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Maio | 2007

Panorama Sombrio, por Milton Lodi
29/05/2007 - 17h32min

Habitualmente sou um otimista, procuro fugir do pessimismo para não ter eventualmente que sofrer duas vezes pelo mesmo motivo. Chega o depois, não é necessário também sofrer antes.

Mas olhando para o turfe brasileiro de um modo geral, não se pode ficar satisfeito.

A relação trato/prêmio no Jockey Club Brasileiro é ruim, trato alto e prêmios baixos. O custo do trato, o verdadeiro custo, bem calculado, bem feito, fica na casa dos 750 reais/mês, digamos 800. Os treinadores na Gávea cobram 1.000, isto é, 200 de pró–labore por animal, para poderem viver. Os prêmios são pequenos, as comissões assim representam relativamente pouco, um a mais só para completar, para reforçar o necessário. O JCB dá aos treinadores e aos jóqueis, assistência médica, paga por eles o custo de planos de saúde. Dá colégio para os filhos deles e também dos funcionários. É tudo isso muito louvável, mas as dotações dos páreos, que é a receita de onde vêm os recursos necessários, estão, a grosso modo, menos da metade do que é necessário. Em termos médios, o prejuízo dos proprietários é certo.

No Jockey Club de São Paulo, o trato é igual, mas os prêmios mais baixos.

O Jockey Club do Paraná e o do Rio Grande do Sul, naturalmente, estão em situações piores.

A cada ano, nascem menos potros brasileiros, já que anualmente o plantel de reprodutoras está encolhendo. A tendência é continuar diminuindo cada vez mais.

Na verdade, os clubes promotores de corridas lutam para se manter em funcionamento. Em conseqüência, os hipódromos estão sem a necessária manutenção.

Nunca é demais lembrar que o turfe se movimenta com os dinheiros das apostas, dos proprietários e dos criadores.

Se o criador não investe para criar um bom potro, não alcança preço satisfatório. O proprietário, não paga mais porque muitas vezes a qualidade não é a melhor, compra em quinze parcelas, fazendo com que em determinado momento ele passe a pagar ao mesmo tempo, o trato do potro do ano anterior, o trato do potro recém–comprado, as parcelas do potro comprado no ano anterior e as parcelas do recém–comprado. Na verdade, é dose para leão! E ainda por cima, quando um cavalo seu ganha, o dinheiro vem pequeno.

Há coisas absurdas, como por exemplo, a taxação de quinze por cento de imposto de renda na fonte do montante do ADDED, que é uma aposta entre os proprietários, não é dinheiro originário do clube, mas que saiu dos bolsos dos próprios proprietários.

O famigerado ADDED castiga os proprietários dos cavalos melhores e elitiza, não os melhores cavalos, como poderia se esperar, mas os proprietários mais abonados financeiramente. Esse tal de ADDED é um absurdo!

Os clubes lutam para se equilibrar, os proprietários são sempre os maiores sacrificados, os criadores estão sem maiores perspectivas.

Grandes haras de Bagé tentam se cotizar para importar garanhões em sistema de SHUTTLE para o segundo semestre de 2007, e três tentativas fracassaram, há medo em relação ao futuro, os preços em média não estão sendo correspondentes às normais expectativas.

O Jockey Club de São Paulo cobra aluguel mensal dos boxes, ocupados ou não, tal a necessidade de fazer dinheiro.

Os hipódromos que não da primeira faixa lutam para conseguir realizar mais do que um programa mensal. O JCSP, normalmente tem dificuldades para fazer seus três programas semanais. O JCB, que organiza normalmente 40 páreos por semana, já deu mostras de claudicação, eventualmente só conseguindo 36, e menos numerosos que os de costume.

No Rio, já há menos animais alojados do que de costume, mais de 10% foi a quebra. Os proprietários não estão agüentando. Menos cavalos, conseqüentemente menos inscrições, menos dinheiro correndo, a produção anual de potros diminuindo ano a ano. O turfe ainda está se mantendo basicamente pela coragem dos proprietários, e dos esforços de alguns dirigentes de clubes promotores de corridas, que teimam em equilibrar as contas.

De um modo geral, nos haras a ordem é diminuir o número de éguas, enxugar a folha dos empregados, não gastar em investimentos que provavelmente não serão ressarcidos.

No âmbito dos proprietários, quem tinha cinco cavalos passou a ter três, quem tinha três passou a ter um, quem tinha um está só aguardando uma oportunidade para que as coisas mudem. No JCB, é comum cavalos serem dados de graça, quando a demora para uma eventual recuperação indica prejuízo certo.

Mas o que teria que acontecer para que o atual sombrio panorama mudasse? A resposta é óbvia, a entrada de dinheiro. Não é necessário ir longe, a solução é a mesma dos hipódromos de PALERMO, na Argentina, e MAROÑAS, no Uruguai, isto é, a instalação das chamadas "maquininhas", as máquinas caça–níqueis. Esses dois citados hipódromos têm milhares e milhares de maquinetas instaladas e em funcionamento 24 horas por dia, e é com o dinheiro arrecadado que as dotações são compensadoras (o páreo dos 3 anos em PALERMO é cerca de 3 vezes o da Gávea, que é o melhor do Brasil). Os clubes estão bem e seguem melhorando, os proprietários compram cada vez mais, os criadores estão importando, em sistema de SHUTTLE, enorme quantidade de garanhões já aprovados, vendas de coberturas por preços no Brasil inimagináveis. Exportação garantida pela qualidade dos produtos, riqueza espalhada incentivando a produção, o emprego, o progresso, a melhoria, o enriquecimento da atividade turfística e a daqueles que participam da atividade.

Enquanto isso, aqui em nosso reduto tupiniquim, as autoridades não querem saber, são contra, que a atividade se amesquinhe, que os haras continuem encerrando as suas atividades, que despeçam seus empregados que representam mão–de–obra específica e qualificada, que os preços dos animais não acompanhem os valores internacionais, comparativamente com os argentinos. Qualidade pedigrística cada vez mais inferior, os programas de corridas cada vez sem maiores atrativos, os clubes de pernas trêmulas, a atividade se deteriorando.

Sinceramente, a continuar as coisas como estão seguindo, isso não vai acabar bem.

Eu gostaria muito de não ter escrito esse artigo.

por Milton Lodi



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