Por volta de 1950 eu já freqüentava com assiduidade o Haras Bela Esperança, do criador José Paulino Nogueira.
A propriedade fica a dez minutos de Campinas, SP, e era lá que ele morava, sozinho. Havia uns poucos amigos que lá
iam gozar de sua hospitalidade, e aprender, ouvir aquele estudioso que conhecia como ninguém a arte de criar
cavalos. José Paulino era um homem bem educado, mas de temperamento complicado. Normalmente sozinho, ocupava o seu
tempo estudando cruzas, lendo as melhores revistas internacionais da época, estava sempre a par do que ocorria na
criação e nas corridas da Inglaterra e da França (àquela época o turfe norte–americano era de baixa qualidade),
sabia quais as linhas femininas que estavam funcionando. Era um enorme prazer ouvi–lo. Só para que se tenha uma
pequena idéia do seu saber, ele um dia me contou que havia comprado um filho de PHARIS e ASTRONOMIE para a
reprodução. Ele disse que só conseguira comprar o PHARAS porque os seus irmãos maternos não tinham correspondido
às enormes expectativas, daí um preço acessível, mas ele tinha certeza do futuro sucesso do PHARAS, porque ele era
da linha alta PHAROS– PHARALIS, o que tinha que dar certo, ao contrário dos irmãos anteriores, produtos da linha
alta DJEBEL–TOURBILLON, que era inadequada à ASTRONOMIE. Um dia ele soube que meu pai havia comprado um francês de
nome DJEMLAH, filho de DJEBEL e APSARAS por SARDANAPALE. Ficou uma fera, apesar do preço convidativo o cavalo não
deveria ter sido comprado, não ia acrescentar nada, o meu pai que não o usasse e fizesse algum negócio. O meu pai
mandou–o para um haras paranaense, de um criador que ficara entusiasmado com o tal DJEMLAH, que produziu
ganhadores sem maiores destaques. José Paulino Nogueira, no mundo dos cavalos de corrida, era um gênio.
Uma das coisas que mais o incomodava era o massacre, como chamava, a que eram submetidos os potros
quando, saindo das mãos dos criadores para as dos proprietários, iam para as mãos dos treinadores. Não se pode
evidentemente generalizar, mas treinadores recebem os potros, iniciam o amansamento nem sempre racional, e logo
que possível levam os potros para a raia. Depois de um ou dois meses de galopes, começam os trabalhos visando a
estréia. Não importa a muitos se o eventual bom tempo mostrado pelo cronômetro é resultado da característica de
natural velocidade ou é na verdade uma demonstração de qualidade, se o tempo é bom, seguir aumentando as
distâncias das partidas e dos trabalhos, cada vez "apertando" mais, insistindo, até estrear. Pelo
caminho vêm as dores de canela, as distensões, e muitas vezes a decepção na primeira corrida. Os treinadores, isso
sem generalizar, nada ou pouco entendem de pedigrees, não sabem avaliar as prováveis tendências da campanha nas
pistas, não têm idéia da boa distância, da adequada, para correr aquele potro. Os treinadores querem faturar logo,
os proprietários também querem amortizar os seus investimentos com a maior brevidade possível, e assim muitos
potros, de futuro promissor em corridas mais tardias e em distâncias não curtas, se lesionam, se gastam, se
quebram, prejudicam–se em definitivo pelo resto de suas campanhas. Em poucas palavras e de um modo geral, é o
massacre apontado por José Paulino. Treinadores conscientes, que procuram sem pressa esperar pela evolução de seus
potros, que procuram saber com quem sabe das características dos pais e dos avôs, que procuram "ajudar"
os potros a evoluir em seqüência suportável sem exigências que podem comprometer o futuro, esses treinadores não
são a maioria.
O turfe brasileiro sofre a influência do norte–americano, como, aliás, os do mundo
inteiro, e o tipo de turfe por eles praticado influencia inclusive os nossos calendários clássicos. Hoje em dia no
Jockey Club Brasileiro, são oferecidas, para os "2 anos", provas especiais, listadas, de grupo 1,2 e 3,
num total de 21. Prêmios melhores incentivando a estréia mais cedo. E a "precocidade" é perseguida
"a pau". É o massacre, há mais de cinquenta anos dito por José Paulino. Na própria criação há reflexos.
Há criadores que fecham os seus potros muito antes do que seria normal, e procuram os seus pesos físicos. Hoje é
comum nos leilões apresentarem–se potros com menos de 2 anos pesando mais de 500 quilos, e em conseqüência da
clausura antecipada e do peso excessivo, apresentam desvios de aprumos que só podem eventualmente ser melhorados
ou corrigidos com atitude oposta, isto é, deixar soltos em espaçosos piquetes e apenas com um mínimo necessário de
ração nos cochos.
Eu fico contrariado quando lembro dos bons elementos que se destacam nas pistas aos 2
anos e aos 3 anos, e que vão para serem "triturados" pela prática absurda corrente no turfe
norte–americano. Basicamente, não há respeito à individualidade dos animais. Eu sempre me lembro do potro STORM,
que venceu brilhantemente aos 3 anos na Gávea uma prova de grupo em 2.000 metros na grama, e que, vendido para os
Estados Unidos, acabou aparecendo no Texas correndo, natural e insistentemente, em páreos de 6 furlongs (1.200
metros) na areia.
Massacre, já dizia José Paulino Nogueira há mais de cinquenta anos.
Há
muitos e muitos anos, foi por mim lida uma publicação com o título "Súplica do Cavalo". Vou
transcrevê–la:
"A ti meu dono, dirijo esta súplica. Dá–me de comer e mate–me a sede e,
terminado o trabalho, guarda–me num lugar asseado, seco, ao abrigo das intempéries. Fala–me, porque a tua voz é
mais eficaz que as rédeas Acaricia–me freqüentemente para me ensinar a trabalhar de bom grado. Poupa–me ao chicote
e nas descidas não me puxe as rédeas. Quando parecer que não te compreendo, não me batas sem mais nem menos.
Examina antes os meus arreios, vê se tudo está em ordem e as ferraduras que me podem estar magoando as patas. Se
eu rejeitar comida, examina a minha boca, os meus dentes, talvez dor ou ferida não me deixem mastigar. Não me
cortes a cauda pois assim me privas do único meio de defesa, contra as moscas atormentadoras. Finalmente, meu
bondoso senhor, quando a velhice me tornar inútil, não me condenes a morrer de fome e de dores, sob o chicote de
algum carroceiro cruel. Mata–me por tuas mãos sem me fazer sofrer. Deus te levará em conta esta obra de caridade.
E perdoa–me ter te dirigido esta súplica. Eu te peço em nome daquele que nasceu numa estrebaria".
O cavalo de corridas não pode ser tratado como um bicho. Ele é um ser vivo, que sente calor e frio, dor
e prazer, fome e sede, e para que ele possa render ao máximo no trabalho ao qual está destinado, necessita de
ajuda, de compreensão, de carinho, de bons tratos. Os cavalos têm que ser respeitados. A primeira coisa que um
treinador faz ao receber um novo pensionista, é diminuir os cabelos da cauda, diminuir o volume, e o pior, pelar a
nuca dos animais, uma atitude de ofensa, de agressão à beleza e aos brios daquele que nas pistas vai defender os
nossos interesses. O desrespeito à dignidade dos cavalos é rotineira, qualquer empregado de cocheira nem pede
autorização ao segundo–gerente ou ao treinador para pelar a nuca dos animais. A explicação é sempre em nome de
higiene, de facilidade, mas na verdade não passa de uma atitude grosseira, torpe, injustificada, contra a
dignidade. A prática é cruel, sem sentido, geral, e os proprietários assistem calados, e se algum pergunta o
porquê, acaba aceitando o inaceitável.
Certa vez, dois rapazes de famílias nobres dos Emirados Árabes,
criados nos melhores colégios da Inglaterra, resolveram dar uma volta pelo mundo dos cavalos, na Europa, na
América do Sul e na América do Norte. Estiveram no Rio de Janeiro, fizeram visitas, e passaram um domingo nas
corridas da Gávea. Na hora das despedidas, José Carlos Fragoso Pires Júnior a eles perguntou o que tinham achado.
Disseram ter gostado, mas não haviam entendido porque todos os cavalos tinham as nucas peladas. A explicação foi
recebida com surpresa, nos centros promotores de corrida do mundo inteiro, nos mais adiantados, aquela prática não
só não existia, como sequer seria cogitável.
Pelar as nucas dos cavalos é sinal de um turfe de quinta
categoria, de falta de respeito, de agressão à dignidade de um animal de raça nobre, a mais nobre de todas as
raças eqüinas, o melhorador.
por Milton Lodi