Em 1938, o meu pai me levou para assistir o
meu primeiro Grande Prêmio Brasil. Chovia muito, muito mesmo, e eu vi de longe a vitória do cavalo PENDULO. Eu
tinha 8 anos de idade.
O meu pai trabalhava muito, saía cedo e voltava tarde para jantar. Mas nas
manhãs de sábado e de domingo, ele saía com seus filhos para passear. Íamos ao Cineac, cinema que funcionava a
partir das 10 horas da manhã, sessões de uma hora, com filmes curtos e variados, de desenhos, de humor ("O
Gordo e o Magro", "Os 3 Patetas", etc.), reportagens de atualidades, ou então íamos passear de
barco à vela, ou ao zoológico, ou ao mercado junto às barcas RIO–NITEROI, onde havia peixes frescos que eram
comprados na lojinha do italiano Salvatore (o meu pai escolhia em um aquário o peixe vivo, e o Salvatore já o
preparava para ir para a panela ou o forno, já limpo, sem espinhas). Lá tudo era bom, bolinhos da baiana, queijos,
garapa, era sempre uma festa.
Em um sábado de manhã, o programa foi diferente. Fomos ao Tattersall do
Hipódromo da Gávea para assistir a um leilão de potros. O Tattersall era no mesmo lugar em que ele está
atualmente, mas bem acanhado, disposição geral diferente (o Tattersall sofreu umas poucas diferenciações, e só
ficou com a apresentação internacional, graças a Bertrand Joachim Kauffmann, que o colocou nos moldes, dentro do
possível, daqueles que estão espalhados nos centros mais adiantados do mundo). O meu pai já era sócio do Jockey
Club Brasileiro havia tempos, mas não era um turfista assíduo. No decorrer do leilão, lá pelas tantas, entrou um
castanho, com uma grande mancha branca que pegava um só lado da cara, o direito, indo da fronte ao focinho e em
direção ao olho direito, formando um grande triângulo. Chamava–se BANCO, era um filho de DENBIGH de criação do
Haras Maranguape. Havia um preço–base declarado de quinze mil, não houve interessado. O potro já ia saindo, quando
surpreendentemente o meu pai perguntou se era possível que o potro voltasse, ele tinha interesse. O BANCO saiu por
um lado, voltou pelo outro, ninguém mais se interessou. O então leiloeiro oficial PALADIO TUPINAMBÁ bateu o
martelo, e o meu pai se fez proprietário. Um pouco depois entrou uma potranca castanha de criação do Haras
Mondesir, de nome FIARA, com o preço–base declarado de treze mil. Repetiu–se o caso do BANCO, não houve
interessado, a potranca já estava saindo, o meu pai pediu para que ela voltasse. Esses dois animais foram os
primeiros da "solferino e azul em listras verticais". O meu pai não conhecia nenhum treinador, e o filho
de um amigo sugeriu Francisco Tourinho, um veterano na profissão, homem de boa índole, honesto. O meu pai pediu
para que alguém avisasse ao tal treinador para pegar os dois potros no dia seguinte.
Chegou aí a hora
do registro como proprietário, e a escolha das cores da blusa. O meu pai aceitava sugestões. Muitas idéias, mas
nenhuma especial. Foi quando a minha irmã mais nova, que rabiscava um bloco de papel com uma caixa de lápis de
cor, riscou duas faixas verticais paralelas, uma com um lápis solferino e outra com o azul. Não só a combinação
ficou bonita, como também as tonalidades das cores.
O meu pai era acionista de uma fábrica de tecidos
que trabalhava com seda artificial, e à fábrica era acoplada uma outra de tinturaria e estamparia. Foi escolhido o
tecido, e as cores foram sendo experimentadas, lado a lado, tonalidade com tonalidade, até que o tom das cores
solferino e da azul foram considerados ótimas. Ainda não satisfeito, o meu pai verificou da intensidade do brilho.
Tudo escolhido, a fábrica forneceu cem metros do tecido, e nele foram estampadas as listras. Material, cores,
brilhos, tudo escolhido com todo o carinho. Assim surgiu uma das mais lindas blusas que eu já conheci.
Há alguns anos, um pintor argentino apresentou uns tantos quadros em exposição em salão nobre do
Hipódromo do Jockey Club de São Paulo. Todos os quadros eram sobre cavalos, e a venda foi quase total. Fui ver, e
o pintor me disse que estava surpreso, pois um dos poucos ainda não vendidos era a de uma potranca alazã, naquela
pintura em preparativos para entrar no partidor, e que tinha uma linda blusa, que ele copiara de uma revista
brasileira, "Turf e Fomento", que lhe chegara às mãos em Buenos Aires. Ele achava um dos seus melhores
quadros, e não entendia por que ninguém quisera comprá–lo. Eu expliquei a ele o mistério. A blusa era a minha
solferino e azul, e no Brasil só eu iria comprar. Na hora fizemos um acerto. Ia correr o último páreo da corrida
noturna, eu tinha uma competidora. Se ela ganhasse, eu pagaria o preço fixado, se tirasse segundo ou terceiro eu
teria dez por cento de abatimento, se quarto ou quinto rebate de vinte por cento, de sexto para baixo seriam
trinta por cento. A minha égua era a segunda favorita, com boa chance. Negócio fechado, aguardamos a corrida. Foi
terceira, paguei com dez por cento. Já fui para casa com o quadro, não sem antes ouvir do artista os maiores
elogios à "solferino e azul".
Com certeza, sem falsa modéstia, é uma linda
blusa.
por Milton Lodi