Foi corrido na Gávea o Clássico Eurico Solanés, homenagem anual que o Jockey Club Brasileiro
presta a um apaixonado turfista. Ele era o titular do Stud Verde e Preto, um proprietário de grande sucesso,
ganhou muitos Grandes Prêmios, inclusive o GP Brasil. Entre os muitos excelentes animais, um dos destaques foi
COURAGEUSE, de criação do Haras São Bernardo, do casal Leithner. Compareceram à entrega de troféus o filho único
Gilberto, os cinco netos e os sete bisnetos. Foi quando um antigo turfista me disse das saudades que tinha da
época em que competiam as blusas do Haras Mondesir (Antonio Joaquim Peixoto de Castro Júnior e D. Zélia), Haras
Santa Annita (Carlos Telles da Rocha Faria e o filho Carlos Gilberto), Haras Guanabara (Roberto e Nelson Grimaldi
Seabra), Gervásio Seabra (como proprietário individual), Haras São José e Expedictus (família Paula Machado),
Haras Maranguape (Frederico Lundgren), Euvaldo Lodi (como proprietário individual e depois Haras Ipiranga), Haras
Vargem Alegre (Oswaldo Aranha), João Soares Guimarães, Roger Guedon, Jorge Jabour, Sara de Magalhães Boetcher,
Francisco Manoel Serrador, Roberto Gabizo de Faria e Francisco de Paula Pinto, Jayme Muniz de Aragão, Renato
Bonaparte de Freitas, Hélio Perdigão de Freitas, Stud Vice–Rey (Leonio Ramos), Stud Marinha (Victor Guilhem e
Jadyr Gomes de Souza), Waldir Alves, Stud Alpina (Otávio Guerreiro), Inah de Moraes, Haras Vale da Boa Esperança
(Julio Capua), Haras Vargem Grande (Osmar Fernandes Lage), e mais uns tantos também importantes que semanalmente
freqüentavam os programas da Gávea. Era comum e rotineira a importação de corredores, principalmente da Argentina,
em todas as semanas havia novidades, era na verdade uma festa.
Eu me lembro em especial da época do
MANGUARÍ, por duas vezes recordista dos 2.000 metros na grama, vencedor das duas primeiras provas da tríplice
coroa carioca, um gigante nas lutas na reta de chegadas. Além do MANGUARÍ, o meu pai tinha a extraordinária
JOCOSA, líder de sua turma, ganhadora do Grande Prêmio São Paulo. MANGUARÍ e JOCOSA, juntos, ganharam trinta
Grandes Prêmios. E para isso tiveram que enfrentar, por exemplo, e só do Haras Guanabara, TIROLESA, RADAR e
LORETTA. O público se dividia, havia torcedores dos melhores corredores. E Rigoni, Marchant, Ulloa, Irigoyen,
Castillo, e outros azes, levantavam o público, que enchia as arquibancadas.
Época de ouro do turfe
carioca.
Os anos se passaram, o prestígio do turfe entrou em declínio e as coisas mudaram.
Sob o ponto de vista da técnica na criação, a evolução foi enorme. Antigamente, os testes de prenhez
eram feitos com 45 dias da última cobertura, com exame de sapo (Cuboni). Hoje, a ultra–sonografia dá o resultado
em menos de um terço do tempo. A atual sistemática correção do solo e a adubação anual dos pastos como agora é
habitual em Bagé e em terras naturalmente adequadas à criação do cavalo de corridas, a técnica moderna de
arraçoamento, da cuida e do amansamento racional dos potros, enfim, a evolução foi enorme. As próprias
estatísticas mostram que antigamente o número de nascimentos era menor que 50%, quando hoje está em 75%.
As épocas são muito distintas e diferentes, hoje são permitidos em muitos casos os usos de remédios –
LASIX, por exemplo, a modificação gradativa para melhor das pistas de trabalhos e de corridas, a forma da marcação
dos tempos dos páreos.
Abrindo–se um parêntese sobre a questão da marcação dos tempos, deve ser
lembrado que antes, na marcação manual, os tempos não eram corretos, precisos, dependiam do "humor" do
cronometrista, e normalmente o tempo oficial diferia dos marcados pelos cronômetros dos turfistas que assistiam os
páreos das arquibancadas. Com a eletrônica, com o "replay", com detalhes modernos precisando o real
tempo, houve muitas alterações no quadro dos records.
É na verdade impossível aquilatar–se
comparativamente o padrão da cavalhada de outrora com a atual. Épocas completamente diferentes, condições gerais
diferentes, tudo diferente.
O que somente poder–se–ia alvitrar, sob o ponto de vista comparativo, é que
hoje há um número maior de cavalos bons que antigamente.
Com o advento da modernidade, com a televisão,
com as agências, com as apostas pelo telefone, as arquibancadas se esvaziaram. Nada contra, isso é apenas uma
constatação. Antigamente ir ao prado era necessário, era fundamental, era o programa do fim de semana, era uma
festa onde se participava de competições gloriosas, cavalos com fã–clube, torcidas apaixonadas.
Tomara
que aquele clima de entusiasmo volte algum dia.
por Milton
Lodi