorcizado pela dupla.

O senhor é um jovem proprietário. O senhor acha que o turfe pode ser atraente para um jovem (como turfista, proprietário ou profissional) hoje em dia?

Certamente. Acho, no entanto, que o turfe só pode ser atraente para quem tiver a oportunidade de conhecer suas atrações. Simples assim. Se eu não tivesse frequentado o hipódromo, não estaria aqui agora. Comprei meu primeiro cavalo com 26 anos. Já estava ansioso para isso. Agora, se as pessoas não forem convidadas e atraídas para irem ao hipódromo, não irão. Simples também. Não sou especialista em marketing ou em nada parecido. Agora, não é preciso ser nenhum astuto para perceber que, mesmo com o que temos hoje, parece haver uma diminuta exploração das nossas capacidades. Muito se discute sobre as soluções revolucionárias que vão salvar o turfe, vibro com todas elas, mas acredito no nosso "produto", temos apenas que saber valorizá–lo.

Não adianta pensar em apostas sem antes pensar em turfista. Se o que vem sendo feito nos últimos anos não tem conseguido trazer novos seguidores ao nosso clube, devemos procurar saber o que tem obtido sucesso em outros hipódromos e em outros ambientes de lazer e tentar implementa–los também na Gávea, como museu do turfe e do cavalo com visita guiada e brinde de vale aposta, bares temáticos sobre corridas de cavalos com funcionamento também durante as corridas, entre muitas outras opções de aproveitamento útil do espaço para o esporte fim .

Quando não oferecemos conforto ao visitante, uma transmissão com imagens, locuções e comentários que atendam ao padrão médio de exigência do público, parece improvável que ocorra uma mudança. A ideia percebida pelos visitantes é de que não são bem vindos, parece haver um grupo fechado de pessoas que se apropriou das corridas, sabe de tudo, a transmissão e as informações ficam restritas a eles. Até mesmo as datas das corridas são compartimentadas.

Como o senhor via turfe há cinco anos e como vê atualmente?

A despeito de qualquer dificuldade, eu sempre vejo o turfe com muita ilusão e alegria. Acho que é mais importante perguntar pra quem está fora da atividade. Dou o exemplo da minha esposa, a Carla. Quando a conheci, há quase dez anos, evidentemente, a levei ao hipódromo. Por ser uma pessoa afeta aos esportes em geral e por ter interesse sobre quase tudo que é bom, no primeiro dia, já se interessou pelos retrospectos e sobre tudo o que tinha a ver com o conhecimento do cavalo. Pouco tempo depois, já fazia suas apostas vencedoras que, em regra, iam contra minhas indicações. Seguindo o curso normal da coisa, interessou–se em ter sociedade em alguns cavalos comigo. Entretanto, em razão da alegada monotonia das transmissões que recebemos pela televisão e dos altos custos de manutenção, hoje apenas acompanha as corridas dos cavalos dos amigos e provas importantes. Por outro lado, quando estamos no Rio ou em São Paulo, gosta bastante de ir ao hipódromo, mesmo reclamando da falta de conforto e entretenimento entre os páreos, lembrando–me sempre que, na Argentina, corre páreo a cada 20 minutos!

Diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe brasileiro atualmente, acha que poderia ser feito algo para atrair novos proprietários e manter os atuais?

Várias medidas devem ser tomadas para tentar manter a esperança dos proprietários. Foi muito legal a iniciativa do bônus de verão e da isenção de taxa de inscrição, se puderem ser mantidos, melhor ainda. Acho que essa ideia de somente serem formados páreos com sete ou mais animais deveria ser repensada. Quanto menos páreos forem corridos, pior pra todo mundo. É evidente que, por não ter conhecimento a respeito das contas do turfe e coisa e tal, fica fácil comentar, etc. Ainda assim, o turfe não voltará a dar lucros promovendo–se menos encontros, imagino. Se a ideia principal for levantar a atividade, aumentar o movimento de apostas, temos que ter o máximo de corridas. Há outras coisas que não parecem sequer razoáveis, como páreo para potros de dois anos, a maioria inéditos, com treze competidores. Acho uma temeridade.

Frequentemente o espaço do leitor do site Raia Leve é invadido por críticas. O que pensa disto?

As críticas costumam ser muito importantes para o diagnóstico de muitos problemas. Acontece que as críticas que levantei aqui já foram relatadas reiteradamente por turfistas do Brasil inteiro, especialmente no Raia Leve, que é a nossa voz.

A grande dificuldade parece ser compartilhar um objeto que tenha as corridas de cavalo como centro. De fato, há muitos interesses envolvidos, alguns relacionados aos sócios não turfistas e outros meramente pessoais. Acho que as forças devem estar concentradas nas mãos de quem tenha o cavalo como prioridade, sempre com o apoio de técnico profissionalizado.

Por outro lado, causa–me grande desilusão quando vejo verdadeiros turfistas buscar nos profissionais, especialmente em jóqueis e treinadores, a razão do momento conturbado que vivencia o turfe.

Gostaria de deixar alguma mensagem especial aos turfistas, aos profissionais ou aos dirigentes de turfe brasileiros?

Poderia terminar com alguns clichês apelando para a união, por exemplo. Não acho que surta efeito. Acho que o momento da reflexão já deveria ter sido superado. Os problemas, em grande parte, já foram expostos e que sejam todos de vez externados. Acontece que ainda que ninguém tenha chegado com a solução mágica, que não acredito que exista, tenho a convicção de que com o pouco que nos resta é possível tentar reverter essa situação gradualmente. Formemos o maior número de páreos e o mais completo programa turfístico que possamos com as inscrições recebidas na segunda–feira; divulguemos por todos os canais viáveis a nossa programação; que a transmissão das corridas seja feita da maneira mais profissional possível, tentando–se passar emoção e informações também para aquelas pessoas que estão começando na atividade; que o hipódromo seja um ambiente acolhedor a todas as pessoas, viabilizando entretenimento, acessibilidade e conforto; que os turfistas em geral se solidarizem e procurem valorizar o evento mantendo um comportamento respeitador em relação aos presentes, e assim por diante. Parecem pequenos gestos, mas assim como estes, existem muitos outros que são imediatamente factíveis e indispensáveis para a reestruturação do turfe. Em conjunto, devemos exigir das lideranças dos clubes hípicos, não apenas por meio do voto, a atuação junto aos setores públicos e privados para alcançar o desejado soerguimento do nosso esporte.

Da Redação



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