O centro de treinamento do Stud
Capitão, em Petrópolis, é bem mais do que um local onde se prepara cavalos para correr.
É a
materialização de um sonho.
Um desafio e tanto para Luiz Edmundo Barbosa e Christina Garlipp,
apaixonados pelo cavalo PSI, que dedicam boa parte do seu tempo para cuidar de tudo o que diz respeito ao CT
Brejal.
Relativamente novo no turfe, o Stud Capitão teve grandes craques defendendo a sua farda no
Brasil e nos Estados Unidos. Advogado, 57 anos, nascido em Campos, Luiz Edmundo participa do mundo das corridas
desde muito cedo.
Ainda novo, ganhou dois cavalos de presente do pai. A busca pelo aprimoramento e o
melhor resultado são objetivos definitivos. No RAIA LEVE, vamos conhecer um pouco deste obstinado casal, que vem
se destacando no turfe brasileiro.
Luiz Edmundo, quando começou sua relação com o turfe e qual a
primeira experiência como proprietário?
Meu contato com o turfe se deu através de meu tio,
Silvio Fernandes, que adorava os cavalos. Como não tinha filhos, me buscava em casa, às cinco e meia da manhã,
para irmos ao Jockey acompanhar os treinos. Minha experiência como proprietário aconteceu muito cedo, quando meu
pai me presenteou com dois cavalos, Chico Preto e Azul Celeste, doados ao Jockey Club de Campos pelo JCB e
revendidos por lá.
Então seu tio participava ativamente do turfe?
Ele era fã
do Bequinho e do Becão, que vez por outra iam até Campos para montar os nossos cavalos. Na época, acompanhei o
turfe com muita atenção e assisti ao sucesso de grandes craques como Lohengrin, Narvik, Escorial e tantos outros.
Foi uma fase boa, que durou muito tempo.
E como começou a relação direta com o turfe
carioca?
Em 1998, para fugir do engarrafamento no trânsito, sugeri a Christina que
passássemos a assistir as corridas na Gávea. Ficávamos no restaurante, fazíamos amigos e, depois, voltávamos com
tranqüilidade para casa. Havia um cavalo que quase sempre corria às sextas–feiras e Christina o adorava.
Chamava–se Apolo Banks e participava de páreos de claiming. Então, querendo fazer uma surpresa para ela, fui–me
inteirar na Comissão de Corridas de como fazer para comprá–lo.
E conseguiu o que estava
pretendendo?
Na verdade, não. Um dos amigos que fizemos em nossas idas à Gávea, o saudoso
Doutor Wazen, aconselhou–me a esperar a corrida do cavalo e, depois, fazer uma oferta diretamente ao dono. E foi o
que fiz, aguardei o páreo terminar. Mas, infelizmente, naquela atuação o Apolo Banks mancou forte e desisti
dele.
Então, quando surgiu o Stud Capitão e os primeiros cavalos?
No caso do
Apolo Banks, a "mosca do turfe" já havia me picado e não teve jeito. Por indicação de um compadre, acabei
comprando os cavalos Rileto e Relâmpago Sul. Registrei o Stud Capitão, nome em homenagem ao meu pai, e escolhemos
a nossa farda. Também por indicação, entreguei–os ao Atílio Rocha, que na época treinava para o Sérgio Peixoto de
Castro Palhares. Os animais, inclusive, ficaram alojados na cocheira dele, na Vila Tattersall.
E
a experiência foi boa?
Foi nada, nenhum dos dois ganhou corrida, mas não me dei por vencido. Aí
virou uma coisa pessoal, pois não aceitei a idéia de ter cavalos que não ganhassem. Aceitar derrotas nunca foi uma
de minhas melhores qualidades.
Decidiu então comprar mais cavalos?
A idéia
era essa e nos foi oferecido um lote de seis corredores do Stud New Campbell, que estava deixando o turfe. Achei
que era muito dinheiro e não estava disposto a investir tanto. Mas Christina insistiu e acabou me convencendo a
fazer o negócio. Ainda bem que ela alcançou o seu objetivo.
E quais foram esses
animais?
By Big, Favori, Recollet, Rubinka, Risson e Rostova, que venceram, ao todo, dez
Grandes Prêmios. Favori ganhou cinco e foi o primeiro produto brasileiro a ser convidado para correr a prova de
velocidade no consagrado Festival de Dubai. Chegou na oitava colocação, muito prejudicado.
Bom,
depois deste resultado a coisa embalou de vez?
É verdade. Depois que a gente sente o gosto de
passar na frente em provas importantes, não há como voltar atrás. Pouco depois, compramos a cocheira 24 da Vila
Hípica, contratamos o Jorge Poletti e partimos para os leilões de potros.
Atílio continuava
sendo o treinador e os primeiros potros começaram a mostrar serviço. Qual o primeiro centro de treinamento que
alojou os corredores do Stud Capitão?
O nosso time realmente estava espetacular. Tive a
felicidade de comprar em leilão Canzone, Forever Buck, Capitão Bank, Pico Central e outros ótimos ganhadores.
Precisávamos prepará–los em centros de treinamento, como faziam os grandes proprietários. Fomos, inicialmente,
para o Bela Vista, onde ficamos algum tempo.
Depois veio a fase no Vale do
Itajara?
Exatamente. Fizemos um contrato com o Lineuzinho e ficamos com um número determinado
de boxes. Chegamos com Atílio e algum tempo depois veio o Bebeto. Ao final do contrato, renovamos por mais um ano
e, assim, permanecemos ao todo por dois anos. Quando tentamos renovar outra vez, veio a grande surpresa, pois
Lineuzinho não concordou e pediu que deixássemos os boxes.
Foi então que começou a verdadeira
maratona mineira?
Pois é, levamos nossos cavalos para o Hipódromo do Serra Verde, em Belo
Horizonte. Era um sacrifício enorme para eles. O Pico Central, por exemplo, vinha correr na Gávea depois de viajar
quase 400 quilômetros. Passado algum tempo, retornamos ao CT Bela Vista.
Quando ocorreu a
decisão de ter o próprio centro de treinamento?
Exatamente depois do episódio do Vale do
Itajara. Ficamos, Christina e eu, muito aborrecidos e decidimos que não iríamos mais depender de ninguém.
Começamos a procurar um lugar. Olhamos terras em Teresópolis, Itaipava, Pedro do Rio, Friburgo, mas não
conseguimos encontrar nada que realmente nos agradasse.
E como chegaram ao
Brejal?
Sabendo de nosso interesse, vários corretores imobiliários nos procuravam com ofertas.
Um deles falou sobre essas terras, do Brejal, perto do distrito da Posse, em Petrópolis. Era uma plantação de
cenoura, jiló, chuchu e outras coisas mais. Resolvemos olhar o lugar e, não teve jeito, foi amor à primeira vista.
Fechamos o negócio imediatamente.
Qual é a área do CT e quanto tempo levou a
construção?
O Brejal tem 48,5 hectares. Em 1 ano e dois meses estavam prontos a pista e
o
pavilhão dos boxes. O partidor também foi uma de nossas primeiras preocupações.
Potro faz teste no
partidor
No Brejal, a pista é bem diferente das dos demais centros de
treinamento, pois apresenta descida na reta oposta e subida na reta de chegada. De quem foi esta
idéia?
Do engenheiro, responsável, também, pela pista do CT do Araras, na Argentina. Gostei da
proposta, pois obriga os corredores a despender mais esforço no final dos treinos. Os cavalos têm se adaptado
muito bem neste tipo de raia. A volta fechada tem 1.020 metros.
A moderna pista do
Brejal
No pavilhão das cocheiras, existem algumas novidades. Os boxes, por
exemplo, não têm portas. Por quê?
Assim decidimos com base na experiência que tivemos em vários
hipódromos do
mundo. Principalmente, em Hollywood Park. Quando estivemos lá, Christina teve
o cuidado
de medir minuciosamente os boxes e examinar o tipo de material utilizado
para que pudéssemos fazer igual.
Temos 60 boxes em nosso pavilhão.
Nas cocheiras, boxes sem
porta
As obras continuam?
De início, nos preocupamos com o
básico, mas continuamos a aprimorar e sempre
existem coisas para fazer. A raia é muito boa, mas precisa de
cuidados rotineiros.
A drenagem merece atenção especial. No teste das últimas chuvas fortes, revelou
toda a eficiência. No final do ano passado, por exemplo, terminamos de construir
o picadeiro para a doma dos
potros.
O
picadeiro, pronto há poucos meses
Bom, voltando no tempo. Bebeto ficou com
vocês até a última passagem pelo Bela Vista, mas antes de os animais serem levados para o Brejal, houve um retorno
à Gávea, certo?
Isso mesmo. Infelizmente, não houve entendimento com o Bebeto e retornamos à
Gávea. Por um período curto os animais ficaram na cocheira 24, com o Álvaro Castillo. Depois, vieram o Dendico
Garcia Júnior, nosso primeiro treinador no Brejal, e o Darci Minetto, que também permaneceu pouco tempo. Agora,
estamos com o Renan Marques. Contamos com a assistência veterinária de Cristina Vieira, que já havia trabalhado
conosco.
Luiz, qual a importância da Christina em tudo isso?
Total e
absoluta. Há cumplicidade em todas as decisões. Ela me ajudou em tudo e na construção do Brejal foi de uma
dedicação impressionante. Sem ela, nada disso existiria. Foi um sonho a dois, que graças a Deus conseguimos
transformar em realidade.
Muitos proprietários no turfe levam décadas em busca de um craque.
Como você poderia explicar que, com apenas oito anos na atividade, o Stud Capitão já tenha conseguido tantos
corredores de exceção?
Acho que o segredo é o amor pelos cavalos. Nossa dedicação a eles é
total. Ter algum conhecimento na hora de escolher os potros em leilão é importante, mas não é tudo. A felicidade
de ter vivido experiências maravilhosas como vencer o GP São Paulo, com a Canzone; o Suckow e o Estado do Rio de
Janeiro, com o Pico Central; as primeiras conquistas em Grupo I e tantas outras, nos abastecem de energia para
continuar.
Como você analisaria a experiência internacional com Canzone e Pico
Central?
Canzone era uma égua excepcional. Uma craque, mas teve problemas na doma. Era mansa ao
extremo, porém, não ficava mais do que 30 segundos no boxe. Ganhou o GP São Paulo de forma espetacular, sem dar
chance aos adversários. Foi retirada no GP Brasil e nem gosto de lembrar. Nos Estados Unidos, ganhou duas Listed e
obteve colocações em provas de Grupo. Lá fora, seria tratada como estrela e a partida dada por ela. Aqui, era como
se fosse apenas mais uma. Infelizmente, morreu sem poder mostrar toda a sua categoria nas pistas americanas. Já o
Pico Central, enquanto de minha propriedade, permaneceu invicto. Um corredor incrível, que ganhou o Suckow com 3
anos e a primeira prova da Tríplice Coroa. Nos Estados Unidos, foi o único a vencer, no mesmo ano, o Vosbourgh, em
1.200 metros; o San Carlos Handicap, em 1.400 metros; e a Met Mile, na milha. Gostaria de ressaltar o excelente
trabalho do Paulinho Lobo, que teve a humildade de aceitar algumas indicações minhas e do Bebeto sobre a forma de
levar o cavalo.
Ninguém, por aqui, engoliu o fato do Pico Central não ter corrido a Breeders'
Cup e, por isso, não ter levado o Eclipse Award como melhor velocista. Você saberia explicar o motivo pelo qual o
proprietário japonês não pagou os US$ 200 mil para inscrevê–lo?
O problema não foram os US$ 200
mil, que para o Gary Tanaka não fariam diferença. Na opinião dele, o cavalo deveria ter sido convidado a
participar da Breeders' Cup, por tudo que já tinha feito nas pistas americanas.
Bom, para
encerrar, gostaria que você dissesse, no meio de tantos craques, qual o melhor?
Aí vai começar
a briga com a Christina. Eu sempre afirmo que, se não tivesse quebrado os joelhos, Forever Buck teria sido tão bom
quanto o Pico Central. E vou mais além, dizendo que o melhor cavalo do stud foi o Capitão Bank, que venceu um
Grupo III na estréia, depois ganhou um Grupo II e quebrou.
E você, Christina, o que tem a dizer
sobre isso?
Ele está falando com o coração e deixando a razão de lado. Ninguém pode questionar
que o melhor cavalo que defendeu a nossa farda foi o Pico Central. E estamos
conversados.
fotos: Felipe
Forzley
por Marco Aurélio
Ribeiro