Impressões de um ex–carioca
sobre a terra quase mãe
Infelizmente, a invicta na grama e ganhadora da primeira prova da tríplice coroa Rubia del Rio lesionou–se. Seu abandono definitivo das pistas preme pelo zelar do estado de nossos palcos. Ela não foi a primeira e muito menos parece que será a última.
O fato de ter sido um elemento diferenciado apenas acentua mais esta deficiência que parece perseguir o Hipódromo da Gávea, nestes últimos quatro anos, não poupando a ninguém, diferenciados e matungos. Evidente que o diferenciado, por andar em outro giro, acaba sendo o mais afetado. Talvez seja oportuno clamar em brados desesperados e coléricos que o controle do cloro da piscina e a boa manutenção das quadras de tênis é tão importante quanto a manutenção das pistas de corrida e a tentativa de se trazer público ao hipódromo, pelo menos nos grandes dias.
Vindo da vila hípica para o hipódromo com o professor Sérgio Rezende, notei que o estacionamento da sede da Lagoa estava totalmente tomado e avançava algumas centenas de metros pelo estacionamento do hipódromo. Corria–se o segundo páreo, e qual não foi o meu torpor em notar que na área social, bem junto à entrada que dá ao paddock tinham vagas, inclusive na sombra.
Apenas a título de inquietude, em Cidade Jardim, no sábado, com uma temperatura agradável de 25 graus, vi bastante gente de bermuda dentro de um público numeroso, diga–se que bem acima de minhas expectativas.
No domingo na Gávea, sob um calor causticante de mais de 30 graus, a proibição das mesmas, talvez tenha contribuído para a fraca presença de expectadores. Público aquém da importância de uma prova como o Diana. Mas estaria São Paulo virando Rio e Rio virando São Paulo? Não sei como responder... Aliás, temo em pensar ter que freqüentar a praia de Santos.
O que sei é que, infelizmente, o turfe brasileiro sempre viveu emoldurado em uma áurea dramaticamente improvisada, onde os buracos são – quando tapados – à medida que surgem. Mas sempre à sombra de uma catástrofe. Nunca a medida preventiva é imposta. Apenas as “reparadouras”. Resumindo, tem–se que matar um dragão a cada esquina. E haja São Jorge para fazê–lo, principalmente na Gávea e no Cristal, hoje uma ilha cercada de favelas por todos os lados. Aliás, virou istmo ou cabo como assim o preferirem, pois alguns muros ruíram.
Eleições em Cidade Jardim foram levadas a efeito. Um pleito disputadíssimo com uma vantagem discreta de apenas 51 votos para a situação. Logo, querendo ou não, temos uma agremiação dividida, mesmo levando–se em conta que a atual direção pegou um clube fechando suas portas e hoje o mantém em estado de ascensão e anunciando aumento daquilo que a outra sequer pagava: prêmios. Possivelmente teremos também na Gávea um pleito muito disputado, já que o fator associativo/clube parece deter 90% dos votos. Espero que a justiça turfística prevaleça.
Outrossim, independentemente do resultado averiguado no minuto seguinte dos números finais da apuração serem reconhecidos, deveremos esquecer que houve vencedores e perdedores e tão somente participantes. Pois, só da união de todos, será possível o desenvolvimento que tanto Gávea quanto Cidade Jardim necessitam. Sem este espírito, e sem pistas de carreiras seguras, onde carros sejam proibidos de acessá–las, não chegaremos a lugar algum.
Nunca demonstrei aptidões políticas, principalmente a de apoiar cegamente este ou aquele candidato. Mas tenho minha opinião e minha predileção. Cobro apenas dos participantes é que concessões eleitoreiras sem valor turfístico sejam erigidas para única e exclusivamente se angariar a simpatia de associados. Assim como cobro pelas promessas turfísticas lúcidas, não cumpridas após a batida do martelo.
A pedra única é uma delas. Precisamos dela tanto quanto do ar que respiramos. Optaria por carreiras entre Rio e São Paulo disputadas em dias distintos e alternados. Uma semana alguém faz sexta e domingo e na outra sábado e segunda. Aumentaríamos o número de páreos em cada jornada e minimizaríamos os custos de manutenção por quase o valor da metade. É assim que funciona nos Estados Unidos e agora até na Argentina.
Lembro que, como arquiteto que fui, o que deu certo deve ser copiado e melhorado. Deixem os japoneses inventarem as próximas fórmulas.
Temos também que ter um calendário único, com uma só quádrupla coroa. Duas provas no Rio e duas em São Paulo. Temos que criar um circuito de quatro provas entre os mais velhos, reunindo o GP Brasil, o GP São Paulo, e mais quatro provas escolhidas entre as distancias de 2.000 e 2.400 metros na Gávea e Cidade Jardim. Seria uma coroa clássica de grama, patrocinada por um grande nome. O mesmo deve ser feito com a pista de areia, nesta englobando–se o GP Paraná e o GP Bento Gonçalves e mais duas provas no Gávea e duas em Cidade Jardim. Seria a coroa clássica de areia, igualmente patrocinada. Todas com uma formulação de pontos, bônus e a aclamação do vencedor do pleito. O mesmo pode ser desenvolvido para a milha e para os sprinters. Isto uniria os hipódromos e faria com que o elemento de São Paulo vá ao Rio, ao Paraná e ao Rio Grande do Sul. Afinal, até que provem ao contrário, o turfe é show e o show vive do artista. E este tem que ser itinerante. Pois, ele é que traz o público.
Este para mim é o retrato do turfe brasileiro. Muito beijinho, muita mão dada, mas não estamos chegando a lugar nenhum, quanto mais aos “finalmentes”. Mas nos falta o essencial, o público. Imaginem Lawrence Olivier declamando Sheakespere num bar para um platéia de quatro vagabundos? Ele não mais será Lawrence Olivier. Tornar–se–á um canastrão inveterado, sem direito a pensão alimentícia.
Hoje parece–me mais prazeroso o turfe de Cidade Jardim do que o da Gávea. Estive sexta–feira no Tarumã e havia mais gente do que na Gávea. Dá para entender? O que está acontecendo conosco, os cariocas? Houve época que a Gávea, na década de 40, tinha mais público que o estádio de São Januário. Teríamos que reverter a situação.
Existem outras medidas básicas a serem seguidas. Vejo como as coisas se desenvolvem dia a dia no turfe americano, que conta cada ano com mais adeptos. São muitas e fáceis de serem levadas adiante. Precisa–se de imaginação e vontade de levá–las adiante. Mas, acima de tudo, elas têm que ser próximas e integradas, senão vira aquela história do namoro do macaco com a girafa. Sobe até lá em cima para beijar a menina. Desce lá em baixo para dar a mãozinha para passear com a boneca. E o âmago da questão – os “finalmentes” – nunca é atingido, pois, está em um terceiro ponto e este ainda muito mais distante. E além da girafa morrer virgem, nosso doce macaco colapsa seu coração, perante tanto esforço...
por Renato Gameiro