Desde os meus tempos de repórter do Jornal do Brasil pude sentir certa má vontade da mídia com relação à cobertura turfística. Na própria redação, e vejam que me refiro a um período de uma página diária de turfe, na década de 80, os fatos e os personagens de determinados esportes recebiam tratamento diferenciado dos acontecimentos e dos protagonistas das corridas de cavalo. Do mês de dezembro de 1982 ao início de 1987, trabalhei no dia a dia do turfe e pude vivenciar esse fato. Fiz, então, uma aventura de dois anos como repórter do futebol e tive a certeza cruel dessa realidade. Saí do ostracismo pessoal dos primeiros anos na redação, onde era conhecido como o “cara dos cavalinhos”, para a atenção especial do próprio editor de esportes, João Máximo, que me cercava de atenção especial quando eu chegava do Fluminense, clube do coração dele, com as notícias. De volta ao turfe, em 1989, talvez por erro estratégico na carreira jornalística, saí de imediato do estrelato para o duro papel de ator coadjuvante até junho de 2001, quando deixei o jornal.
Nos 19 anos de jornalismo esportivo na redação do fabuloso Jornal do Brasil, pude conviver com estrelas como João Saldanha, Sandro Moreira, Oldemário Touguinhó, Paulo César Vasconcelos, Aparício Pires, Fernando Calazans e tantos outros craques. Aprendi muito com todos eles. Mas, acima de todo o aprendizado, ficou a convicção de quanto é difícil combater o sistema, com seus estigmas e preconceitos. Os heróis do turfe – cavalos, jóqueis e treinadores – nunca mereciam o mesmo espaço para contae sobre suas façanhas como os craques de futebol, do vôlei ou do basquete. Os gols dos artilheiros, as cortadas dos ponteiros e os arremessos dos cestinhas sempre foram mais importantes do que as “joqueadas” de Juvenal, Barroso, Quintana, Goncinha ou Jorge Ricardo. As notícias ruins, essas sim, interessavam muito à redação. Casos de doping, de troca de cavalos e outras coisas do gênero faziam nossos vilões mais desgraçados e marginalizados junto à sociedade do que os atacantes adúlteros e narcotizados que batiam nas próprias mulheres. Ou, ainda, mais nocivos do que os zagueiros vigorosos que tomavam porres pelas madrugadas e chegavam atrasados nos treinos. Um beco sem saída.
A situação, desde então, em nada mudou. Muito pelo contrário. No período a que me refiro, ainda havia cobertura diária nos jornais do Rio e de São Paulo. Agora, nem isso. Até hoje me faço as mesmas perguntas sem respostas. Por que nossos atletas não merecem a atenção dos meios de comunicação de massa? Por que as conquistas do turfe, algumas de âmbito internacional, não são divulgadas nos jornais, rádios, televisões ou na internet? Quem são os culpados por essa marginalização? Por que os dirigentes, jornalistas e profissionais do turfe não encontram caminhos e respostas para sair de tal situação? É preciso, o quanto antes, encontrar respostas. Por maior que sejam as boas intenções e a competência dos dirigentes turfistas nos Jockeys Clubs, do Brasil afora. Em 2012, eles têm a missão “impossível” de administrar um esporte sem ídolos, sem público e sem divulgação.
As joquetas Josiane Gulart, em São Paulo, e Marcelle Martins, no Rio, venceram diversas barreiras de preconceito e conquistaram espaço num meio com predominância absoluta dos homens. Mesmo assim, não mereceram matéria de destaque em nenhum programa esportivo. Não foram convidadas para tomar café com Ana Maria Braga e seu papagaio, o chato do “Louro José”. Jóqueis como Jorge Ricardo, Altair Domingos, João Moreira, Silvestre de Souza e tantos outros brilham no exterior, mas nenhum canal de televisão aberta passa os filmes de suas vitórias. Entretanto, não falta tempo para exibir gols de times da série C, amistosos entre times africanos e esportes de inverno, de cujas regras os brasileiros não têm o menor conhecimento. Henderson Fernandes montou o seu primeiro Grande Prêmio Brasil e ganhou. Não fez jus sequer a uma matéria especial num desses programas de televisão aberta. Vagner Borges ganhou a estatística no primeiro ano como jóquei. A TV Globo nunca ouviu falar no seu nome. Francisco Leandro foi o bicho–papão das provas clássicas, o melhor jóquei da temporada passada. Para a mídia, é um desconhecido.
O pior caso de todos: Jorge Ricardo é o recordista mundial de vitórias. A batalha contra o câncer, e sua superação, foi acompanhada, com interesse pela mídia. Ele até deu entrevistas na televisão aberta. Passados dois anos, ficou curado. Recuperou o topo do mundo, ganhou a estatística do turfe argentino – o mais competitivo da América do Sul –, e nas ruas de Buenos Aires é considerado um herói. Dá tantos autógrafos quanto a Ivete Sangalo, na Bahia ou o Ronaldinho Gaúcho, nas ruas de Belo Horizonte, para os atleticanos. Mas ninguém viu no Jornal Nacional ou no Globo Esporte a vitória que lhe proporcionou a recuperação do recorde. Será que não valia um Globo Repórter para contar a saga de sua obstinada recuperação? Mas, ao invés disso, o que a gente vê na televisão é a cara rechonchuda do Adriano. Um Imperador de meia tigela, que marcou dois gols durante oito meses no Corinthians. Já pensaram no espaço que o “Imperador” teria na mídia se tivesse superado os problemas que Jorge Ricardo enfrentou? Acho que receberia promoção para Presidente da República.
por Paulo Gama