Ai, que saudade que dá!
Quando eu era garoto, assistia os páreos de sábado pela televisão, TV Continental – canal 9, em preto e branco, com a narração e comentários de Celso Pina e Wilson Nascimento.
Quando eu era garoto, graças a um Presidente, passei a ter que “penetrar” pelo estacionamento. Éramos quatro ou cinco “moleques” e não saíamos de lá – quase todos permanecem acompanhando as carreiras, e ali ainda tínhamos que pedir a alguém para jogar e, depois, quando se acertava, também para receber, pois garoto não podia fazer nada. O “Catedrático Beto”, Luis Alberto Rodrigues de Souza, desde aquela época, anos 60, já acertava bastante.
Quando eu era garoto, as estatísticas eram dominadas pelos Peixoto e Linneo, em qualquer ordem, além, dentre outros, dos importantíssimos Seabra, Rocha Faria e Cápua – farda linda, cedida ao Mondesir, e ainda tinham as cocheiras do Guedon – farda cedida ao Doce Vale – Jabour, Solanés e tantos outros amantes inveterados do PSI.
Quando eu era garoto não tinha “feirinha da Babilônia”, as tribunas ficavam cheias às quintas e sábados e, nos domingos, dia de grande prêmio, mais gente ainda, fechando a semana na segunda, pois semana de turfista fechava na semana seguinte.
Quando eu era garoto, a rivalidade era intensa com Cidade Jardim, lá com o Faxina – Narvik ganhando aqui um Brasil em 182 3/5, recorde mundial, pra cima do Atlas, máquina de correr portenha, o Jahú e seu inigualável Farwell, São Luiz e tantos outros.
Quando eu era garoto, nossos crioulos foram a Buenos Aires, em maio, e fizeram “barba, cabelo e bigode” com Escorial – Farwell em 2°, Derah, Elisabeth e Majors Dilemma, se a memória não falha.
Quando eu era garoto, nossos craques, tanto das pistas quanto dos gramados, faziam campanha aqui, a estrutura “dava pro gasto”.
Quando eu era garoto, turfe internacional somente pelas excelentes revistas Jockey Club Ilustrado e Turfe e Fomento, esta última bimestral, e na semanal – Rio Turfe – e/outros nomes – em coluna específica, se bem me lembro, com o depois criador Nelson Pereira. Era a época do telex, bem diferente dos dias de hoje, haja vista o programa Turfe Espetacular, talvez único com aquele formato, idéia do Bruno Faria abraçada pelo Luiz Macedo.
Quando eu era garoto, muitos jornais tinham página diária inteira sobre turfe, com diversas colunas, de minha preferência as do Escorial – Marcos Ribas de Faria, e a sensacional Coluna do Pangaré, esta de uma pessoa formidável e, para mim, inesquecível, Haroldo Barbosa, modelo de dignidade e independência que me serve de exemplo até hoje.
Quando eu era garoto, tinha que usar a memória para guardar os nomes dos cavalos e lembrar das peripécias de corrida – quem foi, quem não foi, o vídeo tape tinha que estar na cabeça.
Quando eu era garoto, aí já não tão garoto assim, lá na especial, entre um páreo e outro apostava, com o meu grupo, em cada virada da “pedra” – quem acertasse o número com a maior dezena levava.
Quando eu era garoto, aí já não tão garoto assim, tinha que ter preparo físico, pois pra jogar tinha que atravessar a praça, sempre carregado de fichas – pra mim e para aqueles imbecis que resolviam socar os orelhões, hábito comum à época, a quem eu dava as fichas desde que me deixassem “trabalhar” primeiro, tudo retrato de um período maravilhoso.
Quando eu era garoto, aí já não tão garoto assim, durante alguns anos acompanhei as corridas de sábado e domingo lá do “Cantinho do Pangaré”, junto ao estacionamento, vendo as corridas de binóculo e em posição frontal à reta de chegada, tendo que treinar o golpe de vista para poder apostar em caso de photochart. Ali, quando havia dúvidas sobre qual cavalo estava chegando pra correr, perguntava–se ao Ricardinho, ele mesmo, o formidável Jorge Ricardo que, aos sete/oito anos de idade, parava a brincadeira de pique com os colegas, olhava e mandava o nome do cavalo perguntado, sem erro.
Hoje, já longe de ser o tal garoto, fico perplexo, pois o ocaso é realmente assustador, esperando apenas não ter que parafrasear o meu neto, com o seu inocente “já era”.
Hoje, já longe de ser o tal garoto, além de triste, me vejo inteiramente emocionado nesta rápida viagem através do tempo.
Alfredo Wandel Silva Machado, engenheiro, 55 anos, mora no Rio de Janeiro.