O ‘Risadinha’ (*)
Embora com atraso, não posso deixar de lamentar a morte de “Risadinha”, funcionário do Jockey. Para que dizer seu nome, se sempre o chamei assim? Fazia parte de um restrito grupo de funcionários que o Jockey Club teve a sorte de ter. Ia ao extremo em sua noção de responsabilidade. Quantas vezes o vimos tirar a lâmpada que ilumina a passagem da Tribuna de Imprensa para as Sociais, depois de corrido o páreo final, bem depois da meia–noite (se deixasse lá, sumiria). Tirava, ia para dentro, fechava os vestiários e armários dos profissionais, juntava aquele monte de chaves e só então se preparava para ir embora. Chegava em Cordovil já depois das duas horas da manhã.
Quando os primeiros treinadores e jóqueis chegavam – às cinco horas da manhã do dia seguinte, para começar os trabalhos matinais – era o “Risada” quem os recebia, abrindo portas e armários. E fez isso durante mais de 20 anos!
Quando morava na Praia do Pinto, ali pertinho, tudo bem; mas quando a favela foi para Vila Kennedy e Corcovil, lá se foi o “Risada”. Nunca reclamou.
Há uns 15 anos, pedi a um diretor que o colocasse em uma casa desocupada, onde havia morado o encarregado anterior, o “Lagosta”. Ele me disse ser inviável, porque depois nunca mais conseguiriam tirar a família de lá. A casa ficou vazia durante mais 10 anos e o “Risadinha” indo e vindo, com temporais e greves, sem faltar, pois era indispensável. É a vida.
Já doente, quando recebia um forfait fora de hora, subia à cabine onde eu fazia o programa matinal para completar seu serviço, que não era obrigatório, e para que eu fizesse certo o meu. Figura extraordinária, num cargo de último escalão.
Isso mostra que, por mais insignificante que possa ser um emprego, ele tem condições de ser dignificado, se for feito de maneira correta e com amor, como fazia o “Risadinha”. Adeus, meu amigo. Até nosso próximo encontro.
(*) Texto publicado originalmente na Revista JCB, na década de 1980, por Heitor de Lima e Silva, o Bolonha.
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