Só no Estado do Rio Grande do Sul já foram desativados os hipódromos dos Jockeys Clubs de Canoas, Rio Grande, Bagé, Uruguaiana, Santana do Livramento, Pelotas e Jaguarão, além de ameaças ao de Santa Maria. Essas oficiosas informações dão conta de um problema importante e que tem de ser encarado sem demora.
O ilustre proprietário pelotense Humberto Ceciliano Luzzardi entende que o assunto deveria ser levado à discussão na Câmara Setorial de Eqüinocultura, que funciona junto ao Ministério da Agricultura. Eu concordo plenamente, a ainda a Associação Brasileira de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida, se é que já não está, deveria ser acionada pelo seu presidente Afonso Burlamaqui, competente e eficiente. As cartas–patentes vão sendo cassadas, os clubes cada vez com contingentes menores de corredores, a concorrência opressora dos inúmeros jogos da Caixa Econômica Federal, os clubes cada vez mais pobres, e por aí vai.
A cassação das cartas–patentes e conseqüentemente encerramento das atividades dos hipódromos não é um simples ato de maldade, mas é o cumprimento de normas legais, conseqüência do não cumprimento pelos clubes das determinações da lei, de sua regulamentação e do Código Nacional de Corridas. O turfe não é uma “brincadeira de meia dúzia de riquinhos”, conforme disse um alto funcionário do Ministério da Agricultura, mas uma atividade nobre que movimenta muito dinheiro e proporciona dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos. Os grandes investimentos que foram feitos na área de Bagé, por exemplo com a implantação de haras com alta tecnologia, constituem–se em significativa parcela no grande progresso da cidade de Bagé, que chega a ter até excesso de automóveis nas ruas, comércio em expansão, padrão de vida bem mais alto que a média de cidades pequenas do interior, com salários e condições melhores de vida. Os haras são uma das forças de Bagé. Pois o hipódromo perdeu a carta–patente.
Conforme já disse, a ação do Ministério da Agricultura é o cumprimento de determinações legais, que não são respeitadas pelos clubes menores. É comum corredores chegarem à Gávea e à Cidade Jardim como inéditos, quando na verdade já correram várias vezes e são até ganhadores, mas as suas performances não são anotadas nos certificados de performances, criando problemas que acabam chegando ao conhecimento do Ministério. Se o Ministério não cumprir as suas obrigações, incorreria em erro passível de restrições, de censuras, de punições.
O problema, que deveria ser desde logo encarado, é originário de enfoque não adequado. O caminho não é punir, cassar, mas colaborar, orientar, é ir aos clubes verificar o motivo do não cumprimento das normas legais, informando que o direito de realizar corridas, de funcionar, requer respeitar os ditames legais. Eu tenho certeza que em clubes pequenos nem sempre sequer a lei, a regulamentação e o Código Nacional de Corridas são do conhecimento dos dirigentes. A atividade tem que se processar dentro das exigências e dos limites legais.
Para que se interrompa esse princípio de matança do turfe brasileiro, o Ministério, a Câmara e a Associação Brasileira têm que mexer. Os clubes cujos dirigentes não tenham interesse e/ou capacidade de fazer funcionar de acordo com os preceitos que lhe deram as cartas–patentes, que sofram a ação punitiva do Ministério, mas isso só depois de visitas aos hipódromos, aos clubes, esclarecer os direitos e as obrigações, ensinar, orientar. Tem que haver rigor nos necessários e periódicos exames de A.I.E. (Anemia Infecciosa Eqüina), vacinação contra influenza em dia, corredores têm que ter seus documentos devidamente arquivados nas Comissões de Corridas e regularmente anotadas todas as performances, há que haver pelo menos um mínimo indispensável de seriedade, conhecimento e respeito.
Os clubes promotores de corridas têm que entender que o turfe brasileiro não é uma simples “brincadeira de meia dúzia de riquinhos”, conforme disse publicamente o tal inimigo do turfe, e há que trabalhar direito e com respeito, e por outro lado ao Ministério cabe punir sim, mas depois e em último caso do desinteresse e/ou da incapacidade do clube em seguir a necessária orientação, cuidados, ajuda, pois antes de mais nada o Ministério existe para disciplinar, orientar e proteger.
Se há diretorias de clubes omissas, desinteressadas, incompetentes, que sejam denunciadas ao Ministério pelos turfistas locais, o que não é possível é que gente inadequada eventualmente permita o desmoronamento de um clube.
Ministério, Câmara e/ou a Associação Brasileira, há que ser feita alguma coisa.
O Ministério não pode nem deve ser alvo de críticas por estar cumprindo as suas obrigações, e os clubes têm que se conscientizar da obrigatoriedade do cumprimento dos ditames legais. Mas o problema não é só punir, é ir aos hipódromos verificar as condições locais, orientar, educar, sugerir, e se mesmo assim a incompetência e/ou desinteresse dos dirigentes não resultarem bem, é impor a lei.
É para evitar que se chegue a um final infeliz que o entendimento de Humberto Ceciliano Luzzardi deve ser posto em prática, isto é, reunir o Ministério e a Câmara, e eu acrescentaria a Associação Brasileira, para tentar conter o atual rumo de fechamento de hipódromos.
Transcrito da Revista Turf Brasil