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Abril | 2007

As pistas da Gávea: recordes e manqueiras
26/04/2007 - 19h04min

As pistas da Gávea: recordes e manqueiras

por Claudio Ramos

Inúmeros animais têm vencido, nas pistas de grama e areia, em tempos próximos aos recordes. Nem todos são corredores de padrão técnico elevado. Alguns são figurantes de simples páreos de claiming.

Essas marcas excepcionais, que se repetem há semanas, são atribuídas, por turfistas menos avisados, ao bom estado das raias.  

O equívoco é manifesto. Os tempos que arranham os recordes têm como causa a dureza das pistas. Além de muito duras, as pistas estão em péssimas condições. A inusitada freqüência de lesões nos animais é a maior prova disso.

Nos últimos programas, muitos animais saíram lesionados das pistas. No Derby, mancou gravemente o favorito, Alcazar, potro de grande potencial, talvez inutilizado.  
 
A pista de grama apresenta solo compactado em excesso e piso irregular, todo esburacado, em alguns trechos desnivelado. O uso de cerca móvel sempre na mesma linha produziu duas trilhas esburacadas, de um lado e de outro do ressalto que marca a sua instalação. A cobertura vegetal é escassa e heterogênea (gramas, capins e pragas de vários tipos). A fertilidade do solo parece exaurida. A mistura de terra e areia usada na tentativa de cobrir os buracos, com aplicação de rolo de compactação, nem sempre é preparada com o cuidado necessário (peneiramento para retirada de resíduos sólidos). Após a irrigação, em horário inadequado, com o sol a pino, a mistura de terra e areia endurece. O endurecimento do material piora em períodos de calor e estiagem. Os animais levantam nuvens de poeira nos páreos. A poeira é combatida com irrigação mais intensa, tornando escorregadios os trechos da pista em que o barro está exposto. A pista é hoje um misto de grama e terra batida, com aspecto que lembra os campos de pelada de subúrbio. Os tempos têm sido ótimos, mas, longe de esconder, relevam as mazelas da pista.

A pista de grama, que se deteriorou a olhos vistos, precisa de reforma total, seguida de boa manutenção e uso racional. Ao longo dos anos, a partir de 2000, a sua manutenção foi negligenciada, em razão do corte drástico de insumos (a mão–de–obra, por exemplo, foi reduzida à terça parte). A sua utilização não é racional. As chamadas dos páreos e o uso contínuo, sem intervalos para descanso e tratamento, a propósito de melhorar o jogo, sacrificam–na ainda mais. A modificação do sistema de irrigação (de alcance limitado a partes da pista) e a compra de subsolador importado, embora úteis, chegaram tarde. Os procedimentos recentes, no afã de melhorar a pista, ainda que fossem adequados, não resolveriam os problemas. Reconstruir o que foi destruído exige mais do que usar cerca móvel, espargir água e tapar buracos com barro.        

A pista de areia sofreu uma ampla reforma e até o ano de 2000 foi mantida em boas condições. A partir daí, foi também muito maltratada. A única reposição de areia considerável foi feita há bastante tempo e depois que a base já havia sofrido danos, em trechos que foram remendados com material inadequado (tipo de cimento que rapidamente se deteriora e permite infiltrações de água, que provocam o afundamento da área remendada). Atualmente, a quantidade de areia é insuficiente, o que impede a uniformidade da cobertura, que deve ter espessura igual sobre toda a base, para evitar percursos melhores e piores, que desvirtuam os resultados dos páreos. A manutenção assemelha–se ao uso de cobertor curto: a areia é puxada de um lado para o outro, mas sempre falta em muitos trechos, cuja cobertura fica aquém do mínimo necessário. Em tais trechos, o impacto dos cascos dos animais atinge praticamente a base, com danos à pista e aos corredores. A umidade não é objeto de controle em épocas de estiagem. As canaletas do sistema de drenagem não são limpas sistematicamente. A máquina de remoção de pedras e resíduos não é usada regularmente. 

Se tudo isso não bastasse, as instalações do hipódromo estão em situação deplorável. O sistema de iluminação é obsoleto, ineficiente e de manutenção dispendiosa. Os partidores ameaçam cair aos pedaços e não raro enguiçam durante as corridas. As peças de madeira das cercas, em boa parte, estão podres. Os mourões de sua base são substituídos por peças de cimento armado, embora o mais indicado, para maior proteção de jóqueis e animais, fosse substituir todas as peças das cercas por material mais leve e menos resistente a impactos. As placas de concreto que recobrem as canaletas de drenagem (principalmente na curva da variante) apresentam exposição de pontas de ferro e são moldadas com quinas que criam graves riscos para jóqueis e animais em casos de queda. O caminho do prado é esburacado. As vilas hípicas estão abandonadas.

As presentes observações são fruto de verificação in loco das pistas e de todo o hipódromo. Como turfista e proprietário, preocupa–me o estado das instalações hípicas em que se apresentam os nossos valiosos – e estimados – animais, que infelizmente não recebem o cuidado que merecem da entidade que os explora.

Tomara que a recente visita de uma comitiva presidencial à raia de grama, para conhecer o seu estado, surta algum efeito prático. As medidas anunciadas até agora, porém, além de circunscritas à grama, são paliativos. Pouco poderão contribuir para a solução dos graves problemas existentes. 

Faço coro, pois, com o discurso de Lineu de Paula Machado, expert reconhecido, ao receber homenagem como criador de Itajara. Os nossos melhores animais nem sempre podem ser revelados em razão do péssimo estado das raias da Gávea; muitos ficam inutilizados ou são sacrificados. É preciso coragem, atributo pessoal ressaltado por Lineu, para reconhecer que o turfe, em nosso clube, está em petição de miséria, sem gestão, sem recursos e sem perspectivas. E é preciso grandeza para corrigir erros e omissões, tentando imprimir um mínimo de eficiência na administração das corridas e das apostas, enquanto durar o mandato atual. Sem isso, continuaremos a conviver com o estado ruinoso das instalações hípicas, as lesões de nossos animais (e nosso patrimônio) e os tristes acidentes de raia, expondo a risco a incolumidade física e a vida de jóqueis e animais. Assistiremos, em pouco tempo, à derrocada do turfe no Rio de Janeiro.

Claudio Ramos, vice–presidente da ACPCPSI, é proprietário e criador, titular do Haras LLC



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