Em 1982, os tempos eram de vacas magras lá em casa. Meu pai havia falecido em dezembro do ano anterior e, por isso, tive de voltar a morar do Rio de Janeiro e deixar um emprego promissor, em Brasília, no Ministério da Fazenda. Era preciso dar assistência a minha mãe, que tinha a maior parte do seu tempo absorvido por cuidar de minha irmã, moça excepcional que se tratava na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Meu coração pulava de alegria por ter de volta à minha vida duas grandes paixões: o turfe e o Fluminense, meu time de coração. Mas a razão ecoava em voz alta nos meus tímpanos que era total imprudência essa guinada profissional.
Formado em Comunicação Social, perambulei por algumas redações de jornais em busca de oportunidade de trabalho. Na redação de “O Globo” encontrei Paulo César Vasconcelos, atualmente chefe de reportagem do SPORTV. Paulinho, ex–colega de faculdade, anotou meu telefone e disse que a equipe de turfe estava completa com Paschoal Leão Davidovich, Marco Aurélio Ribeiro e João Carlos Faro. Para minha sorte, surgiria uma brecha no Jornal do Brasil, em dezembro, depois de fazer as férias do jornalista Fernando Paulino Neto e, no seu retorno à redação, de Jorge Perri de Freitas. Com aval do chefe da equipe, Marcos Ribas de Faria, o famoso “Escorial” da coluna “Volta Fechada”, acabei ficando até 1984 como prestador de serviço, para enfim ser contratado.
Em agosto, seis meses antes dessa reviravolta que tive na vida, minha primeira mulher estava grávida, eu e minha mãe com os bolsos vazios e só mesmo uma tacada nas corridas poderia segurar a nossa barra.
Alguns meses antes do Grande Prêmio Brasil estreou na Gávea o potro Gourmet, do Haras Ipiranga, montado por Gonçalino Feijó de Almeida, o Goncinha. O páreo, em 3.000 metros, na grama, tinha Zirkel, um craque da época, com pule de dez e montado por Jorge Ricardo. O favorito confirmou e venceu por uns três corpos. Mas me impressionou demais a corrida de Gourmet, até então apenas um potro de 3 anos com uma vitória em 1.400 metros na grama. A subida absurda da distância e o segundo lugar para um cavalo de primeira linha me fizeram seguir seus passos. A corrida seguinte foi em Cidade Jardim, na prova preparatória para o Grande Prêmio Brasil. Montado por Juvenal Machado da Silva, Gourmet perdeu por pequena diferença para Clackson, o recordista nacional do percurso.
“Esse cavalo não para de evoluir, melhora 100 metros cada vez que corre”, pensei comigo mesmo. Depois dessa segunda derrota, não tive mais dúvida de que Gourmet seria imbatível na maior prova do turfe brasileiro. Melhor: seria conduzido por Juvenal, meu maior ídolo no turfe. No dia do páreo, 1º de agosto de 1982, dia em que eu completava 24 anos, coloquei meu melhor terno (entre os dois únicos que possuía) e, antes de sair de casa, falei para minha mulher e para minha mãe. “O cardápio do jantar é pernil, arroz branco e salada de batata com maionese. Mas a marca tem que ser Gourmet. Não serve outra maionese” e disparei diante de duas mulheres de olhos arregalados. Minha mãe não se aguentou. “Mas eu prefiro Hellman’s. Por que tem de ser Gourmet?” perguntou. Sem a menor cerimônia respondi. “Porque esse á o nome do cavalo que vai ganhar o Grande Prêmio Brasil, hoje à tarde, e pagar toda a despesa. Pode comprar tudo e ligar a televisão às 16h30, pois o páreo vai ser transmitido ao vivo”, avisei–a.
Antes da vitória de Gourmet – e mesmo depois dela – confesso que jamais apostei tanto num cavalo de corrida. Tudo o que eu tinha na minha vida foi naquele páreo. O páreo da minha vida. A minha certeza na vitória era tão grande que nem fiquei nervoso. E, como havia imaginado, Gourmet largou e tomou a ponta. Juvenal, o Garrincha do turfe, estava tão confiante quanto eu. Fez um train falso e, enquanto todos os jóqueis dos cavalos mais cotados se preocupavam com o argentino New Dandy, melhor puro–sangue da América do Sul da época, ele floreou sem ser incomodado. Na reta, deu um “vareio” na parceirada. Meu coração saltitava de alegria na Tribuna Especial A. “Dá–lhe Juvenal”, eu berrava. Enquanto isso, em Copacabana, minha mãe e minha mulher se abraçavam como duas loucas. Ao mesmo tempo em que o pernil já exalava um cheiro maravilhoso no forno, a salada de maionese já estava pronta na geladeira. Maionese Gourmet, claro.
por Paulo Gama