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Julho | 2007

A escolha das cores, por Milton Lodi
04/07/2007 - 17h02min

Em 1938, o meu pai me levou para assistir o meu primeiro Grande Prêmio Brasil. Chovia muito, muito mesmo, e eu vi de longe a vitória do cavalo PENDULO. Eu tinha 8 anos de idade.

O meu pai trabalhava muito, saía cedo e voltava tarde para jantar. Mas nas manhãs de sábado e de domingo, ele saía com seus filhos para passear. Íamos ao Cineac, cinema que funcionava a partir das 10 horas da manhã, sessões de uma hora, com filmes curtos e variados, de desenhos, de humor ("O Gordo e o Magro", "Os 3 Patetas", etc.), reportagens de atualidades, ou então íamos passear de barco à vela, ou ao zoológico, ou ao mercado junto às barcas RIO–NITEROI, onde havia peixes frescos que eram comprados na lojinha do italiano Salvatore (o meu pai escolhia em um aquário o peixe vivo, e o Salvatore já o preparava para ir para a panela ou o forno, já limpo, sem espinhas). Lá tudo era bom, bolinhos da baiana, queijos, garapa, era sempre uma festa.

Em um sábado de manhã, o programa foi diferente. Fomos ao Tattersall do Hipódromo da Gávea para assistir a um leilão de potros. O Tattersall era no mesmo lugar em que ele está atualmente, mas bem acanhado, disposição geral diferente (o Tattersall sofreu umas poucas diferenciações, e só ficou com a apresentação internacional, graças a Bertrand Joachim Kauffmann, que o colocou nos moldes, dentro do possível, daqueles que estão espalhados nos centros mais adiantados do mundo). O meu pai já era sócio do Jockey Club Brasileiro havia tempos, mas não era um turfista assíduo. No decorrer do leilão, lá pelas tantas, entrou um castanho, com uma grande mancha branca que pegava um só lado da cara, o direito, indo da fronte ao focinho e em direção ao olho direito, formando um grande triângulo. Chamava–se BANCO, era um filho de DENBIGH de criação do Haras Maranguape. Havia um preço–base declarado de quinze mil, não houve interessado. O potro já ia saindo, quando surpreendentemente o meu pai perguntou se era possível que o potro voltasse, ele tinha interesse. O BANCO saiu por um lado, voltou pelo outro, ninguém mais se interessou. O então leiloeiro oficial PALADIO TUPINAMBÁ bateu o martelo, e o meu pai se fez proprietário. Um pouco depois entrou uma potranca castanha de criação do Haras Mondesir, de nome FIARA, com o preço–base declarado de treze mil. Repetiu–se o caso do BANCO, não houve interessado, a potranca já estava saindo, o meu pai pediu para que ela voltasse. Esses dois animais foram os primeiros da "solferino e azul em listras verticais". O meu pai não conhecia nenhum treinador, e o filho de um amigo sugeriu Francisco Tourinho, um veterano na profissão, homem de boa índole, honesto. O meu pai pediu para que alguém avisasse ao tal treinador para pegar os dois potros no dia seguinte.

Chegou aí a hora do registro como proprietário, e a escolha das cores da blusa. O meu pai aceitava sugestões. Muitas idéias, mas nenhuma especial. Foi quando a minha irmã mais nova, que rabiscava um bloco de papel com uma caixa de lápis de cor, riscou duas faixas verticais paralelas, uma com um lápis solferino e outra com o azul. Não só a combinação ficou bonita, como também as tonalidades das cores.

O meu pai era acionista de uma fábrica de tecidos que trabalhava com seda artificial, e à fábrica era acoplada uma outra de tinturaria e estamparia. Foi escolhido o tecido, e as cores foram sendo experimentadas, lado a lado, tonalidade com tonalidade, até que o tom das cores solferino e da azul foram considerados ótimas. Ainda não satisfeito, o meu pai verificou da intensidade do brilho. Tudo escolhido, a fábrica forneceu cem metros do tecido, e nele foram estampadas as listras. Material, cores, brilhos, tudo escolhido com todo o carinho. Assim surgiu uma das mais lindas blusas que eu já conheci.

Há alguns anos, um pintor argentino apresentou uns tantos quadros em exposição em salão nobre do Hipódromo do Jockey Club de São Paulo. Todos os quadros eram sobre cavalos, e a venda foi quase total. Fui ver, e o pintor me disse que estava surpreso, pois um dos poucos ainda não vendidos era a de uma potranca alazã, naquela pintura em preparativos para entrar no partidor, e que tinha uma linda blusa, que ele copiara de uma revista brasileira, "Turf e Fomento", que lhe chegara às mãos em Buenos Aires. Ele achava um dos seus melhores quadros, e não entendia por que ninguém quisera comprá–lo. Eu expliquei a ele o mistério. A blusa era a minha solferino e azul, e no Brasil só eu iria comprar. Na hora fizemos um acerto. Ia correr o último páreo da corrida noturna, eu tinha uma competidora. Se ela ganhasse, eu pagaria o preço fixado, se tirasse segundo ou terceiro eu teria dez por cento de abatimento, se quarto ou quinto rebate de vinte por cento, de sexto para baixo seriam trinta por cento. A minha égua era a segunda favorita, com boa chance. Negócio fechado, aguardamos a corrida. Foi terceira, paguei com dez por cento. Já fui para casa com o quadro, não sem antes ouvir do artista os maiores elogios à "solferino e azul".

Com certeza, sem falsa modéstia, é uma linda blusa.

por Milton Lodi



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