Em 32 anos na atividade de jornalista esportivo, pude aprender algumas lições importantes. Em primeiro lugar, nenhum esporte vai para frente sem a presença das multidões. E só mesmo os grandes ídolos são capazes de atrair milhares de pessoas aos estádios e arenas. Essa conjunção tão simples de fatores pode produzir fenômenos de mídia. E para que todo o processo transcorra na mais absoluta naturalidade, dirigentes, promotores e atletas precisam ter considerável flexibilidade. Cada um precisa considerar, com parcimônia, o espaço que ocupa na atividade esportiva com humildade e disciplina. No turfe brasileiro, nada disso acontece. Infelizmente...
Os hipódromos têm estado com arquibancadas vazias, o que condena de forma inexorável o sucesso de qualquer empreendimento junto a empresas e anunciantes. Os motivos para isso são vários, mas a simples ausência de ídolos, como Juvenal Machado da Silva ou Jorge Ricardo, o primeiro já aposentado e o outro radicado no turfe argentino, impede a inversão do rumo das coisas. A equação é a seguinte: se você tem um atleta muito acima da média, ele conquista um número incontável de fãs, esses fãs fazem muito barulho, o ruído é escutado pelos meios de comunicação de massa e os meios de comunicação divulgam o atleta e o colocam no mercado. O resultado final é o faturamento de milhões e a felicidade geral de todos os seguimentos envolvidos.
A simples divulgação desse ídolo nas televisões, nas rádios e nas redes sociais atrai um mundo de gente para conferir o indivíduo fora de série. E se existe alguém que provoca frisson nas multidões, as empresas querem de imediato flertar com essa possibilidade de grande negócio. Assim caminha a humanidade. De vez em quando, têm aparecido boas promessas no turfe brasileiro. Mas a tolice dos dirigentes, que sempre querem aparecer mais do que os atletas, faz com que se perca o fio da meada. João Moreira, o popular “Fantasma de Cidade Jardim”, despontou ainda bem jovem para o estrelato. Líder de estatística no turfe paulista, foi embora anônimo da sociedade brasileira para o Exterior, sem que ninguém faturasse um tostão sequer em cima do seu enorme talento. Hoje atuando no Oriente, Moreira é uma estrela de primeira grandeza. Ficou rico e o turfe de Cingapura e depois de Hong Kong fatura horrores através de sua capacidade e do seu carisma para levar ao delírio multidões de turfistas chineses. Recentemente, em Dubai, Moreira ganhou dois páreos milionários e saiu do mundo árabe com fama de herói.
Josiane Gulart é outro exemplo da mediocridade dos dirigentes turfistas. É uma joqueta de indiscutíveis qualidades técnicas, tanto que luta palmo a palmo com os homens pelos primeiros lugares do ranking turfístico de São Paulo. Além disso, é bela e articulada. Nenhuma televisão ou qualquer outro meio de comunicação divulgou nesses anos todos que existe um esporte no país em que uma linda mulher luta de igual para igual com os homens. Acontece isso no vôlei? No basquete? No futebol? Claro que não. Mas ninguém na mídia sabe disso. Só nós turfistas. Uma atleta do nível de Josiane, em qualquer outro esporte brasileiro teria status para dar entrevista nos principais programas do país e para os mais renomados jornalistas. Seria capa de revistas internacionais. Teria recebido convite até para posar na revista Playboy. Qualquer hora ela sai do país. E aí poderemos conferir a lenha que os gringos vão queimar em cima de sua bela imagem e de seu grandioso talento.
O turfe pode recuperar seu espaço. Não será nada fácil, mas para isso precisa partir da premissa de que precisa tutelar melhor os jovens talentos que surgem nas escolas de aprendizes do Rio e de São Paulo. Os meninos pobres que vêm de pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul e do Paraná precisam ser mais bem preparados. E se algum deles despontar com qualidade acima do normal, deve ser paparicado e resguardado como uma joia rara que pode, em dois ou três anos, tirar o esporte do buraco. É simples assim, podem acreditar. Ou alguém tem dúvida de que se aparecesse hoje um novo Jorge Ricardo, com 17 anos, o nosso esporte não voltaria a ter gigantesco espaço na mídia? Pelo amor de Deus, se aparecer outro craque feito Bal a Bali, do Stud Alvarenga, permitam que muito mais gente saiba da sua existência, além dos muros do prado carioca. Assim como foi feito com o fantástico Itajara, dos Haras São José & Expedictus, na década de 80.
O craque da coudelaria Paula Machado, em suas corridas arrastava para o Hipódromo da Gávea público maior do que os do Grande Prêmio Brasil. Não há mistério no esporte. É como se fosse aquela equação biquadrada que a gente aprende no segundo grau. Ídolo = multidão, multidão = sucesso, sucesso = faturamento, faturamento = solução, solução = felicidade e felicidade é a própria razão de viver.
Como dizia o saudoso Gonzaguinha: “Viver e sem ter a vergonha de ser feliz...”
por Paulo Gama