Nada é improvisado em Tanta Honra,
ganhadora, aos 2 anos de idade, do Criterium de Potrancas (Gr.II) na Gávea, em maio, e agora – confirmando sua
liderança da geração feminina no Hipódromo Brasileiro – do G.P. João Adhemar & Nelson de Almeida Prado (Gr.
III), milha, corrido no último sábado, dia 12 de julho.
Seu pai, Crimson Tide – um dos
melhores Sadler´s Wells em serviço na criação brasileira – descende de uma linha materna construída sobre a elite
da criação Aga Khan. Além de campeão da estatística de produtos de 2 anos na Gávea em 2008, Crimson Tide já
produziu excelentes corredores entre nós, como Belle Fleur (da primeira geração, logo exportada para os EUA) e
Zardana (da segunda, idem).
Neste ano, nada menos que três de suas filhas se revezaram na liderança da
ala feminina, como tudo se tratasse de uma mera passagem de bastão, fato certamente raro nos anais do turfe do Rio
de Janeiro. Primeiro, foi West Hope (em mãe Slap Jack); depois, Donna Quixote (em mãe Formal Dinner); e finalmente
Tanta Honra (em mãe Nashwan).
Aqui, uma observação: apesar do fato de Crimson Tide exibir um turf–record
de animal inteiramente adaptado à distância clássica da milha e meia, com vitórias e colocações em importantes
provas de Grupo II e III na Inglaterra, Alemanha e Itália, o núcleo brilhante de seu pedigree (onde se destacam
Fairy Bridge, mãe de Sadler’s Wells, e o renomado sprinter Thatch), tem aparentemente contribuído para gerar
juvenis de alta performance entre nós.
Embora Crimson Tide também tenha ganho aos 2 anos
(Newmarket, segunda apresentação, 1.400 metros, grama), seu perfil funcional informa que ele foi melhor quando a
distância e a idade chegaram.
Aliás, a julgar pela forma como se exibiu seu filho Paul Garden no
recente G.P. São Paulo (Gr. I), maio, Cidade Jardim, ditando um ritmo suicida para a prova desde a largada até os
300 metros finais, talvez a natural vocação para a velocidade dos Crimson Tide’s esteja perturbando o raciocínio
dos responsáveis por seus produtos. É que, segundo o Timeform, Crimson Tide sempre correu melhor quando contido
(“held up”) e vindo do fundo do lote. Mesmo com a perigosa característica de “amansar”, assim que percebia ter
dominado os adversários.
Linha materna
A
mãe de Tanta Honra é a irlandesa Tana–Am, importada por Luis Antonio Ribeiro Pinto (Stud São Francisco da Serra),
uma filha de Nashwan (por Blushing Groom e Height of Fashion, por Bustino e Highclere, por Queen’s Hussar), um dos
melhores ganhadores do Derby de Epsom do último quarto do século XX.
Cavalo alazão dourado
com 1.69 m de altura, calçado da mão direita, cabeça masculina, canelas longas e uma enorme passada, Nashwan
herdou de seu pai, Blushing Groom, a impressionante estrutura muscular. Nascido na púrpura, ele é filho da
renomada Height of Fashion (espetacular milheira, Champion 2 Years Old Filly da Europa em 1981) e neto da craque
Highclere (ganhadora do Prix de Diane de Revlon, Gr.I, Chantilly, e dos 1000 Guineas Stakes, Gr.I, Newmarket,
primeira prova da tríplice–coroa inglesa de potrancas).
Excelente reprodutor e avô–materno, Nashwan
gerou dezenas de animais clássicos, entre eles a Swain (duas vezes vencedor do King George VI & Queen
Elizabeth Stakes, Gr.I, Ascot), Wandesta, One So Wondferful, Special Nash, Bint Salsabil, Bint Nashwan, etc. A
distância média dos produtos ganhadores de Nashwan gira ao redor dos 2.000 metros (na verdade, 1986
metros).
Tahhib, a segunda–mãe de Tanta Honra, ganhou e se colocou aos 3 anos na
Inglaterra, e é filha de Cancan Madame (égua americana por Mr Prospector e Wild Madame).
Na reprodução,
Cancan Madame produziu, entre outros ganhadores clássicos, a Dancehall (por Assert), um dos melhores produtos de
sua geração na Europa, vencedor do Grand Prix de Paris Louis Vuitton (Gr.I, Longchamps, 2.000 metros, segunda
prova da tríplice–coroa francesa de produtos); do Prix Noailles (Gr.II, Longchamps); do Prix Hocquart (Gr.II,
Longchamps); do Prix de Conde (Gr.III, Lonchamps), além de ter sido segundo no Prix du Jockey Club Lancia, o
Derby francês, Gr.I, 2.400 metros, Chantilly. Dancehall é hoje reprodutor na França.
Uma análise
superficial da linha baixa de Tanta Honra – neta materna de ganhador do Derby inglês, tendo sua bisavó (Cancan
Madame) produzido um segundo colocado no Derby francês – indica, em princípio, que ela tem a distância clássica.
Esta impressão se fortalece com a leitura de seu pedigree completo, eis que Crimson Tide, além de
trazer consigo, como avô–materno, o soberbo Darshaan (ganhador de um histórico Derby francês sobre Sadler’s
Wells), descende, ele mesmo, da famosa família materna “S” da criação Aga Khan, que já enviou às pistas européias
notáveis ganhadores do Derby de Epsom (Shahrastani) e do Prix de Diane (Shemaka).
Nada mal, pois, saber
que a atual líder feminina na Gávea provém de uma estirpe que reune, até a terceira geração, três ganhadores dos
dois melhores Derbies do continente europeu (Darshaan, Nashwan e Shahrastani) e duas ganhadoras do Prix de Diane
(Highclere e Shemaka).
Se ela vai ou não à distância, só o tempo e o treinamento dirão. De
qualquer forma, diante de suas demonstrações em corrida até aqui, o que se pode esperar de uma potranca com um
papel tão expressivo é que ela esteja freqüentando os grandes testes clássicos da geração, seja ainda este ano em
São Paulo, seja em 2009 no Rio de Janeiro.