Eles são dois jóqueis que já passaram dos 30 anos. E no dia a dia de suas carreiras profissionais fazem absoluta justiça àquela música que diz “Eu não confio em ninguém com mais 30”. Ninguém em sã consciência turfística discute o raro talento de ambos, mas Alex Mota e Ângelo Márcio Souza são inconstantes. Desfilam, sem a menor cerimônia, o temperamento polêmico que possuem de maneira bem pessoal. E, quase sempre, essa conduta impede voos mais altos em suas carreiras do que sugere a notável capacidade de cada um em conduzir puros–sangues de corridas. Mas a admiração dos turfistas por esse talento em comum causa admiração, idolatria e respeito. Toda essa reverência acontece apesar dos incontáveis maços de cigarro que os dois fumam e da vida nem sempre tão regrada que levam. No último fim de semana, eles desfilaram suas classes nas raias da Gávea, com a irreverência habitual, as joqueadas precisas e o aplauso inevitável dos fãs pela mestria no manejo das rédeas.
Ângelo Márcio Souza esteve impecável no dorso de Ballon Bleu, do Stud TNT, na corrida de sexta–feira. Correu com absoluta frieza, como se estivesse de camarote num espetáculo de ópera em algum teatro superlotado. Um dia depois, com a mesma tranquilidade, levou ao triunfo Casita Buck, do Stud Laurifer, num percurso irrepreensível de quem conhece a ciência de correr na grama como poucos no País. Ainda teve tempo para criar uma tremenda confusão no penúltimo páreo no dorso da potranca Baby Go Far, do Stud TNT. Correu de alcance e, no meio da reta, sem a menor necessidade, passou apertando os rivais. Foi vítima de dupla reclamação e acabou sendo desclassificado num páreo em que sua conduzida ganhou de galope.
Alex Mota foi o convidado indesejável de uma festa em que outros estavam cotados para serem protagonistas. No dorso de Energia Feliz, do Stud Estrela Energia, fez absoluta questão de ir para frente na Prova Especial Garbosa Bruleur. Com aquele jeito despretensioso de montar, tratou de se fingir de morto na primeira parte do percurso. A sua inesperada tática de corrida atrapalhou a favorita Cry For Happy, cujo piloto acabou ficando encaixotado até a entrada da reta. Além disso, os jóqueis das concorrentes de trás não perceberam a armadilha, pois que se preocupavam apenas com a potranca do Haras Santa Maria de Araras. Nos 400 metros finais, quando Beach Dance, do Stud Globo, foi acionada por Valdinei Gil, a conduzida de Alex Mota já tinha distância suficiente para aparar a sua carga. Uma bela e cirúrgica direção de Alex Mota, que os colegas chamam carinhosamente de “Borboleta”.
Uma pena que tanto Ângelo Márcio Souza, o “Cabeça” como Alex Mota, o “Borboleta”, não compartilhem mais vezes com a gente da inesgotável fonte de talento que têm em comum.
por Paulo Gama