Algo cobrado há muito pela comunidade turfística, com coro da ACPCPSI, cumprindo seu papel e que infelizmente não tem encontrado eco nas comissões de corrida brasileiras é uma maior transparência nas suas decisões. Em quase todos os países cujo turfe é desenvolvido as comissões de corridas emitem relatórios ao final de cada reunião que não possuem qualquer semelhança com as nossas conhecidas “Resoluções da Comissão de Corridas”.
O turfe é um esporte e todo esporte, para atrair amantes necessariamente precisa ser “honesto”, precisa ter suas decisões claramente definidas. Hoje em dia durante uma partida de tênis um jogador pode contar com a ajuda do computador para ter a garantia de onde a bola quicou. A mesma coisa acontece com praticamente todos os outros esportes. Até mesmo o retrógrado Futebol e seus duvidosos cartolas, que sempre foram a exceção à regra, já procuram como introduzir esta transparência no jogo.
No turfe, a questão é bastante mais sensível uma vez que é um esporte praticamente nascido para ter apostas e, aonde há dinheiro de terceiros, toda ação visando transparência é necessária. Neste caso o velho ditado romano “A mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta” é mais aplicável do que nunca.
Alguns poucos países do mundo estão um pouco atrasados neste caminho da transparência do turfe mas nenhum é tão retrógrado quanto o Brasil.
Mesmo nos Estados Unidos, um dos últimos países com turfe de “ponta” a trilhar este caminho, hoje em dia na maioria dos estados há os relatórios detalhados de cada páreo aonde os comissários informam tudo aquilo que viram no desenrolar da carreira e acrescentam alguma conversa com algum profissional ou mesmo proprietário que tenha sido chamado à comissão prestar esclarecimentos em relação à algo suspeito. Além disso, em muitos hipódromos, logo após a confirmação de um páreo (havendo desclassificação ou não) aonde haja reclamação ou sindicância, o serviço de auto–falante informa a todos os presentes os motivos e a decisão dos comissários.
Consistência nas decisões, na trilha da transparência
Ainda assim, já há uma forte pressão para que esta transparência nas decisões dos comissários seja maior diante de algumas inconsistências.
Recentemente, no último dia 21 de Fevereiro, três julgamentos em um mesmo dia em Gulfstream Park, incluindo um que desclassificou o favorito Upstarts no Fountain Of Youth Stakes (Grupo II), levantaram a questão da consistência nas decisões. Grande parte dos apostadores, turfistas, treinadores e comentaristas acreditam que naquele dia, muito mais do que alguma decisão particularmente ruim, não houve consistência nos julgamentos. Todas foram justificadas e fundamentadas nas regras no entanto o problema maior é que não houve consistência.
O comentarista do Daily Racing Form Mike Watchmaker por exemplo, escreveu que "Quando tomadas uma a uma, as decisões variaram de discutíveis a ruins, mas quando analisadas no contexto das três, pelo menos duas destas decisões se tornam contraditórias e absolutamente indefensáveis”.
Os comissários se defenderam afirmando que esta idéia de coerência é um pouco escorregadia. Eles afirmam que cada incidente na pista é único. Embora dois incidentes possam parecem ser idênticos para os turfistas, sutis diferenças em como os páreos se desenrolaram, no tamanho dos prejuízos e o momento do mesmo dão a cada julgamento, um caráter único. "É difícil ser consistente no dia a dia porque as corridas não são consistentes. Nunca dois julgamentos são iguais”, falou Dan Fick, diretor executivo de um grupo lobista chamado Texas Horse.
Embora pense assim, Fick não abre mão da transparência. Em uma palestra durante um workshop de comissários de corridas, fez da “Transparência” o ponto principal para os comissários de corrida, dizendo que isto acaba trazendo mais respeitabilidade aos comissários e melhora o relacionamento com os turfistas, encarados por ele como clientes.
Para Jerry Bailey, jóquei presente no “Hall of Fame” e comentarista de TV, os comissários tomaram uma decisão horrorosa na desclassificação de Upstarts no GP mas o maior problema que via não era somente a decisão mas sim a consistência com as outras decisões do dia, especialmente a do último páreo quando o azarão Danish Dynaformer chocou–se repetidamente com o favorito Dreaming of Gold e o páreo foi confirmado. “Como jóquei você quer ver consistência, você tem que saber o que os comissários estão “procurando”, se não sabe, fica frustrado com as decisões”.
O que não há dúvidas, de jóqueis a treinadores, de turfistas a comissários, é que a consistência nas decisões é o ideal. Num mundo perfeito as decisões seriam tomadas de maneira que ninguém poderia dizer que um mesmo comissário tomou medida diferente no passado diante de um julgamento parecido. No entanto, comissários de corrida, como em todos os esportes, são seres humanos, passíveis de errar. Além disso, estão julgando ocorrências que envolvem animais imprevisíveis, que não são capazes de falar ou de desculparem–se e ainda acabam recebendo informações durante os julgamentos provenientes dos jóqueis, que possuem um interesse financeiro no resultado daquela decisão.
Resumindo, em relação à consistência, temos que ter em mente que estamos falando de seres humanos passíveis de falhas, criticados por outros seres humanos também passíveis de falha e interessados em algum resultado o que acaba criando uma situação difícil de se estabelecer uma verdade inconteste. No entanto, resta claro que nos EUA, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, há ações que podem ser tomadas para diminuir a possibilidade de críticas que são basicamente voltadas à criação de regras uniformes para prejuízos e desclassificações e principalmente ações por parte dos comissários no sentido de divulgar a lógica, o racional por trás de suas decisões para o público. No entanto, para desenvolver estas e outras ações, não há dúvida de que o diálogo com todas as partes interessadas, workshops de comissários e encontros de avaliação são necessários e nos EUA isto tudo já está acontecendo. No Brasil, infelizmente continuamos vivendo no tempo em que o sujeito compra o título de um clube e ganha consigo um doutorado e ainda conhecimentos de turfe.
O próprio gerente geral de Gulfstream Park, Tim Ritvo, informou em passado recente que a questão da transparência é importante e pensa que o os comissários devem informar como tomaram suas decisões, inclusive utilizando replays dos páreos e que isto será implementado em Gulfstream. Tim Ritvo afirmou que “Acredita verdadeiramente que os apostadores merecem uma explicação detalhada sobre por que um cavalo foi ou não desclassificado.
Concluindo, em relação a esta “sede” cada vez maior por transparência, não há retorno neste caminho, as entidades promotoras de corridas de cavalos devem caminhar cada vez mais nesta direção e nós, brasileiros, precisamos acelerar bastante o ritmo pois há motivos mais do que suficientes para se acreditar que somos o país mais atrasado neste sentido no mundo turfístico.
Diretoria ACPCPSI