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Novembro | 2005

Flavio Geo, sucesso da dedicação
15/11/2005 - 19h38min

Gerson Martins

Flavio Geo, exemplo de trabalho e competência

No turfe, a vitória é um momento mágico, seja numa importante prova de Grupo I ou num modesto páreo de claiming. O brilho da conquista, invariavelmente, recai sobre a excelente direção do jóquei ou do preparo perfeito do treinador. Mas o sucesso, na verdade, é fruto do trabalho de toda uma equipe, na qual o papel do veterinário é fundamental. É ele o responsável por colocar o animal em condições de ser treinado e, como conseqüência, entregue na melhor forma ao jóquei. Por justa razão, o personagem que abre esta série de matérias especiais é justamente um dos mais destacados profissionais da área: Luiz Flavio Geo de Siqueira.

Mineiro, 48 anos, casado com a também veterinária Bianca Cascardo, tem três filhos: Eduardo (18) e Guilherme (15), do primeiro casamento, e Júlia (7), com a atual mulher. Formado pela Universidade Federal Fluminense em 1982, três anos antes teve seu primeiro contato com o turfe, quando concorreu a uma vaga de estagiário no Hospital Octavio Dupont. E conseguiu.
 
Quais as referências do início deste contato com os cavalos?

Assim que cheguei, comecei a trabalhar com José Roberto Taranto e aprendi muito. Recebi muitos conselhos, entre os quais, procurar uma especialização. Em cardiologia, nutrição ou anestesia. Foi um período de grande proveito na minha carreira.

Quanto tempo trabalhou com Taranto?

Fiquei com ele até 1985, quando fui contratado pelo Haras Santa Maria de Araras, onde permaneci 13 anos. Durante esse período, também trabalhei para o Haras Anderson e para o Stud Rio Aventura. Houve um intervalo de dois anos, que passei fazendo residência nos Estados Unidos.

O que você destacaria na passagem pelo turfe norte–americano?

Basicamente, trabalhei como nutricionista. Trata–se de uma fase extremamente importante para a minha carreira, pois aprendi muito e pude vivenciar inúmeras situações que me atualizaram bastante.

Você foi o precursor da artroscopia em cirurgia eqüina?

Aconteceu logo que comecei no turfe. Na verdade, soube que o veterinário Bryan Orr estava tentando desenvolver novas práticas para cirurgias com o uso do artroscópio. Mas, não alcançava os resultados esperados. Aprendi, então, a técnica da triangulação. Em 85, comecei o procedimento, que se mostrou eficiente.

E quais as vantagens desta técnica?

São enormes. O tempo de recuperação do cavalo é muito menor, além de facilitar a cirurgia em si. Pode–se tratar de várias fraturas e retiradas de fragmentos de modo muito mais apropriado.

Quando começou sua parceria com o Stud TNT?

Tenho orgulho de ter atendido o primeiro cavalo do stud, ainda com a farda azul e branca e treinamento de João Coutinho, em 1990. É uma parceria que vem dando certo há 15 anos.

E Much Better, foi o melhor cavalo que atendeu?

Sem dúvida alguma. Operei–o duas vezes, em situações complicadas. Depois de correr o Derby Paulista, ele quebrou o joelho e passou por uma artroscopia. Atendi, também, outro craque, Leroidesanimaux, mas este nunca deu trabalho.

Você hoje é responsável pela VETEQ, uma clínica especializada, dentro do JCB. Como nasceu a idéia?

Quando comecei a trabalhar no Araras abri uma clínica dentro da cocheira. Quando voltei dos Estados Unidos, após a residência, construí a VETEQ no Hipódromo da Gávea. Claro, não seria para concorrer com o Jockey. Tenho uma sala cirúrgica para as artroscopias, esteiras, ultra–som e equipamentos utilizados na recuperação dos animais.

Sendo sua mulher veterinária de sucesso no turfe, vocês discutem os casos que atendem?

Conversamos muito. Não interfiro nos cavalos dela nem ela nos meus, mas discutimos bastante os quadros mais complicados.

Há mais ou menos um ano, você deu um grande susto nos amigos, ao ser submetido a uma angioplastia. O que mudou na sua vida?

Quase tudo, pois agora coloquei meu nome na agenda. Antes, trabalhava demais, comia em hora errada e não me cuidava. Hoje, tiro uma hora por dia para fazer ginástica e já emagreci 22 quilos.

Como você encara a evolução da medicina veterinária?

Para que, no Brasil, pudéssemos acompanhar essa evolução, precisaríamos de investimentos muito fortes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a medicina veterinária está dez anos à frente. Para diagnósticos, eles possuem equipamentos de altíssima tecnologia. Coisa inimaginável por aqui, pelo menos por enquanto.

Velodrome, ganhador do último GP Brasil, é um cavalo problemático. Como fez para deixá–lo no ponto?

Foi um trabalho de equipe. Velodrome tinha dois sérios problemas, um físico e outro de comportamento. Um cavalo de temperamento difícil e com os dois boletos comprometidos. O Neném (Venâncio Nahid) mantinha um cavalariço para segurá–lo, nos dias de corridas, das quatro da manhã até a hora de ir para o prado. Muito corredor, mas que era difícil de levar, isso era. Agora está em Dubai e espero que tenham paciência com ele.

Como resumiria seus 20 anos de “carreira solo”?

Veja bem, é preciso gostar muito do cavalo. O trabalho é duro e a dedicação tem que ser total. Mas, nada como olhar para trás e registrar cinco GPs Brasil, oito Derbies, além de provas internacionais. É uma emoção muito forte.

Recentemente, você foi homenageado pelo CRMV. Por quê?

É verdade, recebi uma placa de Honra ao Mérito por serviços prestados à medicina veterinária. Pela primeira vez um profissional ligado ao turfe é distinguido com este prêmio.

Diz a lenda, no turfe, que remédio faz cavalo correr. É verdade?

Não acredito. Um cavalo pode ganhar uma ou duas corridas entupido de remédios e depois acaba. Uma campanha inteira é fruto de um trabalho sério, de recuperação nos casos mais graves. Os cavalos que cuido vão para os Estados Unidos e seguem vencendo.

Que conselho você daria para quem quer começar no turfe?

O conselho que o Taranto me deu foi muito útil. A especialização é fundamental, mas é preciso estar preparado para todas as situações. A dedicação e querer sempre aprender mais são fatores preponderantes para se conseguir sucesso.

por Marco Aurélio Ribeiro

 

 



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