
Roi Normand em 27.06.90, dia seguinte a sua chegada ao Santa Ana
em Bagé e seguro por seu proprietário José Carlos Fragoso Pires
Em junho de 1990, recém saído de campanha nos EUA e adquirido por US$ 250 mil
pelo Haras Santa Ana do Rio Grande (líder do sindicato de criadores que o importou),
desembarcou em Bagé, RGS, um cavalo castanho escuro de 6 anos de idade, nascido
em 1983, racé até a medula, filho do americano Exclusive Native na
égua francesa Luth de Saron (por Luthier).
Ao morrer, em 20 de fevereiro de 2007, no mesmo campo de criação onde serviu
durante 17 anos e está hoje enterrado, Roi Normand gerou 43 ganhadores de provas
de Grupo no país e no exterior (20 de Grupo I, 10 de Grupo II, e 13 de Grupo
III), até 23 de setembro de 2009. Sua última geração, nascida em 2007, verá
as pistas de corrida a partir de janeiro de 2010.
Sob qualquer ponto de vista que se examine, o semental criado por Paul de Moussac
(o mesmo de Trempolino), escolhido a dedo por José Carlos Fragoso Pires Junior
– que queria um descendente de Raise a Native para cobrir as matrizes Ghadeer
–, e negociado pela PSI Internacional, de Samir Abujamra, revelou–se uma das
mais felizes aquisições realizadas pela criação nacional em qualquer tempo.
E bastaria mencionar os nomes de cavalos decisivos do moderno turfe brasileiro,
como Riboletta, Redattore e Super Power, para confirmar essa impressão.
Sob o ponto de vista de suas origens e perfil funcional, em campanha e na reprodução,
quem foi exatamente Roi Normand? Por que ele se adaptou tão bem à criação brasileira?

Origens, campanha e perfil funcional
Embora filho de pai americano, a linha baixa de Roi Normand é “visceralmente” européia (a correção do advérbio é de Marcos Ribas). E foi na Europa, mais especificamente na França, que ele foi iniciado e se apresentou aos três e quatro anos de idade (não correu aos dois anos). Em 1988, aos cinco, mudou–se para a América, onde correu até os seis anos, tendo se retirado das pistas inteiramente são.
Seu race–record, entre França e EUA, indica que atuou 17 vezes, para ganhar em 5 oportunidades. Suas vitórias incluem o Sunset Handicap (Grupo I), 2.400 metros, grama, Hollywood Park; e o Ark–La–Tex Handicap (Grupo III), 1.800 metros, Louisiana Downs, para um total de prêmios de US$ 393,454 (a dólar de 1986).
O pai de Roi Normand
O pai de Roi Normand, é o americano Exclusive Native (nascido em 1965, por Raise a Native e Exclusive, por Shut Out), alazão, dorso longo, calçado do pé esquerdo, dotado de uma excepcional estrutura muscular. Exclusive Native faz parte daqueles brilhantes descendentes de Phalaris que produzem animais melhores que eles mesmos. É este, aliás, o mesmo caso de Mr Prospector, igualmente filho de Raise a Native.
Imaginar que Phalaris, a invenção suprema de Lord Derby, divisor de águas entre o cavalo de corrida do passado e aquele de nossos dias, está na origem de animais como Pharos, Nearco, Nasrulllah, Grey Sovereign, Bold Ruler, Never Bend, Royal Charger, Hail To Reason, Sir Gaylord, Nearctic, Pharis, Fairway, Tom Fool, Native Dancer e Raise a Native, toca quase o inacreditável.
A maior parte do que o mundo do puro–sangue inglês conhece hoje em matéria de qualidade, vem diretamente dos 15 nomes acima citados.
Para fins desses comentários, porém, interessa saber que é do ramo Native Dancer de Phalaris que provém Roi Normand (na sequência Phalaris – Sickle – Unbreakable – Polynesian – Native Dancer – Raise a Native – Exclusive Native). Com a característica fundamental de Raise a Native ser livre do sangue Nearco até a quarta geração, e seus descendentes misturarem excepcionalmente bem com os da máquina invicta de Federico Tesio.
Em corrida, Exclusive Native venceu, nos EUA, o Sandford Stakes e o Arlington Classic. Mas foi na reprodução que ele brilhou ao gerar campeões como Affirmed (tríplice–coroado americano), e Genuine Risk, melhor potranca de 3 anos de sua geração, ganhadora do Kentucky Derby (tendo sido, ainda, segunda no Preakness Stakes e no Belmont Stakes).
Então, a primeira observação: Roi Normand é um digno representante da “tribo” Native Dancer, com o detalhe de que seu pai, Exclusive Native, foi perfeitamente capaz de produzir ganhadores dos 2.000 aos 2.400 metros, em um turfe que, em termos gerais, se notabiliza por privilegiar velocidade pura e o encurtamento das distâncias.
A mãe e o avô materno
Luth de Saron (1977, por Luthier e Rose de Saron, por Carvin e Zitza, por Djefou), mãe de Roi Normand, é total e inteiramente francesa, “inbred” 4 x 4 sobre Djebel, uma das quatro maravilhas da criação Boussac (as outras são Tourbillon, Asterus e Pharis).
Além de ser um dos mais prepotentes reprodutores do turfe europeu, Djebel é pai de animais como Arbar e Clarion (primeira geração no haras); My Babu e Djeddah (segunda geração); Coronation (terceira); Galcador e Emperor (quarta); Djelfa e Dejebellica (quinta); Argur e Arbelle (sexta); Pharel (sétima); Cordova (oitava); Hugh Lupus (nona); e Apollonia (décima). Todos eles ganhadores do que hoje se conhece como provas de Grupo I. Em matéria de sofisticação e qualidade, poucos se igualaram a Djebel.
Luthier, criação Rothschild, pai de Luth de Saron e avô–materno de Roi Normand, revelou–se desde cedo, tendo se transformado em um excepcional milheiro. Luthier é filho de Klairon e, portanto, neto de Clarion (acima mencionado).
Em campanha, Luthier venceu o Prix Noailles (Grupo II), o Prix Lupin (Grupo I), e o Prix Jacques le Marois (Grupo I), 1.600 metros, Deauville, considerado uma espécie de campeonato desta distância na Europa. Entre seus filhos clássicos, lêem–se nomes como os de Sagace (Arco do Triunfo), No Lute (Prix Lupin), Riverqueen (melhor potranca de sua geração na França), Yawa (Grand Prix de Paris), etc. etc.
O conceituado Renom de Gasté, considera Luthier um dos melhores reprodutores europeus do último quarto do século XX, líder das estatísticas de pais de ganhadores na França em 1976, 1982, 1983 e 1984 – e “certamente o melhor continuador da linhagem Djebel na criação moderna” (vide Grands Lignées de Race Pure, pág. 133, UNIC).
É este, pois, o soberbo avô–materno de Roi Normand.
A campanha de Luth de Saron
Aos 2 anos de idade, treinada pelo experiente “Jacko” Cunnington Junior (o mesmo de Irish River), e defendendo as cores ouro e preto em listras horizontais de seu criador, Luth de Saron, mãe de Roi Normand, correu 3 vezes.
Ganhou nas 2 primeiras oportunidades, em 1.200 e 1.400 metros, grama, respectivamente, em Evry e Deauville. Ainda invicta, sua terceira aparição deu–se no Criterium des Pouliches (Grupo I), em outubro de 1979, Longchamp, quando enfrentou as 13 melhores juvenis de sua geração na Europa. Viu suas chances anuladas depois de uma péssima largada, e chegou em quinto, a quatro corpos de Aryenne. Dela, na ocasião, disse o “Timeform–Racehorses of 1979” (pág. 416): “Provavelmente, é bem melhor do que a infeliz apresentação no Criterium des Pouliches sugere.” Sua cotação no Handicap Livre daquele ano foi de 111 libras–peso (55,5 quilos, aproximadamente).
Terminada a temporada 1979, Luth de Saron voltou às pistas no primeiro semestre de 1980, então já descrita como uma “potranca forte e bem desenvolvida.” Ganhou, de saída, o Prix Vanteaux (Grupo III) e o Prix de Malleret (grupo II), em Longchamp, batendo a Benicia nas duas oportunidades.
Em julho de 1980, foi quarta no consagrado Prix de Diane (Grupo I), em Chantilly, a quatro corpos de Mrs. Penny; e repetiu esta colocação no Prix de La Nonette (Grupo III), disputado em agosto, Deauville, quando chegou a dois corpos da excepcional Detroit (futura vencedora do GP do Arco do Triunfo daquele mesmo ano, e mãe de Carnegie, também vencedor da prova em 1993).
A última saída às pistas de Luth de Saron deu–se no Prix Vermeille de 1980, uma das principais provas preparatórias para o Arco do Triunfo, quando correu moderadamente e foi encaminhada à reprodução.
O “Timeform–Racehorses of 1980” (pág.466), subiu sua cotação no Handicap Livre de 1980 para 118 libras–peso (cerca de 59 quilos) e resumiu: “Boa potranca, melhor em 2.000 metros, não aprecia as pistas duras demais.” É bem de ver, que Luth de Saron abordou, aos 3 anos, as seguintes distâncias: 1800, 2.100, 2.000, 2.000 e 2.400 metros.
Eis aí, a mãe de Roi Normand, nascida na púrpura e freqüentadora assídua da elite feminina de sua geração na Europa.
Adaptação ao Brasil
O turfe brasileiro segue o padrão do turfe europeu, onde as provas que qualquer criador ou proprietário sonha e ambiciona ganhar (vide Derbys, Dianas, GP Brasil, GP São Paulo, etc.) são sempre aquelas disputadas nas distâncias clássicas da milha e meia, grama, no caso dos potros, e da milha e um quarto, no caso das potrancas.
Em conseqüência, é este o perfil funcional dos reprodutores que mais parecem interessar à criação brasileira. É bom que assim seja. Nossas melhores chances de inserção no mercado internacional do cavalo de corridas decorrem exatamente deste fato, e não da pretensão de disputar com terceiros o primado dos especialistas da velocidade pura.
Foi desta forma que Roi Normand se expressou na reprodução, fato que serve para explicar seu inequívoco sucesso entre nós.
Toda sua construção – nas duas linhas do pedigree – mostra animais capazes de enfrentar o teste supremo da distância e lidar com as enormes dificuldades daí decorrentes, que implicam capacidade de carregar peso; galopar no ritmo da prova; negociar com eficiência as curvas do percurso; e ainda encontrar reservas de energia (e de coragem) para produzir a necessária troca de marcha nos últimos metros da disputa. E é desta matéria que são feitos os cavalos de exceção do turfe mundial.
Entre os melhores descendentes brasileiros de Roi Normand, a maioria atua assim. Mesmo no caso de notáveis milheiros como Redattore – cuja forma de se expressar em corrida aparentemente deve muito à influência de Luthier em seu pedigree – tais características estão sempre presentes.
Aliás, dos filhos de Roi Normand, é ele, Redattore, aquele que parece mais apto a perpetuar as magníficas origens de seu pai, a julgar pelo tipo físico elegante e equilibrado (os ingleses diriam, “racing like”) que imprime à sua descendência, e cujo exemplo mais significativo é o do refinadíssimo Kapo de Tutti (em mãe Ghadeer), ganhador da versão paulista do GP Presidente da República (Grupo I), em maio deste ano.
Quem quer um exemplo do que seja um cavalo de corrida no auge de sua nobreza e esplendor físico, devia tê–lo observado após esta vitória, desfilando, já sem selim, no paddock de Cidade Jardim. Keats tem razão: “A thing of beauty is a joy for ever.”
Nada é por acaso
Se há alguma atividade na vida onde o acaso conta pouco, esta atividade é a da criação do cavalo de corrida. Ao contrário do que alguns possam descuidadamente imaginar, dificilmente escolhas de cruzamentos feitas na base do mero impulso, sem amparo na realidade concreta, e sem uma perspectiva nítida das chances e possibilidades de sucesso, dá certo.
Não foi este, porém, o caso do Haras Santa Ana do Rio Grande quando trouxe Roi Normand para o Brasil. Seus responsáveis, Fragoso Pires Junior à frente, sabiam exatamente que tipo de animal queriam, porque queriam, e de como pretendiam utilizá–lo.
Metade do sucesso de Roi Normand na criação brasileira deve–se a este fato. A outra metade, à irrepreensível qualidade de suas origens, uma síntese perfeita do que há de melhor nos dois turfes mais desenvolvidos do mundo: o europeu e o americano.
Com ele, nunca foi tão verdadeira a afirmação de Marcel Boussac a respeito dos cavalos de corrida: “Dê–me sangue, e eu crio um craque na Place Vendôme.”
11.10.2009