A cada ano, e cada vez mais, a criação nacional, por todas as conquistas que obteve, torna–se alvo de proprietários internacionais. Aqueles que não negociam seus melhores corredores investem forte para enviá–los para os Estados Unidos, principalmente. Mas, para mandar um cavalo brasileiro às terras de Tio Sam ou outros países, é preciso que ele esteja completamente livre de um problema sério, que aflige boa parte da população eqüina de nosso país. A babesiose ou nutaliose, como é mais comumente conhecida, pode ser um obstáculo impossível de ser vencido na hora de exportar.
A exigência do exame denominado Elisa, para a entrada nos Estados Unidos, por exemplo, é fator definitivo. A babesiose eqüina é considerada o principal empecilho para o trânsito internacional de cavalos em todo mundo. Somente 10% da população mundial eqüina habita áreas livres da doença. No Brasil, a exportação de cavalos seria um importante impulso para a equideocultura local, mas as barreiras sanitárias se constituem no maior entrave para a aceitação do produto brasileiro no exterior.
Vamos conhecer um pouco deste problema, que pode acabar com os sonhos de um criador e proprietário.
A origem da doença e o transmissor
A Babesiose eqüina, também conhecida como piroplasmose ou nutaliose eqüina, é uma doença produzida por protozoários (Babesia equi e Babesia caballi), transmitida por carrapatos e que afeta eqüinos, muares e zebras. Os animais infectados se tornam geralmente portadores crônicos e fontes de infecção por longos períodos.
Importância e distribuição
A B.equi e a B.caballi freqüentemente estão associadas já que se utilizam do mesmo vetor. Ambas se distribuem largamente em áreas tropicais e subtropicais mas a B.equi tem maior prevalência.
Na Europa, a piroplasmose eqüina se estende pela Espanha, Portugal, França, Itália e na maioria dos outros países. No entanto, parece que não é endêmica na Inglaterra, Irlanda, Holanda, Alemanha e países escandinavos. A Austrália é o único continente aonde a piroplasmose eqüina não se estabeleceu, apesar de ter sido introduzida. Isto se deve à ausência dos vetores.
Nos Estados Unidos, até 1959, não havia descrição da doença. Neste ano a B.caballi foi introduzida na Flórida com cavalos importados e teve efeito devastador dizimando 30% da população eqüina de uma grande reserva indígena. Naquela época foram estabelecidas medidas rígidas para controlar o carrapato transmissor. Atualmente os Estados Unidos são considerados como área controlada, pois ocorre a introdução constante de animais portadores crônicos vindos de áreas endêmicas apesar das medidas de controle estabelecidas.
Os prejuízos para os animais
O maior prejuízo que a doença acarreta em áreas endêmicas é a diminuição da performance em animais de esporte. Vários estudos podem ser encontrados na literatura, os quais demonstram que o grupo de animais com anticorpos contra a babesia, considerados como portadores crônicos, tem um nível de atuação inferior ao dos animais negativos. Existe grande número de bons corredores portadores crônicos, mas se acredita que possivelmente suas performances poderiam ser ainda melhores se fossem negativos. A explicação para a diminuição do potencial atlético se baseia no fato que os portadores crônicos apresentam anemia, ainda que muito discreta. Isso pode explicar fracassos inesperados.
Além disto, devem ser considerados os prejuízos decorrentes de gastos com tratamento, abortos e mortes devido a infecções agudas ou infecções congênitas. Os quadros agudos não são muito comuns em áreas endêmicas.
Finalmente, a babesiose eqüina é considerada hoje, no mundo inteiro, como o principal impedimento para o trânsito internacional de cavalos. Somente 10% da população eqüina mundial habita áreas livres da doença e entre estes países estão o Japão, Canadá, Estados Unidos e Austrália, que possuem uma indústria eqüina importante. Cavalos positivos estão impedidos de entrar nestes países e muitos outros, seja para competições ou para exportação definitiva. No Brasil, a exportação de cavalos seria um importante impulso para a criação, mas as barreiras sanitárias se constituem no maior entrave para a aceitação do produto brasileiro no exterior.
A transmissão
Atualmente 15 espécies de carrapatos já foram identificados como transmissores de ambas as babesias. No Brasil foram identificados como transmissores o Amblyomma cajennensis (vermelhinho ou micuim), o Dermacentor nitens (carrapato da orelha) e o Boophilus microplus (carrapato do boi).
Os carrapatos são altamente susceptíveis à infecção mesmo em parasitemias muito baixas.
No caso da B.caballi, a transmissão da infecção pelo carrapato aos seus descendentes pode se manter por até 3 ou 4 gerações de tal forma que o carrapato é o reservatório da doença na natureza. No caso da B.equi, só há transmissão transestadial, ou seja, larva, ninfa, adulto. No entanto, os cavalos infectados se tornam portadores crônicos, muitas vezes inaparentes, por muitos anos. Os cavalos são o reservatório da B.equi na natureza.
Tanto o Boophilus como o Dermacentor são carrapatos de um só hospedeiro, mas os machos têm grande motilidade e longevidade, sobrevivendo por 70–120 dias, período no qual podem infectar mais de um hospedeiro na procura da fêmea. Assim sendo, mesmo na ausência de transmissão, eles podem ser importantes no ciclo da B.equi, especialmente se a criação for intensiva. Ainda não está esclarecido o papel do principal carrapato que parasita eqüinos no Brasil, o Amblyomma cajennensis.
Tratamento
Várias drogas têm sido usadas para o tratamento da Babesiose eqüina. Os babesicidas convencionais são eficazes para tratar e eliminar as infecções por B.caballi, assim como para controlar a sintomatologia aguda nas infecções por B.equi. No entanto, nenhuma medicação conhecida até o momento é capaz de eliminar as infecções crônicas de B.equi.
Pode–se observar sintomas após a aplicação destas drogas como salivação, cólica leve e hipermotilidade intestinal. Estes sintomas são facilmente eliminados com a administração de Sulfato de Atropina. A terapia de suporte é recomendada.
O tratamento para diminuir o número de anticorpos circulantes se baseia na administração mensal da medicação em doses baixas. A maioria dos animais se torna negativo para ambas as babésias em alguns meses.
A necessidade de se evitar a contaminação
No primeiro cenário, a infecção deve ser evitada a qualquer custo, uma vez que os animais poderão se tornar portadores crônicos e o tratamento é limitado no caso da B.equi. A melhor maneira de evitar a infecção é controlando a população de vetores, no caso, os carrapatos.
A eliminação total dos vetores é muito difícil uma vez que as larvas dos carrapatos são muito resistentes, especialmente as do Amblyomma, que permanecem viáveis por até três anos em condições ambientais favoráveis. Um outro fator importante é a presença da fauna silvestre, que continua a disseminar os carrapatos. Além disto é comum as éguas viajarem com seus potros para fins de reprodução, contaminando–se em outras áreas.
Maiores cuidados a partir de agora
Uma das maiores frustrações para o proprietário de um bom cavalo, diante do cenário turfístico nacional, é não poder exportá–lo, ou até mesmo conseguir uma boa negociação pelo fato de o corredor ser “barrado” após o exame Elisa. Alguns, que já passaram pelo dissabor, chegam a pensar em, além de examinar a conformação física dos potros a serem comprados em leilões, no detalhado estudo sobre a linhagem, pedir exame de sangue antes de darem seus lances.
fonte: Babesiose ou Piroplasmose dos eqünos, Dra.Cláudia Ehlers Kerber
por Marco Aurélio Ribeiro