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Agosto | 2008

Para ser um bom jóquei II, por Milton Lodi
21/08/2008 - 11h24min

Como em todas, ou quase todas, as situações de competitividade, sejam de quaisquer naturezas, a necessidade da concentração é fundamental. Um piloto de corridas de automóveis, um jogador de basquete, um nadador, um “voador” de asa–delta, um jogador de futebol, um atirador de facas, entre inúmeros outros casos, e também e principalmente o jóquei, tem que tentar um máximo possível de concentração. Depois que o jóquei monta para fazer o galope de apresentação, tem que começar de imediato o trabalho da cabeça, procurar sentir o “momento” do cavalo (se ele está calmo ou nervoso, como está reagindo ao toque das rédeas, se está pisando bem, se no galope ele aparenta estar disposto, se na ida para o partidor ele está se comportando adequadamente, e ainda mais, como isso está se passando com os jóqueis e os cavalos adversários). O jóquei que monta o seu cavalo e chega até o partidor despreocupado e sem concentração pode estar ao alcance da perspicácia, do planejamento, da observação, de um jóquei bem concentrado. A rotina de montar vários cavalos no mesmo programa tende à desconcentração, é necessário que o jóquei tenha sempre em mente que na raia não tem mais criador, proprietário, treinador, veterinário ou cavalariço, é só ele e o cavalo, e é da cabeça dele que tudo vai depender.

Por melhor e mais consciente que seja um jóquei, não é fácil para ele saber, encontrar a melhor maneira de conduzir o seu cavalo para uma vitória. É claro que um jóquei que tenha montado várias vezes um mesmo cavalo sabe o melhor jeito para um melhor aproveitamento, mas é muito comum um jóquei só ver pela primeira vez o cavalo na hora de ir para o galope de apresentação. Mesmo com toda a observação e concentração é difícil, porque é difícil adivinhar.

É por isso que os mais experientes, como Jorge Antonio Ricardo, por exemplo, pede os filmes das últimas corridas do cavalo. Assim, quando ele vai montar aquele cavalo pela primeira vez, já sabe muita coisa sobre ele e ainda de adversários que ocasionalmente já correram contra o seu pilotado. Morando em Buenos Aires e vindo ocasionalmente montar no Brasil, ou montando cavalos brasileiros que lá vão correr, boa parte do desconhecimento é suprida pelas filmagens. A maneira de correr fica mais fundamentada, mais “sabida”, mas continua indispensável à concentração, a procura da “maneira de ser” de cada cavalo, todos eles seres vivos e com características próprias, individuais.

Um bom jóquei, para ser realmente bom, além de todas as qualidades, necessita de uma que só vem com o tempo, que é a experiência. Tomemos como exemplo a fantástica vida profissional de Jorge Antonio Ricardo. Ele já ganhou mais de 10.000 páreos. Como o seu aproveitamento de vitórias é da ordem de 20% (vinte por cento), isso quer dizer que ele já montou em aproximadamente 50.000 páreos. Por isso, quando hoje em dia surge um problema no percurso, o tal problema ele já deve ter encontrado pelo menos 100, 500 ou 1.000 vezes, para ele não é novidade, a sua experiência lhe indica a melhor solução, a melhor saída. A vantagem que ele leva sobre os mais moços é grande, inclusive porque, sendo um jóquei–atleta, é fisicamente máquina de montar (é comum, em um programa de 18 páreos na Argentina, montar em 15, e depois de montar o último a sua respiração está no mesmo ritmo da anterior ao da primeira montaria).

Outro jóquei muito bom e de larga experiência, é Carlos Geovane Lavor. Ricardo está com 46 anos de idade, Lavor com 39, em termos de experiência é uma diferença, mas é visível que muitas vezes é a experiência que ganha corridas. Lavor é experiente, calmo, técnico, perspicaz, enérgico.

Alex Sander Mota é classe pura. Extrema sensibilidade, tranqüilo, confiante, tem noção de tudo, é primoroso. Está com 30 anos de idade. Se o Mota fosse tão profissional como o Ricardinho, eu não sei daqui a mais 16 anos, idade do Ricardo, em que patamar estaria (ou estará).

Tiago Josué Pereira é o jóquei que, com Lavor e Mota, forma o grupo dos “jóqueis artistas” na Gávea, no meu entender os três melhores em atividade no Brasil no momento. T.J. está com 29 anos, é muito bom, é altamente eficiente, trabalhador, confiável.

A grosso modo pode não parecer muito, mas como simples exemplo, os 29 anos de TJ para os 46 do Ricardo representam mais 17 anos de experiência, diferença muito grande.

Ricardo, com sua fixação em trabalhar, montar e ganhar é o parâmetro, é o exemplo a ser seguido (como o pai dele, Antonio Ricardo, me disse quando foi anunciada a ida do Ricardinho para a Argentina, para qualquer lugar que ele fosse iria dominar, pelo talento e pelo trabalho).

No meu entender, antes de ser jóquei o indivíduo tem que ser uma pessoa, isto é, mostrar boas qualidades pessoais.

Há mais de 40 anos, eu resolvi contratar um jóquei, tinha coudelaria numerosa, contava com os melhores jóqueis, dentre eles o maior de todos que era o fantástico Luiz Rigoni, mas na hora dos páreos principais cada jóquei escolhia a melhor montaria que lhe era oferecida, e às vezes eu tinha que correr atrás de um menos bom para que o meu cavalo não ficasse na cocheira. Resolvi trazer um de fora do Rio. Pensei em três, um radicado em São Paulo, um no Paraná e um no Rio Grande do Sul. Eu teria no fim de semana duas inscrições, uma de Cochise, candidato a um 3°, e Densidade, matunga que certamente chegaria descolocada. Era a semana ideal para testar, para convidar um candidato.

Comecei por São Paulo. Pedi ao meu representante lá domiciliado, o inigualável Capitão Bela Wodianer, que pedisse ao José Alves (J. Alves) para me telefonar. O próprio Capitão me telefonou, o J. Alves estava acamado, febril, com forte gripe, e não poderia montar naquela nem na semana seguinte.

O segundo da lista era um jóquei paranaense, novo, que já estivera no Rio com sucesso quando ainda tinha cerca de 17 anos de idade, ganhara até um páreo para mim, mas apesar de estar ganhando muita corrida entendera de voltar a Curitiba, onde estava em 2° lugar na estatística para um jóquei veterano. Àquela época, o telefone era muito ruim, com enorme dificuldade consegui contactar Raphael Munhoz da Rocha, um jornalista de turfe da maior credibilidade e importância e que eu sabia ser amigo do jóquei Antonio Bolino. Marquei um telefonema para a uma hora da madrugada, quando as ligações interurbanas eram menos congestionadas e mais audíveis. Convidei o Bolino para vir ao Rio naquela semana para montar os meus dois cavalos que não tinham chances, e que ele viesse para já dormir no Rio na noite de 6ª para Sábado. Na 6ª feira no fim da tarde, fui do escritório para a cocheira, e o Claudemiro (Pereira), meu treinador, disse que não adiantava antes das corridas de Sábado, para fazer os pesos, só então o Bolino ia aparecer. Eu disse a ele que não queria apenas um bom jóquei, mas que ele mostrasse interesse, que se apresentasse para trabalhar no Sábado de manhã. O Claudemiro, sempre de bom humor, achou graça, imagine se para montar dois animais sem chance o jóquei ainda iria trabalhar uma porção de cavalos de manhã cedo. Ao ir embora para casa, eu disse ao Claudemiro que chegaria ao prado para os trabalhos às 6 horas da manhã, e se o Bolino não aparecesse para trabalhar eu não o contrataria, independentemente das performances dos nossos dois animais.

No Sábado, quando eu cheguei às 6 horas, já encontrei o Bolino, que havia chegado às 5. Trabalhou muitos cavalos, à tarde chegou 3° com o Cochise e descolocado com a Densidade. À noite, na cocheira, fizemos um acordo financeiro, só de boca, nada escrito. Ele voltou para Curitiba para trazer a família (mulher e um casal de filhos), voltou ao Rio quinze dias depois e prestou ótimos serviços profissionais para mim durante cerca de 35 anos.

Antonio Bolino mostrou–se interessado, uma boa pessoa, antes de ser um bom jóquei. Bolino ganhou tudo que poderia ganhar (Clássico Latino–Americano no Uruguai, Gran Premio Carlos Pellegrini na Argentina, Grande Prêmio São Paulo em Cidade Jardim, Grande Prêmio Brasil na Gávea, e um enorme número de vitórias em provas clássicas e comuns). A sua crescente experiência lhe deu inúmeros resultados importantes. Nas “Pencas” tão comuns no interior do Brasil, o peso do jóquei é livre, de modo que meninos quase crianças são levados a montar. Bolino começou em pencas com 11 anos de idade, e passou mais de 45 anos nos lombos dos cavalos.

A experiência conta muito no mundo do turfe.

Essas são regras da vida, e é claro que também na vida profissional dos jóqueis. De vez em quando surge uma grande promessa, um novo talento, um novo astro.

Na grande maioria das vezes o promissor futuro não se concretiza, pois não é fácil ser alcançada a alta “faixa” de Luiz Rigoni, de Antonio Bolino, de Juvenal Machado da Silva, de Jorge Antonio Ricardo. Mas o turfe brasileiro viu surgir, na temporada carioca de 2007/2008, uma espetacular promessa, um rapaz de 23 anos, que após ótima passagem pela Escola de Jóqueis do JCB, ficou quase dois anos sem maior destaque, mas que agora “explodiu” com um sucesso fantástico. Marcos Mazini mostrou detalhes incomuns em sua brilhante vitória na estatística de jóqueis, em muitos momentos conseguindo suprir com talento a sua falta de experiência. A sua postura como jóquei é impressionante. Calmo, frio, trabalhador, com boa sensibilidade do ritmo da corrida, mostra bom cálculo de corrida e, detalhe notável e muito importante, praticamente não usa o chicote, enfrenta as lutas na reta de chegadas com vigor físico, com entusiasmo, com precisão, com técnica.

Marcos Mazini pode vir a ser um grande astro no turfe brasileiro.



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