Não é raro, na verdade tem sido quase comum, que animais se apresentem para correr com sinais divergindo dos constantes nos documentos. Algumas vezes a culpa é do treinador, que não confere os sinais da carteira de identidade com os do próprio cavalo, em desleixo total, e/ou o veterinário que não confere quando de eventuais vacinas, ou é o serviço de identificação, quando da entrada dos animais nos hipódromos, que não funciona com a devida atenção etc. Em todos os casos, há desleixo (para não admitir eventual má fé).
Em um fim de tarde, já à noitinha, fui identificar uma potranca no haras, e eu resolvi tirar logo os sinais para, já no dia seguinte no Stud Book em São Paulo, fazer o PRP (Pedido de Registro do Produto). Chovia muito, a potranca estava molhada, a luz não era boa. Registrei a CASTANHOLA como alazã. Quando foi da emissão da carteirinha, fui conferir, e a pelagem era castanha clara, não alazã, o pêlo molhado e a pouca luz me induziram ao engano. Não houve nenhum problema, solicitei ao Stud Book a retificação dos sinais, um veterinário oficial constatou o erro, os registros foram corrigidos.
É legítimo o direito de retificação dos sinais, e não tem cabimento treinador e/ou veterinários não cumprirem com a necessária fiscalização.
Há animais que, após tirados os sinais para efeito do PRP até o dia da apresentação para correr pela primeira vez, apresentam alterações, via de regra, pode ocorrer o aparecimento de pelos brancos a ponto de descaracterizar a primeira identificação.
Há, na prática, uma seqüência obrigatória a respeito do assunto. Há a identificação inicial do proprietário ou do veterinário, ou de empregado do próprio haras, há uma segunda, feita por veterinário oficial do SBB, já com a carteirinha, há a identificação nos respectivos serviços hipódromos etc. Como pode mesmo assim ocorrer irregularidades?
Há alguns anos, um cavalo chegou do sul de caminhão para fazer campanha no Hipódromo da Gávea. O setor de identificação notou irregularidades, o cavalo ficou preso e tomadas as adequadas providências. Os sinais não coincidiam, o exame de sangue mostrou que ele não era filho daquele garanhão, e o Ministério da Agricultura tomou a si o problema. O cavalo foi desqualificado (deixou de ser PSI), o respectivo haras sofreu uma devassa de grandes conseqüências. E o fato ainda muito negativo é que aquele cavalo, com aqueles documentos, já havia corrido 7 vezes em hipódromo oficial.
As 7 atuações constavam normalmente do Certificado de Performances. Vai aí a pergunta, um erro tão fácil de ser percebido passaria por uma fiscalização mesmo que rotineira desde que ela fosse feita e sem desleixo?
É uma pena que o Ministério da Agricultura não atente para os problemas do turfe brasileiro, onde a já de algum tempo falta de dinheiro dá margem a um relaxamento inaceitável.
Em Cidade Jardim, um treinador recebeu do Paraná dois potros inéditos, que passaram naturalmente pelo serviço de identificação, tudo em ordem. Os dois potros foram levados para a cocheira e treinados para estrear. Ao chegar ao prado para correr pela primeira vez, foi constatado pelo serviço de veterinária que o potro não correspondia à ficha gráfica. Simplesmente o treinador, não consultando as carteiras de identidade, achava que um era o outro (e vice–versa). Nenhuma má fé, os dois inéditos começando os treinamentos da estaca zero, bastava conferir os sinais constantes das carteirinhas com os dos potros. O potro não correu, pois estava com a carteira de identidade do outro, o treinador foi punido pela Comissão de Corridas pelo desleixo.
Conferir os sinais é coisa fácil, mas nem sempre os interessados, treinadores, transportadores e funcionários dos clubes promotores de corridas, se dão ao trabalho.
É incrível!
por Milton Lodi