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Setembro | 2008

O Colar, por Milton Lodi
04/09/2008 - 15h05min

A história que eu hoje vou contar me veio por intermédio do jornalista Daniel Kransfeld, que é o responsável pelas indicações da Revista Turf Brasil. Apenas com a relação dos inscritos, sem jóqueis, treinadores, proprietários e performances, rigorosamente dependendo apenas de uma prodigiosa memória, Daniel analisa as chances de todos os cavalos dos habituais quatro programas semanais, em média 400 animais (entre 350 e 450) é em função dessas indicações do Daniel na Revista, por sinal primorosa, que os turfistas escolhem os seus palpites preferidos, e também servindo para que outros apontadores escolham os seus preferidos. A minha impressão pessoal é que, se o Daniel tivesse como os outros jornalistas as mesmas informações para as indicações, ele seria destaque absoluto na difícil missão de informar e indicar, de dar palpites.

Foi o Daniel que me contou uma história, que teria saído na internet, e que, por interessante e curiosa, resolvi em torno dela criar uma história com conotações turfísticas.

Aí vai ela:

O verdadeiro nome era Claudemiro Perácio, mas era por todos conhecido como Miro das Candongas. Boa conversa, bom jogo de cintura, esperto, observador, vivendo para as boas coisas da vida, a meta era a felicidade, Miro das Candongas sempre se dava bem. No colégio sempre passava de ano, estudava pouco, colava muito, era amigo dos outros alunos e também dos professores, que cativava com sua simpatia. Nas sextas e nas segundas as corridas eram noturnas, ele não podia ir, mas aos sábados e domingos assistia todos os páreos com atenção. Dentro do possível, conversava com os treinadores, os jóqueis e os cavalariços, evitava os proprietários pela natural vaidade que enaltecia as chances de seus animais. Assim, colhia informações muitas vezes preciosas, e em função delas passou, ainda menino, a ganhar dinheiro. Ele não apostava do dele, não tinha e também como menor não podia, respeitava a proibição, não por malandragem, pois para ser um bom malandro havia que respeitar os limites, o negócio era aproveitar o possível, mas sem maiores riscos.

Mirinho, como era chamado quando garoto, circulava livremente pelo prado, e sempre havia alguém pedindo informações, e assim ele cresceu sem maiores problemas. De capilé em capilé, foi levando a vida.

Fez–se homem. Meteu–se em negócios, sempre sem arriscar o próprio dinheiro, ficou conhecido. Foram–se os tempos em que freqüentava cassinos clandestinos, recebendo cachê para jogar em nome de outros, que a ele pagavam pela conhecida habilidade no manuseio dos baralhos.

Quando Claudemiro Perácio, o Miro das Candongas, estabilizou–se financeiramente, passou a dedicar–se aos prazeres da vida.

Já rico, passava em seu carro último tipo pela Avenida Atlântica, quando viu saindo da praia uma linda mulher.

No dia seguinte, a esperteza e a simpatia do Miro já tinham conseguido todas as informações, quem era, onde morava, onde trabalhava, os seus hábitos. Era mulher séria, morava sozinha e naquele momento não tinha namorado, estava com o coração livre.

Miro não custou a conseguir um encontro, um jantarzinho, cinema, teatro, corridas aos sábados e domingos. Tudo caminhava bem, o Miro sabia como encantar uma mulher bonita, e sem pressa ele foi levando. Mas a moça havia sido criada à antiga, nada de intimidades. Mas Miro era paciente, não podia perder a parada, havia a ser conquistado aquele grande prêmio. Conversa vai, conversa vem, tudo ótimo, mas ficava por ali. A moça era linda, educada, graciosa, o Miro gentil, agradável, simpático.

O tempo foi se passando, até que um dia a moça disse ao Miro que tinha sido transferida para a filial de São Paulo, ia em definitivo sair do Rio.

O Miro viu que tinha muito pouco tempo. Na sexta–feira anterior à semana da viagem da moça, levou–a à melhor joalheria da cidade. Chegaram no carro importado último tipo, olharam a vitrine, e Miro pediu para ver o mostruário do que havia de melhor. O vendedor, educado e solícito, trouxe anéis, brincos, pulseiras, colares, jóias lindas e de primeira qualidade.

A deusa nunca tinha visto nada parecido, e assombrada ficou quando o Miro mandou que ela escolhesse a melhor, a mais bonita jóia, peça única, seria o presente dele de despedida. Com os olhos brilhando, emocionada, a moça escolheu um colar. O Miro perguntou o preço, e sem discutir preencheu um cheque de 480 mil reais. O gerente da loja veio falar com o casal. Ele não tinha a menor dúvida quanto ao casal, que chegara em um carro de alto luxo, estava muito bem vestido, gente fina, era um casal bonito e certamente confiável, rico. Mas havia uma norma na casa, cheques só podiam ser aceitos dentro de um tempo disponível para serem levados ao Banco, era sexta–feira e já passava das 4 horas, os Bancos já estavam fechados e só reabriria na 2ª feira às 10 horas.

O Miro então disse que não tinha nenhuma importância, a joalheria podia ficar com o cheque e também com o colar, e na 2ª feira antes de viajar a moça iria buscar a jóia. A deusa a tudo olhava maravilhada. Imagina só, um namorinho leve, e ela ganhara um colar de quase meio milhão.

Satisfação geral, e o Miro e a deusa foram passar os dois dias que restavam visitando centros de treinamento na serra e hospedados em agradáveis pousadas da região.

Na 2ª feira à hora do almoço, o Miro recebeu um aflito telefonema da joalheria, o gerente pedia muitas desculpas por importunar, mas é que o banco informara que o cheque não tinha fundo, naturalmente seria um engano, mas essa era a informação dada pelo gerente.

O Miro então respondeu que estava tudo bem, o cheque deveria ser rasgado e jogado no lixo. O cheque já cumprira a sua missão.



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