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Abril | 2007

O Vendedor de Bilhetes, por Milton Lodi
17/04/2007 - 17h14min

Havia em Cidade Jardim, nos dias de corridas, um vendedor de bilhetes de loteria. Ele era visivelmente prejudicado, física e mentalmente. Não era má pessoa, mas não tinha a medida das coisas, ele queria vender os bilhetes para ter dinheiro para jogar e beber, pela ordem. Era na verdade, um miserável, um coitado, mesmo nos dias de muito calor, estava com um colete de lã e um paletó surrados e sentindo muito frio. Era eu chegar no prado e ele se acercar. Eu não comprava bilhetes dele, pois se algum dia desse de ganhar algum prêmio, aí mesmo é que ele não iria me largar mais. Mas algum ele sempre levava.

Eu estava em fase sem vitórias, os cavalos bem trabalhados e bem apresentados, bem inscritos e bem montados, mas não ganhavam. As semanas se sucediam, mas os resultados esperados não aconteciam.

Conversando ocasionalmente com o treinador Enir Feijó, o "Marocas", comentei com ele os insucessos, e ele prontamente me perguntou se eu ainda não havia percebido que quando o corcundinha ia se aproximando, todo mundo rapidamente se afastava, e eu era dos poucos que conversava com o infeliz. O "Marocas" me disse que era impossível ganhar corridas quando se conversava antes com o corcundinha, e que eu tinha que acreditar, isso já acontecera com muitos.

Eu não queria fazer uma grosseria com o coitado. Fui a ele e disse que ia dar a ele um dinheiro bom, um montante que valeria por muitos meses de pequenas gorjetas, tudo naquele momento, mas com a condição dele não mais me procurar para falar comigo nos dias de corridas. Ele ficou alegre, disse que prometia não me procurar mais, e saiu satisfeito com o dinheiro. No programa seguinte em que eu tinha cavalo inscrito, estacionei o carro e, ao atravessar a tribuna dos profissionais, logo o corcundinha me abordou, e alegre me disse que ele não ia me procurar para falar comigo. Não seria necessário dizer que o meu cavalo perdeu.

O jeito foi fugir, isto é, entrar no clube por outra entrada e ficar na arquibancada que para o tal sujeito era inacessível. As vitórias atrasadas e outras inesperadas chegaram naturalmente, com rapidez e bom número.

Um dia me disseram que o corcundinha havia vendido uns tantos bilhetes, mas bebera demais e fora embora a pé, já sem nenhum dinheiro. De noite, perdera o equilíbrio e batera com a cabeça no meio–fio, na guia, e ficara em lugar ermo desacordado. Ao acordar muitas e muitas horas depois, já consciente, fora para a lotérica onde pegava os bilhetes, para devolver os que não havia vendido. Surpreendido ao saber que os bilhetes já haviam corrido, e surpresa maior ainda era que ganhara um bom prêmio. Casado com uma doméstica com a qual tinha sete filhas, resolveu o seu problema de moradia, parou de pagar aluguel, comprou um "cantinho" e voltou para a sua vida habitual de vendedor de bilhetes.

A última vez que eu vi o corcundinha foi em uma segunda–feira à noite, quando eu tirava o meu carro do estacionamento para ir para casa. Fazia frio, já era tarde, e perto do portão o homem estava lá aguardando uma ajuda para ir embora. Mandei que ele entrasse no carro. Ele me disse que ia para uma "boite" que ficava em bairro próximo ao meu. Fiquei curioso, o que aquele sujeito mal vestido, de aparência muito ruim, iria fazer à noite na tal "boite", e ele me disse que ele sempre ia lá de madrugada para ajudar a lavar pratos, a troco de um prato de comida.

Ele pediu para parar, abriu a porta e me convidou a entrar com ele. Eu agradeci, disse que não entraria, e ele então me disse que eu podia entrar, eu iria gostar, aquela era a "boite das pretas onde os brancos se adevertem"

Nunca mais o vi.

por Milton Lodi



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