A história da Tríplice Coroa de potrancas do turfe carioca é bem mais recente do que a dos potros. Porém, mesmo levando–se em consideração este fato, já é possível afirmar que existe um grande tabu quanto à concretização da caminhada das candidatas ao cobiçado título. Durante alguns anos, várias potrancas estiveram bem perto de chegar à Coroa, mas sofreram contratempos inesperados ou perderam uma das etapas, em derrotas ingratas. Um dos maiores exemplos disso foi a inesquecível craque Rasharkin, do Haras Santa Maria de Araras, superada nos metros finais por Classista, do Stud Minha Zebrinha, quando estava prestes a ultrapassar o último obstáculo. Foi uma reta final memorável entre dois freios de alta classe: Paulo Cardoso, no dorso da ganhadora, e Gonçalino Feijó de Almeida, Goncinha, com Rasharkin. Derrota chorada.
Alguns anos antes, em 1984, Anilité, do Haras Santa Ana do Rio Grande e montada por Adail Oliveira, venceu o Grande Prêmio Henrique Possolo, com a craque Asola, do mesmo proprietário e sob a direção de Juvenal Machado da Silva, em segundo. Nas etapas seguintes, a alazã, Asola levou vantagem em memoráveis duelos com a companheira de farda e a coudelaria ficou sem a Coroa. Restou o consolo de a tordilha Anilité ganhar o Grande Prêmio Brasil daquele ano. As duas excepcionais corredoras tinham o preparo de Alcides Morales, o popular Parrudo.
A escrita só foi quebrada em 1991, com a extraordinária Indian Chris, da Fazenda Mondesir. Bem preparada por Eduardo Caramori, hoje radicado no turfe americano e conduzida por Goncinha, Indian Chris escreveu seu nome na história como a primeira tríplice coroada. Sete anos mais tarde, Virginie, dos Haras São José e Expedictus, levou a melhor nas três etapas da Coroa sob o preparo de Dulcino Guignoni e dirigida por Carlos Lavor. Dois anos depois, Be Fair, irmã materna da craque Virginie, com o mesmo criador, proprietário, treinador e jóquei, inscreveu seu nome na gloriosa relação das tríplices coroadas. Só 12 anos depois, Old Tune, do Haras Internacional, conseguiria driblar o tabu e conquistar o título, montada por Marcelo Cardoso e com o treinamento de Venancio Nahid.
Roberto Morgado Neto, jovem e brilhante profissional, já sofreu na pele a desilusão e perder a Tríplice Coroa das potrancas com a craque Smile Jenny, do Haras Santa Maria de Araras, derrotada apenas na última etapa depois de passar por graves prejuízos durante o percurso. Agora, numa prova em que tinha apenas oito adversárias e com Brilhantíssima no auge da forma atlética, a maldição da Coroa das fêmeas atingiu–o mais uma vez. Uma inflamação no joelho esquerdo tirou a excepcional corredora da disputa. Mas Bebetinho Morgado não deve baixar a cabeça. O futuro, com certeza, deve lhe reservar a forra para essa amargurada decepção.
por Paulo Gama