O caixote, por Paulo Gama 26/11/2010 - 11h38min
Silvio Morales, treinador recordista de vitórias numa temporada com 161 triunfos, durante muitos anos trabalhou também no transporte aéreo de puros–sangues de corrida. Espírito aventureiro, enquanto os proprietários curtiam as mordomias da primeira classe, ele nunca se importou de viajar misturado às bagagens para poder ficar perto dos cavalos e socorrê–los de imediato numa emergência qualquer.
Durante uma dessas inúmeras viagens pela América do Sul, Silvio viveu experiência inesquecível em sua vida. O avião com destino a Buenos Aires saiu do Rio de Janeiro lotado. Ao contrário de outras vezes, o treinador encontrou dificuldade para se acomodar no meio de tantos entulhos. Não podia ficar longe do cavalo, que estava inscrito no GP Carlos Pellegrini. Olhou a sua volta e percebeu um simpático caixote, mais ou menos do tamanho do seu corpo, até um pouco maior. Ali se encostou e adormeceu o sono dos justos.
Devido ao mau tempo, o avião fez um pouso forçado em Montevidéu. O comandante da aeronave convidou Sílvio para se hospedar num hotel, a exemplo dos demais passageiros. Mas o treinador preferiu não se afastar do cavalo, que poderia precisar de assistência. Perguntou se era possível continuar ali e diante da resposta positiva voltou a dormir em cima do caixote, sua cama improvisada.
Depois de quase oito horas de chuva e trovoadas, o tempo finalmente melhorou e o avião decolou rumo à capital argentina. Ao desembarcar no aeroporto Sílvio olhou satisfeito para o puro–sangue, que comia toda a ração dentro do boxe. Era o sinal de que tinha feito ótima viagem. Assim que o funcionário da empresa abriu o setor de carga, o recinto foi cercado por um grupo de pessoas vestidas de preto.
Sílvio Morales percebeu que algumas soluçavam. “Estão de luto”, pensou. Para sua surpresa e um arrepio na espinha todos caminharam resolutos em direção ao caixote em que ele havia dormido durante toda a viagem. Retiraram o suporte de madeira e dentro dele havia um caixão com defunto e tudo. O treinador teve então uma vertigem e se abraçou ao pescoço do cavalo para não cair no chão.
Recuperado do susto desembarcou o cavalo e o levou até o Hipódromo de San Isidro. No dia seguinte, procurou no setor de funéreo dos periódicos argentinos para tentar descobrir o nome do falecido. Curiosamente chamava–se Juan Morales. Durante toda a viagem ele havia velado um desconhecido que por coincidência tinha o seu sobrenome...
OBS: Em breve, Namir, o bom libanês continua sua gloriosa saga. Desta vez, o nosso herói enfrenta o seu pior inimigo, o Monstro do Boulevard. |