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Outubro | 2007

"Trials" célebres, por Milton Lodi
02/10/2007 - 15h21min

"Trial" é uma carreira que tem por objetivo preparar e testar animais que visam competir em provas importantes. Como corridas preparatórias, são fundamentais. Podem ser públicas (o que é comum, por exemplo, em São Paulo, que apresenta na chamada de duas a três semanas antes dos clássicos, páreos em distâncias  adequadas que servem de "trampolim" aos interessados) ou particulares.

O incomparável Federico Tesio, em seu livro "Tocchi in penna a galoppo", conta três célebres trials. Com a palavra, a seguir, o grande criador:

"1° Trial"

Em setembro de 1912, o treinador Atty Persse, nos leilões de Doncaster, comprou por 1.300 guineus o potro THE TETRARCH, criado pelo Sr. Kennedy na Irlanda, e o cedeu quase imediatamente a seu primo, o prefeito Dermot Mac Calmont, o qual recebeu da Deusa Fortuna um dos maiores presentes conhecidos na história do turfe.

Aos 2 anos, THE TETRARCH era desenvolvido como um 4 anos. Parecia ser pesado, mas caminhava leve e soberbo como uma gazela. O seu sobretudo de cor escuro chocolate, parecia pintado com grandes manchas de leite. Lembrava um desses cavalos que se dá a montar às crianças.

Geralmente os cavalos tão desenvolvidos necessitam de muito trabalho para chegarem às condições de correr, mas é comum ser fatal às suas pernas enfrentar o treinamento. Por isso não foi experimentado em dezembro, conforme os outros potros da coudelaria.

Somente no início de março do ano seguinte o treinador fez com que THE TETRARCH desse sua primeira volta a galope no meio de alguns 2 anos discretos prontos para correr, recomendando ao jóquei que ficasse na cauda do grupo e quieto.

Logo que foi dada a partida, THE TETRARCH escapuliu na frente disparou sem que seu jóquei pudesse dominá–lo, enquanto os outros não conseguiam segui–lo.

O fato foi tão extraordinário que havia necessidade de uma confirmação em um verdadeiro trial, o qual foi realizado, segundo as regras da arte, no final de março. Nessa época, sobre 1.000 metros, o peso por idade entre um 7 anos e um 2 anos é de cerca de 30 quilos.

Atty Persse testou THE TETRARCH peso a peso com um bom 7 anos e com outros dois 2 anos, que levaram 10 quilos a menos.

Resultado do trial: em 1°, facilmente, THE TETRARCH, 2 anos, 55 quilos; em 2°, General Symons, 7 anos, 55 quilos; depois, longe, os dois 2 anos, com 45 quilos.

Nunca se tinha visto coisa parecida.

O trial foi mantido em segredo. O fenômeno volante correu pela primeira vez em Newmarket, em 17 de abril, montado por Stephen Donoghue; pagava 5 por 1 e venceu em cânter.

Nunca mais foi batido. Teve um tendão prejudicado. Nunca mais correu.

"2° Trial" (memorável)

ST. SIMON contra Harvester. ST. SIMON era o sétimo filho de sua mãe, a qual com vários reprodutores não havia dado senão animais modestos. Com Galopin tinha produzido duas fêmeas que não conseguiram ganhar. Finalmente com o mesmo Galopin em 1881, com a idade de 16 anos deu um macho castanho ao qual foi dado o nome de ST. SIMON.

Com a morte de seu criador, Príncipe Batthyány, o potro foi vendido em leilão ao Duque de Portland por 1.800 guinéus e entregue ao treinador Mathew Dawson.

Nunca foi batido, nem aos 2 nem aos 3 anos, e sempre venceu sem ser exigido. Não correu o Derby porque não estava inscrito. Mas o mesmo Derby foi vencido por Harvester, seu companheiro de coudelaria, o qual empatou com St. Gatien e com ele dividiu o prêmio e a honra.

Mathew Dawson, para conhecer o valor de ST. SIMON, fez então o famoso trial. Em 2.400 metros: ST. SIMON, 3 anos, 59 quilos; Harvester (vencedor do Derby), 3 anos, 52 quilos. Resultado: ST. SIMON venceu facilmente.

Depois desse miraculoso sucesso, ST. SIMON ganhou a Copa de Ouro batendo por vinte corpos ao 4 anos Tristan, que havia vencido esse páreo no ano anterior e era um especialista na distância.

Aí os seus tendões começaram a dar sinal de fadiga; foi retirado de treinamento e mandado à reprodução, onde seu sucesso até hoje não foi igualado. ST. SIMON foi o cavalo mais bonito que eu vi na criação, e o melhor que havia sido encilhado para correr.

Esse trial foi a experiência mais indiscreta que já foi feita com um puro–sangue e da qual veio resposta com maior desenvoltura.

"3° Trial" (muito interessante)

Esse não me foi contado, mas feito por mim mesmo.

NEARCO, pertencente à coudelaria Tesio–Incisa, é o melhor cavalo criado por mim. Nascido em 1935, por Pharos e Nogara, mostrou–se quando potro mais veloz que seus contemporâneos. Estreou numa corrida noturna.

Venceu facilmente a corrida clássica dos 2 anos. Aos 3 anos venceu o Derby Italiano sem ter sido testado. Não obstante esses sucessos, havia sempre grandes dúvidas sobre sua atitude na distância.

O cavalo estava inscrito no Grande Prêmio de Milão e no Grand Prix de Paris, em 3.000 metros, a ser corrido sete dias depois. Para conhecer exatamente as suas possibilidades de fundo, fiz o seguinte trial: na pista de corrida de San Siro, em 3.000 metros, galope severíssimo; NEARCO, 3 anos 54 quilos, acompanhado por Ursone, 3 anos, 49 quilos; depois de percorrer 1.400 metros encontram–se com Bistolfi, 3 anos, 54 quilos. Resultado: 1°, fácil, NEARCO; 2° Bistolfi; 3°, longe, Ursone.

Ursone havia corrido 9 páreos na distância, vencendo 7 e chegando 2° duas vezes. Bistolfi era na Itália o melhor cavalo da temporada em 1.500 metros.

NEARCO venceu facilmente o Grande Prêmio de Milão e dois dias depois foi para Paris acompanhado por Bistolfi.

No mesmo dia e antes do Grand Prix havia uma corrida de 1.850 metros, o Prix d’Ispahan, no qual eu havia inscrito Bistolfi contra os melhores especialistas franceses na distância.

Bistolfi, cotado a 8 por 1, venceu facilmente. Ocorreu–me somente agora o enorme valor do meu trial na pista de San Siro. E assim no Grand Prix de Paris, quando, no princípio da reta de chegada, vi o jóquei Gubellini na quarta colocação mexendo com as mãos e NEARCO correspondendo como um raio, abaixei meu binóculo certo de haver vencido.

Nenhum no mundo – a não ser NEARCO – poderia bater Bistolfi entrado naquele momento descansado na corrida.

E assim foi.

O vencedor do Derby Italiano havia vencido os vencedores do Derby Francês e do Derby Inglês daquele mesmo ano.

por Milton Lodi



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