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Cruzas, por Milton Lodi 23/05/2009 - 14h44min
A escolha do garanhão adequado para
cada égua chega a ser uma ciência. No mundo inteiro há estudiosos que se dedicam à procura da
cruza certa. No plano internacional, eu conheci pessoalmente John Aiscan, que vinha
anualmente ao Brasil para prestar serviços, pelo que me consta, aos Haras São José e
Expedictus. Ele não só conhecia a parte teórica como a morfológica, a idéia era a utilização
de machos compatíveis com as éguas, em função das performances nas pistas, de tipos físicos
que principalmente não somassem eventuais defeitos, que boas qualidades se somassem, tudo
tentando repetir combinações que já tivessem ou tenham dado bons resultados. John Aiscan
tinha memória fotográfica, a análise física de um cavalo ficava gravada. Ele chegou ao ponto
de dizer, e escrever, após ir a um haras norte–americano onde estavam alojados entre outros
Bold Ruler e Herbager, que o grande Secretariat não era filho do norte–americano, mas do
francês, foi uma afirmação categórica de um técnico do mais alto gabarito.
No Brasil,
o melhor de todos, o mais estudioso, o mais técnico, o mais vitorioso em termos de cruzas
tecnicamente premeditadas, foi José Paulino Nogueira. Eu costumava ir para o Ipiranga de
automóvel, Rio – Jaguariúna (SP), e muitas vezes ia antes para o Bela Esperança. Jantávamos,
conversávamos por várias horas (naturalmente eu ouvindo e ele ensinando), eu já dormia lá e
no dia seguinte após o café da manhã ia para o Ipiranga. Certa noite, ele me perguntou se eu
tinha acesso ao Icílio Forelli, um dos donos do Haras Patente. O Dr. Paulino tinha um
temperamento complicado, era um homem muito bem educado, mas de humor variável, e dava–se
bem, mas não tinha intimidade com o Forelli. Sabendo que eu não tenho problemas com
relacionamentos, eu me dou bem com quase todo mundo, o Dr. Paulino me pediu para conseguir
uma cobertura do Xaveco, garanhão do Haras Patente, para uma égua dele. Aquela época, cada
haras só contava com os seus próprios reprodutores, não havia normalmente doações, trocadas
ou vendas de coberturas. O Dr. Paulino tinha uma égua de nome Vera Cruz, filha de Pharas e
Flyshell, por Hotweed, e em seus estudos a cruza para ela era com o Xaveco, filho de Sayani
em filha de Bois Roussel. Eu falei com o Forelli, que gentilmente doou a cobertura. Nasceu
uma fêmea, de nome Elamiur, líder de sua geração, uma das melhores expressões femininas, que
não só ganhou vários clássicos, mas como também e principalmente o Diana carioca como também
o Cruzeiro do Sul (Derby Brasileiro). Uma das mais importantes corridas de Elamiur foi um 2°
à cabeça de Viziane, com o qual lutou o percurso inteiro em, se não me engano, 3.000 metros.
Na reprodução, não foi mãe ótima, mas como avó deu ganhador clássico. Fato curioso e não
desmerecedor de Elamiur foi que teve um filho de Viziane, claro que considerado desde o
nascimento como um grande crack em potencial. Pois chegou aos 5 anos de idade como
perdedor.
Fato extraordinário possivelmente único na história do turfe mundial, me foi
relatado pelo meu amigo e hipólogo Bertrand Kauffmann. Ocorreu durante o período da 2ª Grande
Guerra, de 1939 a 1945.
Na Alemanha, o melhor reprodutor chamava–se Oleander, filho de
Prunus e consequentemente neto pela linha alta de Dark Ronald. No haras alemão de Oleander
havia uma égua de nome Arabella, também neta de Dark Ronald. Enquanto isso, na Itália o
grande garanhão era Ortello, filho de Teddy e Holebeck. Na Razza Ticino, haras de Ortello,
havia uma reprodutora de nome Ostana, neta materno de Hollebeck. Tanto não era desejável dar
Arabella para Oleander como Ostana para Ortello. Assim, em 1939, Aranela foi da Alemanha para
a Itália para Ortello, e Ostana da Itália para Alemanha para Oleander. As éguas foram
cobertas e voltaram às suas origens para darem cria “em casa”. Nasceram dois machos, em
1940.
Em 1943, o Derby alemão foi vencido por Allgau, filho de Ortello e Arabella, e o
Derby Italiano por Orsenigo, por Oleander e Ostana.
Deve haver muita gente com boa
cultura turfística, mas Bertrand Joachim Kauffmann certamente é um dos melhores.
O
citado Orsenigo, que além do Derby Italiano venceu o Gran Premio di Milano e o Gran Premio di
Itália, foi arrendado pelo Haras Guanabara para duas estações de monta. Dentre outros deu
Escorial, Lohengrin, Emoción, Cáucaso e Voltigeur. Chega?
Os casos do Oleander e
Ortelo e a cruza de Xaveco em filha de Pharas dão uma idéia do resultado de estudos
planejamento, de cultura turfística, de conhecimento na arte de criar
bem.
(Transcrito da Revista Turfe Brasil– n° 264, de
24.07.08)

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