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Abril | 2009

Conformação é Fundamental, por Milton Lodi
13/04/2009 - 10h28min

Com o título “Conformação é fundamental como critério”, a revista Puro Sangue Inglês, ano 4, janeiro/fevereiro 97, publicou um artigo do veterinário José Luiz Pinto Moreira. Extrovertido, amigo de todos, muito competente, o Dr. José Luiz por muitos anos militou no turfe brasileiro. A sua área era a da criação, foi veterinário–responsável de muitos haras paulistas e também no Rio Grande do Sul. A sua grande competência e simpatia faziam com que ele tivesse que fazer palestras em vários estados, participasse como diretor–técnico de Associações, viajasse para o exterior para examinar cavalos pretendidos para importação como garanhões para o Brasil. O presente artigo é de autoria dele, e representa uma pequena homenagem de um dos seus inúmeros amigos e admiradores.

Conformação é Fundamental como Critério

No Brasil, pistas defeituosas e condições adversas de clima e solo podem mascarar os melhores representantes do PSI. Por isso, é preciso considerar a sanidade de um animal como fundamental.

Sempre quando alguém estiver envolvido com qualquer raça de qualquer espécie animal tem ele a responsabilidade e a obrigação de conservá–la, mantê–la e aprimorá–la, independentemente do setor no qual está envolvido e do tamanho da parcela que seu papel nele desempenhe. O PSI é uma raça que necessita um constante aprimorado trabalho de seleção, uma vez que suas características principais, sanidade e performance, são de elevado grau de dificuldade para melhoramento, porém é imprescindível que se o faça. Tanto em sanidade e performance, mesmo os muito pequenos são extremamente difíceis de serem obtidos e requerem um dedicado e profundo espírito de observação aliados a um severo e intransigente crítico.

É muito importante considerar que o contrário, ou seja, a deterioração tanto da sanidade como da performance produzem–se com extrema facilidade, bastando para isto que se permita a introdução no plantel de qualquer tara ou defeito (incluindo–se nestes a falta de habilidade para ganhar corridas), para que se produza um retrocesso. Será depois, e a história da criação no mundo está cheia de exemplos, muito difícil eliminar tais problemas de um plantel. Muitos já foram destruídos por introduções deste tipo, e não mais recuperados. É conveniente citar também aqui que quem não conhece a história corre o risco de repeti–la.

Consideramos no PSI três critérios básicos para a seleção. Classicamente mencionados na ordem: pedigree, conformação e performance (ou campanha), tomo a liberdade de colocar o pedigree como terceiro tópico por razões que mencionarei então. Enfocando, obviamente, na criação brasileira, o item conformação tem uma importância extremamente aumentada. Em grande parte do território brasileiro, se não em todo ele, as condições naturais não são as mais favoráveis, ou as naturalmente favoráveis à criação do PSI, em que ocorrem variações climáticas intensas, solos com deficiência, maior ou menor de acordo com a região, em determinados elementos. Em resumo, condições ecológicas desfavoráveis em diferentes aspectos não fazem do Brasil o país mais indicado para criar o PSI. Além das condições para criação, devemos considerar que nossas pistas de corrida não ajudam o animal pouco correto, ou incorreto, ou na gíria turfística o “não são” (unsound).

Não temos pistas de corrida com curvas compensadas, nem de subsolo e drenagem tão bem preparados como as de centros mais avançados nessas tecnologias e economicamente poderosos como sobretudo os Estados Unidos. Também, a própria superfície de corrida é irregular e prejudicial. Alguns poucos centros de treinamento possuem ótimas pistas, porém as de corrida não são. Além disso, nosso tradicional sistema de treinamento e a forma pelo qual nossos cavalos são montados em treinamento e dirigidos nas corridas também não favorecem o animal que não é correto e são. Inúmeros animais que em determinados centros, sobretudo nos Estados Unidos, que portadores de defeito, (ou “não são”), suportaram uma campanha com raro brilho e sucesso, certamente não teriam suportado nossas pistas e nosso sistema de treinamento.

Assim, penso, que não deveríamos transigir na conformação como critério de seleção, procurando animais corretos, bem apurados, harmoniosos, bem balanceados e sadios para levá–los `a reprodução. É importante pesquisar na família de determinado indivíduo problemas possivelmente genéticos e, portanto, transmissíveis, como hemorragias, tendinites, aerofagia, “cornage” e artrite. São muitos conhecidos casos (a história está cheia deles) de problemas deste tipo, que não aparecem por uma ou duas gerações e voltam. A performance é, sem dúvida, o mais importante critério de seleção.

Criamos cavalos para ganhar corridas e o melhor é aquele que ganha mais e melhores corridas.

É importante ressaltar que isto é um enorme privilégio do qual não podemos abrir e não possuir um critério de seleção tão concreto, tão absoluto e tão indiscutível. John Ascain disse uma vez que “pode–se tolerar algum defeito nos cavalos, desde que sejam defeitos típicos das famílias e dentro de parâmetros toleráveis; o único defeito que não se pode tolerar em um cavalo destinado a ganhar corridas é a falta de habilidade para ganhar corridas”. Eu diria, falta de habilidade e sanidade.

Ao se selecionarem animais, considerando–se a performance como critério em julgamento, não se pode esquecer de apreciá–la de acordo com as especialidades e as características de cada família, ou seja, dentro daquilo que geneticamente é lícito esperar de cada um, e que seja genuíno. É indiscutível considerar como importante a característica de que um animal ligeiro seja de família ligeira, o de meio–fundo, idem, o de fundo idem. Não é uma recomendação o ligeiro de família de fundo ou vice–versa – normalmente são características de qualidade indiscutível que muitas vezes não se transmitem.

A corrida é o critério mais definitivo de seleção. Considerar e analisar corrida por corrida daqueles que serão selecionados é fundamental. A característica de cada um, a forma de correr, sua capacidade, grau de coragem, espírito de luta e profissionalismo com que o fazia. As turmas que freqüentou, extremamente variáveis de ano para ano, pistas de preferência, o tipo de treinador e, conseqüentemente de treinamento, quais foram seus jóqueis habituais e como preferia ser conduzido. É a somatória de todos estes pequenos detalhes acrescido da somatória dos fatores maiores, números de vitórias, precocidade, velocidade, resistência, durabilidade, brilho, qualidade das provas, etc., que definirão a avaliação final deste critério. O melhor é aquele que tem habilidade para correr aos 2 anos, brilhante aos 3, que corra aos 4 nas melhores turmas e que chegue a correr aos 5.

É fácil compreender que estes fatores importantes para a seleção daqueles que irão continuar e aprimorar a raça não podem sofrer nenhum fator externo que os influencie ou os altere. Performance e saúde são decisivos. Nada pode alterar a veracidade destes critérios. Se fatores como a medicação dos cavalos nas corridas forem introduzidos, os resultados serão desvirtuados.

Cria–se para ganhar corridas e aquele que ganha mais corridas e melhores corridas é o melhor, desde que seja por ele mesmo, por suas características individuais, próprias e verdadeiras.

Mais ume vez, cabe mencionar que, ao final de uma campanha, muitos animais apresentam lesões, sobretudo nos membros, resultantes do esforço continuado. São toleráveis certas lesões e aceitas com produto de uma campanha algo longa e continuada. São toleráveis desde que não tenham surgido, precocemente, nem tenham características de lesões geneticamente transmissíveis, denominadas taras, cujos portadores em que tenham surgido muito cedo, tornam–se animais de elevado risco para a reprodução e devem ser analisados e considerados com muita prudência e atenção.

Deixe, como mencionei no princípio, o pedigree como o último critério de seleção a ser mencionado. É fácil a razão.

O pedigree de um cavalo nada mais é que um enunciado de nomes, pais, avós, bisavós, trisavós, etc. que representam, cada um deles, características definidas de conformação, tipo físico, defeitos e qualidades, performance, precocidade, fundo, velocidade, resistência, grau de sanidade, etc., etc., etc. O que o pedigree traz ao conhecedor como informação importante é o grau de dominância dos indivíduos ali mencionados, e o conjunto das linhagens e das famílias que definem certos graus de prevalência de determinadas características.

Considerados os critérios de seleção acima, eu diria que será melhor aquele que for mais crítico e seletivo, aplicando–os com mais rigor e frieza, e será a criação daqueles que não permitirem que fatores estranhos alterem estes critérios.

O tempo o dirá, e novamente lembro que quem não conhece a história corre o risco de repetí–la.



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