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Agosto | 2012

“Tio Rafa!”, por Victor Corrêa
24/08/2012 - 14h20min

Arquivo RL

Raphael Munhoz da Rocha

Além de cavalos e gente de todos os tipos, o turfe brasileito também é lugar de vários absurdos. No tocante a alguns deles, a crítica torna–se nada mais, nada menos, do que delatar o óbvio, mas mesmo assim eles continuam a ter manutenção no ordenamento de nossas corridas. Porém, ainda há detalhes menores, plenamente passíveis de uma reflexão por parte dos nossos dirigentes e entidades regulamentadoras. E um destes casos é, justamente, o nome das nossas principais corridas. Não é raro algumas das mais importantes provas do turfe brasileiro homenagear, por saudosismo infundado, dirigentes ou “personalidades” turfísticas de pouca expressão, ou importância concreta, para o nosso turfe. Há um caso ainda mais grave, a partir do momento em que se verifica carreiras de extremo garbo no Brasil cedendo seus títulos a nomes de ditadores, sanguinários e nefastos, que tanto mal causaram para a história do nosso tão judiado país.

Porém, quando o oposto ocorre, e toma forma, por mais simbólico que se possa parecer, os clubes promotores de corridas de cavalo no Brasil fazem justiça, na melhor acepção da palavra. E mais: conseguem manter acesas as memórias de pessoas que, fática e indiscutivelmente, contribuiram para o turfe brasileiro, no decorrer da história. Por uma felicidade, é justamente isso que ocorrerá esta tarde, no Jockey Club do Paraná, em Curitiba. Na sexta corrida do dia, a primeira preparatória para o páreo de velocidade da semana máxima do turfe paranaense, se homenageará a figura de Raphael Munhoz da Rocha, um autêntico mito da crônica turfística nacional.

Curitibano da classe 27, Raphael teve o seu primeiro contato mais estreito com as corridas aos 15 anos de idade, quando tornou–se funcionário da tesouraria, no Jockey Club do Paraná. No início da década de 1950, Raphael, além de ter assumido função na sessional paranaense do Stud Book Brasileiro, também deu o seu primeiro aceno na imprensa especializada. Foi na “Gazetinha Esportiva”, suplemento da Gazeta do Povo – até hoje, o jornal de maior circulação no Estado do Paraná – e que precedeu a colaboração de Rapahel para o Jornal O Estado do Paraná – onde, intinterruptamente, por mais de 50 anos, assinou uma página diária sobre turfe. A Tribuna do Paraná, que ao lado dos outros dois citados veículos completa a “trinca” dos mais expressivos tablóides paranaenses, também contou com a maestria de Raphael, jornalista antes mesmo da profissão – e do curso universitário em si – existir.

Em 2008, no entanto, quando Raphael contribuia com exclusividade para o Jornal O Estado do Paraná, os então mandatários do veículo, numa decisão muito mais política do que técnica, dispensaram os serviços do jornalista. O ocorrido, que gerou grande comoção na comunidade turfística local, não desabonou em nada o legado que Raphael deixou para o as nossas corridas de cavalo. Tendo o profissionalismo e a lisura como suas marcas registradas, Raphael dedicou–se com uma retidão insofismável à reportagem deste nosso tão querido esporte, sendo artigo de admiração por todo o país. Fã de Rigoni, que para ele fora o maior jóquei de todos os tempos, Raphael era figura carimbada, ainda pela madrugada, nos matinais em Curitiba, e era assim que o mesmo detinha um conhecimento impressionante a respeito daqueles animais – tanto que, suas marcações e indicações possuiam uma legião de seguidores. Fora das pistas, o fervoroso torcedor do Clube Atlético Paranaense também era referência nos principais festivais turfísticos do Brasil, além ter participado de momentos bastante especiais – a convite dos Irmãos Seabra, por exemplo, Raphael cobriu a chegada da craque Tirolesa, ao Haras Guanabara. 

“Tio Rafa”, “Rafifa”, enfim, muitas eram as maneiras como os seus amigos e conhecidos se reportavam a Raphael. Quando nos cruzávamos, pelas dependências do Tarumã, Raphael fazia questão de perguntar a alguém que estivesse por perto: “fulano, e esse gurizinho, como é que vai? Será que tem carreira”? Independentemente da resposta, aquele ícone do nosso meio retomava seu tranquilo caminhar – sempre empunhando um programa, diga–se de passagem, onde Raphael não deixava nada lhe escapar, anotando todos os detalhes, páreo a páreo. Em 2007 – mesmo ano em que comecei no Raia Leve – tive a oportunidade de entregar, na condição de mais jovem membro da entidade, um souvenir da ACTP, na sua festa de 70 anos, produzido especialmente para Raphael (por sua vez, à época o mais antigo membro da entidade ainda na ativa). E lhes confesso que, não obstante aqueles instantes tão emocionantes, me restou, na transmissão do pequeno troféu, uma sensação de alívio. Afinal de contas, por mais que um dia o Raphael nos deixasse (como tristemente ocorreu, em junho de 2010), eu poderia me sentir, honrado e agradecido, de ter tocado e conhecido, fonte de tamanha inspiração. 

por Victor Corrêa



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