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Agosto | 2014

Raia Leve entrevista Marco Menegotto, proprietário da nova geração.
26/08/2014 - 08h53min

Gerson Martins

Marco com a esposa Carol e o filho mais velho Filipe

A ACPCPSI entende ser extremamente importante ouvir opiniões, especialmente daqueles que fazem o turfe acontecer, ou seja, proprietários, criadores e profissionais. Desta feita, o site Raia Leve ouviu o proprietário Marco Menegotto, titular do Stud Loucura Total ao lado de seu irmão César e de Filipe Laudo de Camargo, outro jovem interessado no turfe.

1. Marco Menegotto, como o senhor conheceu o turfe? Como foi seu início como proprietário?

Fui pela primeira ao hipódromo no Grande Prêmio Brasil vencido por Villach King. Fui com meu pai e com meu irmão. Tomei gosto e passamos a frequentar assiduamente o hipódromo.

Depois, inseri na minha rotina as idas as idas ao hipódromo às segundas–feiras com alguns amigos de colégio. Desde ainda garotos, nutrimos o sonho de ter um cavalo de corrida, o que veio a se concretizar em 2002. Compramos o cavalo Do Your Thing (indicação do Léo Cury) em um claiming para produtos de 4 anos com até uma vitória. Ele virou nosso xodó. Daí em diante, a paixão pelo negócio só cresceu. Cheguei a ter sete cavalos em paralelo. As parcerias mudaram e hoje temos o Stud Loucura Total, composto por mim, meu irmão César e nosso amigo Filipe Laudo de Camargo.

2. O senhor, que é um jovem proprietário, acha que o turfe pode ser atraente para um jovem (como turfista, proprietário ou profissional)?

Tenho certeza disso. O turfe é fascinante, emocionante e lindo de se apreciar, mas a imagem do turfe no nosso país está péssima e espanta os jovens. A visão do leigo, que é fomentada pela mídia nas novelas, a respeito das corridas de cavalo, é de que o hipódromo é um antro de viciados que comprometem o patrimônio de suas famílias.

É preciso haver um trabalho muito bem feito para reverter isso, chamando os jovens para o turfe, inicialmente como turfista. Para ser proprietário, o passo é mais complicado ainda, uma vez que a relação prêmio/trato está tão ruim que inviabiliza a entrada de grande parte dos que poderiam se interessar.

3. Tem ou teve algum animal pelo qual sentiu algum carinho especial? Qual e por quê?

Com certeza, Do Your Thing, meu primeiro cavalo. Quando o compramos, era um cavalo bonito, bem feito, mas magro, muito nervoso no prado. Corria brigando na frente e entrou em 12º num claiming na milha, na areia, como favorito. Imaginamos que ia ser difícil ganhar corridas, mas descobrimos que o cavalo gostava de correr de trás, para uma atropelada comprida, começando a embalar nos 800 metros finais ( metade da grande curva). Não gostava de ser apertado nos matinais. Ganhou 40 quilos e venceu seis corridas para nós, entre elas um Handicap e uma prova de pesos especiais. Nós o visitávamos toda semana na cocheira. Levávamos cenoura e chicória e, quando decidimos encerrar sua campanha nas pistas, enviamos Do Your Thing para um sítio em Guararema, onde foi muito bem cuidado e cobriu algumas éguas de salto.

Do Your Thing foi muito importante para fortalecer a interação e a amizade entre os sócios e criar novas amizades, como a que tenho com o Doutor Léo Cury. Vale ressaltar que conheci o Léo através do Fernando Cury, meu amigo de futebol no Caiçaras na adolescência. Foi o Fernando quem, inicialmente, treinou o cavalo, sob a supervisão do Léo. Ambos foram responsáveis pelo acerto no manejo do cavalo.

4.Qual foi o melhor animal que já teve ou que possui atualmente?

O melhor foi Que Patriota, filho de Ayrton S. Foi comprado pelo Léo por R$ 400,00 de parcela num leilão do Haras Balada. Ganhador de sete corridas, uma delas a Prova Especial Ricardo Xavier da Silveira, que na época era disputada em 1.900 metros na areia. Ganhou por incríveis 17 corpos. Correu diversos páreos de Grupo na milha, na grama (inclusive a primeira prova da Tríplice Coroa e os GPs Presidente da República no Rio e em São Paulo). Obteve algumas colocações em provas de Grupo, sempre em carreiras muito atribuladas, e um segundo lugar num Listed Race.

5. Está satisfeito com os resultados obtidos por seus animais? E com os profissionais que o atendem no turfe?

Depois da tragédia de 2011, no Vale do Cuiabá, o Dr. Léo desceu para a Gávea. Em 2013, procurando dar igualdade de condições aos nossos cavalos, em relação aos melhores, mudamos para o CT Dedo de Deus, com o J. C. Sampaio. A parte veterinária ficou a cargo do Dr. Flávio Carneiro.

Independentemente de não termos conseguido até então os resultados esperados (por diversos fatores, como lesões, bambeira, reformulação do plantel com aquisição de potros, o que torna o processo mais demorado etc) estou satisfeito com o trabalho e com a relação desenvolvida com o Sampaio.

Sempre pensei que mudando para um treinador que tivesse muitos cavalos de grandes proprietários os meus ficariam em segundo plano, que eu não teria a mesma atenção. Entretanto, estava errado. Sampaio é um treinador fantástico e uma figura humana maravilhosa. É correto, trabalhador, atencioso e parceiro.

6. Como via o turfe há cinco anos e como vê atualmente?

Via com esperança há cinco anos. Tinha esperanças de que as coisas entrariam num bom rumo e que o turfe se recuperaria. Essa esperança foi minguando e hoje estou incrédulo com o futuro da atividade no Brasil, Não acredito no modelo clubístico de gestão para reverter tal situação. A retomada do poder pelos turfistas foi um grande fracasso, desanimador mesmo.

7. Em algum momento teve algum plano em relação ao turfe que foi alterado? Por quê?

Tinha um plano de investimento crescente como proprietário, a fim de realizar o sonho de vencer provas de Grupo, comprando potros anualmente e buscando mais qualidade do que quantidade de vitórias (temos 45 vitórias, mas nenhuma em carreira clássica ou de Grupo, só uma em Prova Especial).

Com a recente decepção com a atual gestão e o “sofrimento” a que os proprietários vêm sendo submetidos, onerando sobremodo os custos e oferecendo muito pouco em troca, decidimos partir para o encerramento gradativo das atividades como proprietário, Vamos ver se vai melhorar daqui para frente e não descartamos um eventual retorno. Nossos atuais quatro cavalos vão ser gradativamente vendidos diretamente ou em leilão, ou em claiming até ficarmos sem nenhum.

8. O senhor, como já foi dito, é um jovem proprietário notadamente interessado no futuro da atividade. Já pensou em ser sócio do JCB?

Hoje, moro na Barra, com toda a estrutura de lazer. Desse ponto de vista, de usufruir da área social, não vejo motivo para ser sócio. Em termos de me associar para buscar uma atuação “política” ou para contribuir com o clube visando ao futuro da atividade, disso eu até já cogitei quando estava respirando o turfe. Entretanto, não é uma de minhas prioridades no momento.

9. Por que acha que a maioria dos proprietários e criadores de hoje não se interessam em ser sócios do clube?

Além de não ser barato, talvez eles não consigam ver de que forma poderiam contribuir, pois os sócios não turfistas são grande maioria e os que decidem as votações.

10.  Acha importante que proprietários e criadores participem da política do JCB? O que acha que o JCB deveria fazer para atrair as partes interessadas para seu quadro de associados?

Acho importante sim, mas acredito que a reversão do quadro está na mudança do modelo. Muito já se falou em separar o social do turfe. Pode parecer utópico, mas acredito que seria o melhor caminho.

11.  Na última quinta–feira, dia 21/08/2014, o senhor publicou mensagem no “Espaço do Leitor” do Raia Leve, declarando insatisfação com a atual realidade do turfe e anunciando sua retirada gradativa da posição de proprietário. Primeiramente, a ACPCPSI torce para que mude essa decisão, da mesma forma que o Presidente desta associação fez recentemente. Mas independentemente de nova avaliação, sua decisão foi tomada com base em que fatos?

Foi baseada nas contínuas medidas do JCB que em nada ajudam os proprietários, tais como critérios para utilização da pista de grama, tabelas de distância, formação dos programas, o não aumento de prêmios. Tudo isso faz com que a brincadeira fique muito cara para o retorno que oferece. Por mais emocionante que seja vencer um páreo, não está mais valendo a pena aturar os aborrecimentos do dia a dia. É páreo que sai nunca, pista de grama que não é liberada etc. Você vê os cavalos trabalhando, trabalhando, e sem conseguir correr.

12.  Diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe, como acha que deveria ser o turfe carioca para atrair novos proprietários e manter os atuais?

Além de mostrar, com medidas concretas, que o JCB respeita os proprietários, é fundamental melhorar a relação prêmio/trato. Isso impulsiona todo o restante do processo. Na proporção de 1994, eu poderia ter dez cavalos ao invés dos quatro que tenho hoje. Dessa forma, numa visão mais ampla da situação, seriam formados mais e melhores programas, o MGA subiria, e por aí vai...

13.  Gostaria de deixar alguma mensagem especial aos turfistas, aos profissionais ou aos dirigentes de turfe brasileiros?

Gostaria de agradecer o convite e a oportunidade da entrevista, mesmo em um momento desses, em que eu não sou o mais otimista para falar do turfe. De qualquer forma, estou dando uma pausa como proprietário, mas isso não significa que eu não seja apaixonado pelo turfe.

Para turfistas, profissionais e dirigentes vejo que o momento exige união. É preciso que todos remem no mesmo sentido para reverter o quadro, mesmo que seja necessário engolir sapos e deixar a vaidade de lado.



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