Léo Pires Pinto era um hipólogo responsável pela parte teórica do Haras Mondesir. Estudava pedigrees, cruzas, tinha assinaturas de revistas internacionais especializadas. Mas, como todos nós, falíveis, em uma atividade complexa como é o turfe, não acertou em todas as ocasiões. Em contraponto com os inúmeros sucessos, foi o responsável pela indicação de dois garanhões, ambos fundistas, tardios, e que não “funcionaram”. Duke Of Marmelade e Pleasant Variety são dois nomes a serem esquecidos. Pleasant Variety deu um ótimo corredor de provas de muita distância, de nome Tiptronic, com uma das mais nobres linhas maternas do Mondesir, a da Exarque, que através da ótima clássica Vada chegou a Tiptronic. Esse fundista tem um tipo físico privilegiado, grande, forte, muito bem feito, com ótimos resultados nas pistas, e que paga o tributo da tendência para distâncias curtas.
Crying To Run era um norte–americano de pedigree importante, era um filho de Bold Ruler. Foi garanhão por muitos anos do vitorioso Haras Santa Ana do Rio Grande, onde foi bom pai clássico inclusive de Bowling, cavalo de integridade física perfeita, muito bom freqüentador com sucesso da esfera clássica, tendo inclusive vencido o GP Brasil. Com ele ocorreu fato interessante. O empresário Jorge Gerdau Johanpeter, grande criador de cavalos de salto, entendeu que os seus animais estavam fisicamente pesados demais, havia que ser dada mais agilidade à raça alemã Holtsteiner, de seus animais. A solução lógica era cobrir as suas enormes éguas com um cavalo de raça nobre, o que queria dizer, com um bom puro–sangue de corridas. Encantou–se com Crying To Run, que já tinha dado lugar para outros garanhões mais novos do Santa Ana, e recebeu graciosa carta branca do criador José Carlos Fragoso Pires para a coleta de sêmen, a ser colocado nas suas puras éguas de salto. O resultado foi espetacular, menos pesados e mais ágeis, os mestiços fizeram grande sucesso. Crying To Run já estava com a sua missão cumprida no Santa Ana, quando um haras paulista o comprou. O comprador fez um seguro para a viagem, e o cavalo foi para o interior de São Paulo. Lá chegando, o cavalo foi entregue no momento em que havia um churrasco com convidados, o caminhoneiro seguiu o seu caminho. Crying To Run foi para o seu novo box, que era inadequado, teto baixo e com a janela dando para o piquete das éguas. O cavalo ficou muito agitado, empinou, bateu com a cabeça no teto e caiu morto.
Lunar era um lindo tordilho claro, grande, criação do Haras Casupá (Don Juan Amoroso), um galopador para provas de mais de 2.400 metros. José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança), como estudioso e grande autoridade nas coisas do turfe, sabia que o filho de Stayer, dificilmente iria bem na reprodução, mas entendeu de fazer uma experiência. Lunar teve poucos filhos, e não foi bem.
Outra tentativa com cavalos de muito fundo e galopadores foi feita pelo J.C. de São Paulo, que importou da Inglaterra um filho de Klairon em filha de Mossborough, de nome Shangamuzzo. Também não deu muito certo, pois o cavalo de fundo tem que ter velocidade, aceleração, mostrar que pode “mandar” na corrida sem essa característica, os cavalos de fundo não vão bem (Tiptronic tinha a tal aceleração).
Breeder’s Dream foi importado para o Posto de Monta do J.C. de São Paulo. Um filho do criador Anthony Assumpção, que era da Comissão de Fomento, foi à Inglaterra para comprá–lo. Ele não impressionava como tipo físico, e foram tantas as críticas dos criadores paulistas que o diretor da Comissão de Fomento se afastou do cargo. Breeder’s Dream deixou bons filhos, principalmente Interaliée, líder de sua geração feminina, e Duplex, grande ganhador clássico de padrão internacional. Breeder’s Dream era um castanho inglês filho de Tudor Minstrel.
Um dia, li um anúncio inusitado. “Vendo El Asteróide ou Fragonard”. Procurei o proprietário dos dois garanhões, e perguntei se não haveria algum engano. Ele disse que não, ele havia comprado nos Estados Unidos um cavalo para a reprodução de nome Hang Ten, e como no seu haras só havia dois Boxes para garanhões, um teria que dar lugar, ficando o outro como reserva, para ele tanto fazia, pois Hang Ten ia receber se possível todas as suas éguas. Acabamos fazendo negócio, o Armando Rodrigues Carneiro (Haras Nacional) não criou dificuldades, dei três éguas para a reprodução, dentre elas a boa Vodka (Xadrez e Fama), e recebi El Asteróide. Foi bom para as duas partes. O cavalo já estava velho, mas era um filho de Elpenor, e tinha à sua época, sido o melhor fundista do Brasil, principalmente na pista de areia. Antes de morrer ele teve tempo de me dar duas ou três gerações, e apesar de ter fertilidade apenas relativa, os seus filhos eram muito bons. A primeira geração no Ipiranga, foi de 4 fêmeas e 1 macho, chamado Goethe, que ganhou 7 ou 8 corridas dentre elas o Grande Prêmio Consagração, Grupo 1, 3ª prova da tríplice coroa paulista. A mãe de Goethe era uma filha de Xadrez em filha de Al Mabsoot, linha feminina da francesa Florelle. Goethe venceu o Consagração ao estilo El Asteróide, de ponta a ponta em 3.000 metros e se defendendo em viva luta com um valente atropelador. No final, Goethe ainda livrou boa vantagem, era o sangue Elpenor em ação.
New Style era um bonito tordilho, filho de Duke Of Ragusa em filha de Kranoir, linha feminina muito especial da criação Cápua. Ele foi comprado quando potro, e nas pistas da Gávea foi um bom corredor até em Grupo 2. Foi inscrito para correr o GP Brasil, mas no partidor mostrou–se irrascível, violento ao ponto de ter que ser retirado no alinhamento. Irritado, o seu proprietário no dia seguinte o deu de presente para um criador, Haras São Dimas, que logo o registrou como reprodutor no Stud Book Brasileiro. Mas aconteceu o inesperado, o cavalo mostrou–se com total infertilidade. Exames, tratamentos, tudo inútil, o cavalo era completamente estéril. Com um irreversível registro como reprodutor, e estéril, New Style perdeu por completo a sua utilização no turfe. Um cavalo são, de bom físico, boa qualidade como corredor, e na prática inaproveitável. Em um caso desses, seria inadmissível admitir–se, mediante uma castração total como segurança, anular o registro de reprodutor e conseqüentemente voltar à condição de corredor? O turfe pode se dar ao luxo de perder um bom elemento, cujo novo aproveitamento nada significaria de negativo, de dano, mas apenas devolver ao então cavalo sem valor, um novo valor, mesmo que eventualmente menor? É claro que a idéia não seria expandir esse benefício para cavalos que já serviram na reprodução ou a éguas já registradas como reprodutoras, não é abrir uma porta mas usar o bom senso com toda a segurança. É um caso a ser pensado.
O cavalo Or Et Bleu tinha um bom pedigree, Itajara e Ebréa, por Kublai Khan, “pintou” bem e era depositário de boas esperanças para uma eventual campanha clássica. Mostrou–se corredor mas lesionou–se, e acabou sendo inscrito em um páreo de “claiming” de 3 mil reais. Um criador gaúcho, Armando Alencar (Haras Arroio Alegre), o levou como garanhão. Teve filhos ganhadores, e só. Poucos anos depois, um irmão próprio de Or Et Bleu já estreou em Cidade Jardim mostrando muita qualidade e preferência pela pista de areia. Foi inteligentemente levado para correr o Derby Argentino, na areia de Palermo, e embora prejudicado ainda foi o 4º. Levado para os Estados Unidos, Siphon foi grande ganhador clássico levantando enorme montante de prêmios. Esse foi um caso típico de comprar o irmão do bom, não o bom.