A incrível sequência de vitórias dos pensionistas do treinador Dulcino Milanês Guignoni, desde o mais comum páreo de claiming até as provas de Grupo I de maior importância, tem algo em comum: nos últimos 30 anos, tenho acompanhado com interesse a trajetória deste capixaba de voz rouca e mansa e com simplicidade surpreendente para um profissional consagrado. Decidi então, ter a presunção de diagnosticar e revelar os segredos de tanto sucesso. Um traço marcante na carreira de Guignoni é a incrível capacidade para o trabalho e a motivação que passa aos componentes de sua equipe. Independente da qualidade do puro–sangue e do poder aquisitivo do proprietário, sua motivação é sempre a de obter o melhor resultado possível. “Nos treinos, o cavalo mostra ao treinador o que deseja. Basta prestar atenção e não contrariar as características de cada um” ensina Guignoni.
Incansável no dia a dia, Guignoni acompanha com interesse todos os detalhes referentes aos seus pensionistas. A qualidade das camas e da ração, os horários dos transportes, a dedicação dos cavalariços, as observações dos redeadores após os treinos e a opinião dos segundos–gerentes, escudeiros de confiança no trabalho diário. “Ninguém é dono da verdade. O entrosamento da equipe é fundamental para o bom resultado. No turfe, quem acha que sabe tudo está muito perto de não saber nada. A gente aprende a cada dia com a experiência na raia e nas cocheiras. Por isso, valorizo o que dizem os meus funcionários. Sem eles, não poderia chegar a lugar algum”, afirma.
A relação sempre transparente de Guignoni com os proprietários é outro fator que observei durante anos. O treinador evita criar expectativas absurdas com relação a cada cavalo. Se algum demonstra que vai ser bom, ele chama atenção para isso. Mas se depois dos primeiros treinos não anima, também não esconde, não fica sonhando e procura o páreo adequado para o padrão de corrida do animal. ”Não adianta enfeitar o pavão de um matungo. A relação entre o treinador e os proprietários com os quais trabalha precisa ser de absoluta confiança. E confiança só se conquista com sinceridade”, ressalta.
Dulcino Guignoni acha graça quando se lembra da mudança do Centro de Treinamento da Fazenda Mondesir, em Pedro do Rio, para o Vale da Boa Esperança, em Itaipava. Alguns colegas chegaram a comentar que ele teria dificuldades, pois estava deixando uma pista rápida em troca de outra mais pesada. O treinador prefere deixar de lado esses comentários. Segundo ele, a resposta de um treinador tem de ser na raia. Considera o Vale do Cuiabá um lugar mágico e sente–se feliz onde está. Recorda a tragédia de 3 anos atrás, quando as chuvas destruíram tudo. Mas chama atenção para a ressurreição do local e com força total. “É um lugar maravilhoso, abençoado mesmo. O clima é excelente, a raia melhorou demais e a viagem para o Rio é tranquila, feita através de uma boa estrada e no máximo em duas horas, de caminhão”, conta.
O comportamento arrojado na raia, com exercícios fortes para deixar seus pensionistas no auge da forma atlética, é o maior segredo do sucesso de Dulcino Guignoni. Ele jamais peca pela falta de ousadia. Por isso, na semana do Grande Prêmio Brasil, o craque Bal a Bali, do Stud Alvarenga, apronto 1.200 metros em 1m12s, enquanto Americando e Mojito passavam o percurso em 1m15s, em parelha. Aliás, Guignoni admite uma ressaca depois da despedida de Bal a Bali, que foi para o turfe americano. Mas conseguiu motivar toda a equipe e o objetivo agora é encontrar um substituto para o grande craque num futuro próximo.
Com a tabela de inscrições debaixo do braço, interessado em todos os páreos disputados no eixo Rio/São Paulo e um relacionamento simples e camarada com todos os colegas profissionais, que o admiram pela modéstia, Guignoni é uma unanimidade na Gávea. Temido por muitos, idolatrados por outros, mas respeitado por todos, até pelos adversários mais ferrenhos, que admitem o desconforto de ter pela frente, numa corrida, um puro–sangue preparado por ele.
por Paulo Gama