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Colunista:

Criar com método é uma arte (I), por Sergio Barcellos
22/05/2009 - 16h45min

Federico Tesio perseguia Saint Simon, segundo ele, "um dos mais belos e o melhor cavalo que já usou um selim de corrida.” E de tanto insistir, criou o invicto Nearco – o Saint Simon do século XX – em cujo pedigree há nada menos que 16 cruzamentos sobre o lendário ancestral.

Lord Derby concentrou–se em Phalaris, um sprinter–miler ganhador de 15 corridas entre os 1.200 e a milha (nenhuma delas considerada clássica), deu–lhe as melhores filhas de Chaucer (outro Saint Simon) e acabou provocando uma clivagem definitiva entre os dois tipos de thoroughbred: o do passado e o dos nossos dias. Phalaris, pai dos irmãos inteiros Pharos e Fairway, é esse divisor de águas.

O velho Aga Khan acreditava em velocidade prolongada no tempo. Para ele, quanto mais velocidade, melhor. Sua tordilha Mumtaz Mahal (família 9c), a "potranca mais rápida dos anais do turfe", filha do fenômeno The Tetrarch, é o exemplo perfeito do que ele entendia como cavalo de corrida. Suas 3 filhas famosas, Mah Mahal, Mumtaz Begum e Rustom Mahal (que não correu) são mães, respectivamente, de Mahmoud, Nasrullah e Abernant. E ela própria está na origem da fantástica Zarkava (84 anos depois!), do infortunado Shergar, de Kalamoun e de Petite Etoile.

Marcel Boussac inventou uma raça dentro da raça, a partir do conceito expresso em sua frase célebre: "Dê–me sangue e eu crio um craque na Place Vendôme." Criou vários ao longo dos anos em Fresnay Le–Buffard, misturando incessantemente o sangue azul de seus 4 craques imortais: Tourbillon, Djebel, Asterus e Pharis.

Do outro lado do Atlântico, Arthur Hancock acreditava em "vigor híbrido" (por aqui, Nelson e Roberto Seabra também): "É a mistura das diferentes linhagens espalhadas pelo mundo que revigora o puro sangue de corridas." Foi com base nesse princípio que sua Clairborne Farm, no Kentucky, dominou o panorama do turfe americano por anos a fio.

O atual Aga Khan, líder religioso dos Ismaelitas e herdeiro de uma tradição mais que centenária nesse sofisticado ofício de criar – iniciada por seus antepassados ainda na Índia –, construiu um verdadeiro império hípico buscando o sangue Never Bend onde ele estivesse para misturá–lo aos descendentes de suas 17 esplêndidas matronas, de Mumtaz Mahal a Ballisland, passando por Tourzima (“Ela é a minha rocha, da mesma forma que Mumtaz Mahal foi a de meu avô”), Pola Bella, Teresina e Vareta, entre outras.

E.P.Taylor usou sua fortuna pessoal para arrematar a peso de ouro a última filha de Hyperion coberta por Nearco – os dois gigantes europeus da segunda metade do século XX – e, a partir daí, assentar os pilares da construção de Northern Dancer, o pequeno grande gigante do final do milênio.

Após a I Guerra Mundial, quando eram um dos maiores PIBÂ’s do mundo, os argentinos se dedicaram com insistência e coragem a importar ganhadores do Derby de Epsom, elevando sua criação a um nível jamais alcançado na América do Sul em qualquer época. Não satisfeitos, trouxeram Bahram – nada menos que tríplice–coroado inglês e uma das maravilhas do élévage Aga Khan (o Haras Guanabara fazia parte do sindicato de Bahram). Ainda não satisfeitos, foram buscar Aristophanes (com a ajuda do governo de Juan Peron), filho de um ganhador do Derby Stakes (Hyperion) numa ganhadora do Oaks (Commotion). E criaram Forli, o invicto “filho dourado do vento.”

Na Alemanha, enquanto isso, o primado da perfeição física se mantinha intocado. Lá, com rigor germânico, só merece a reprodução quem é impecavelmente são. Ao longo dos anos, e desde Dark Ronald, o estoque genético assim concebido – hoje tão bem representado por indivíduos como Acatenango, Lomitas, Surumu, Monsum, Lando, apenas para citar alguns exemplos – é um dos ativos mais procurados por criadores conscientes de todo o mundo. Aliás, quem busca eficiência e durabilidade deveria estar nos leilões de potros de Baden–Baden, antes que em qualquer outro leilão do planeta.

O elo comum que une esses personagens, antes de afluência econômica, antes de prestígio e renome, antes mesmo da qualidade de suas terras e de sua equipe, é que eles tinham presente, de forma muito nítida, algo que é fundamental em qualquer empreendimento humano: um conceito e um método para atingir seus objetivos.

Neles, nada é improvisado, nem nada jamais dependeu unicamente da sorte ou do acaso. Todos sabiam exatamente o que queriam e porque. E foram premiados por isso.

Pois, por mais arriscada que seja essa atividade, e por mais aleatórios que pareçam os resultados, há sempre um eixo em torno do qual são criados os cavalos de corrida de exceção, desde a aurora do turfe: (i) um profundo conhecimento das características funcionais de cada linhagem; (ii) acesso às grandes famílias maternas; e (iii) a busca incessante das linhas masculinas que misturam bem com elas. Esse é o tríduo que está na base da glória nas pistas. Para além de suas fronteiras, tudo quase sempre se resume a incerteza e, o mais das vezes, a decepção.

Entretanto, o que mais impressiona ao observador da criação do puro sangue de corrida, é constatar que o sucesso nesse mister nunca dependeu de quantidade. Ao contrário, quantidade geralmente confunde, ao invés de ajudar.

Lord Derby criava a partir de um reduzido número de matrizes (máximo de 32 éguas), Tesio menos que isso. O atual Aga Khan tem hoje cerca de 180, distribuídas em seus sete haras entre a Irlanda e a França. Quando o tamanho do plantel ameaça vulnerar esse número mágico, ele simplesmente vende (entre o final do ano passado e o começo deste ano, vendeu em leilão cerca de 90 éguas de cria, a maioria originária da incorporação da criação Lagardére). E nunca se arrependeu disso.

É dessa forma que funciona a mente dos grandes criadores do passado e do presente. E foi assim que sempre funcionou entre nós. Quem sabia o que queria e porque, nunca se deixou impressionar com quantidade de éguas e número de nascimentos por ano – uma estatística que, a rigor, não garante nada, muito menos qualidade em termos de um turfe desenvolvido e próspero.

Hoje em dia, cavalos nascidos e criados nos campos brasileiros ganham muito mais no exterior do que quando os nascimentos no país era maiores que os atuais.

Importações fundamentais

Desde o instante em que os ingleses começaram a inventar o cavalo de corrida no século XVIII, fazendo cruzar suas melhores éguas de batalha com reprodutores árabes e berberes – com o propósito, à época, puramente militar de aumentar a mobilidade de sua cavalaria – a grande característica do turfe foi ter nascido internacional. Com a expansão do império, essa tendência se consolidou.

Não causa espécie, assim, que a raça puro sangue esteja hoje espalhada por todos os quadrantes do mundo, servindo, inclusive, a outros propósitos que não somente o das corridas rasas ou sobre obstáculos. Universalidade é, em essência, a tônica do thoroughbred moderno.

Como tal, o mercado mundial de importação e exportação de reprodutores e matrizes ganhou especial relevo e importância. Importar bem, da mesma forma que criar bem, passou a ser fundamental. E o Brasil não foge à regra geral.

Entre nós, há que distinguir duas épocas em matéria de turfe e da importação de sementais: a romântica, que vai de 1940 a 1960, e a contemporânea, de 1960 em diante, quando o esporte transformou–se definitivamente em uma poderosa indústria, seguindo a tendência do mundo moderno.

Nesses quase 70 anos, centenas de reprodutores foram incorporados aos haras brasileiros, alguns com grande sucesso, contribuindo para mudar a face de nossa criação; outros, porém, talvez a maioria deles,  perdeu–se na memória do tempo, reduzidos à irrelevância, que nessa atividade a lei de seleção das espécies é implacável.

A esta altura, parece interessante indagar quais foram os 15 maiores reprodutores que já ingressaram no país em todos os tempos – aqueles que mais contribuíram para melhorar e enobrecer o cavalo de corrida brasileiro.

É evidente que uma seleção desse tipo, com todas as dificuldades que ela encerra, implica um longo debate sobre motivos e razões com quem domina inteiramente o assunto, além de exibir prodigiosa memória sobre fatos e circunstâncias do turfe nacional e internacional. Marcos Ribas de Faria (nosso conhecido Escorial) é esta pessoa.

Então, vamos à lista. E se a escolha provocar discussão, melhor para o debate, e melhor para a maior divulgação do turfe entre nós.

Os 15 maiores “estrangeiros” na criação nacional

Por coincidência, são quase todos europeus. Por coincidência, sua vinda para o Brasil foi promovida por gente que sabia exatamente o que queria e porque. Por coincidência, todos, sem exceção, são nascidos na púrpura e integram a elite da raça em matéria de nobreza da estirpe, de origens e de pedigree.

Separados nos dois grupos e épocas antes mencionados, à frente de cada um deles está indicado o importador e (em itálico) seu principal produto entre nós. Em caso de dúvida, os dois principais produtos. Como se segue:

(a) Entre 1940 e 1960

. King Salmon (Salmon Trout e Malva, por Charles OÂ’Malley) – Haras Mondesir – Manguari e Prosper;

. Formasterus (Asterus e Formose, por Clarissimus) – Haras São José – Helíaco;

. Felicitation (Colorado e Felicitá, por Cantilever) – Haras Guanabara –  Radar;

. Coaraze (Tourbillon e Corrida, por Coronach) – Jockey Club de São Paulo – Emerson (que voltou à França para ser um dos líderes das estatísticas de reprodutores na terra de seus dois ilustres progenitores);

. Orsenigo (Oleander e Ostana, por Havresac II) –  arrendado pelo Haras Guanabara – Escorial;

. Pharas (Pharis e Astronomie, por Asterus), um Boussac dos pés à cabeça – Jockey Club de São Paulo –  Zenabre;

. Fort Napoleon (Tourbillon e Roquebrune, por Motrico) – Haras São José e Expedictus – Devon

(b) De 1960 em diante

. Felicio (Shantung e Fighting Eddie, por Guersant) – Haras São José e Expeditus – Itajara, eleito recentemente o maior cavalo brasileiro de todos os tempos;

. Ghadeer (Lyphard e Swanilda, por Habitat) – Fazendas Mondesir, Haras Santa Ana do Rio Grande e Haras Santa Maria de Araras –  Mensageiro Alado;

. Locris (Venture e Ormara, por Djebel), outro puro Boussac – Haras Guanabara – Emerald Hill;

. Waldmeister (Wild Risk e Santa Isabel, por Dante) – digno descendente de Teresina, especialmente notável por seu talento como avô–materno – Haras Mondesir – Mani e a consistente e genuína Vada;

. Earldom (Princequillo e Pink Velvet, por Polynesian), o típico americano da lista, com três vitórias comuns e um pedigree de sonho – Haras Faxina – Kenético;

. Henri Le Balafré (Sassafras e Galoubinka, por Tamerlane), leia–se a distância e a classe sem jaça – Jockey Club de São Paulo – Thignon Lafré;

. Roi Normand (Exclusive Native e Luth de Saron, por Luthier), nascido nos EUA apenas porque seu criador enviou a mãe para ser coberta naquele país, mas com início de campanha na Europa e linha baixa visceralmente européia – Haras Santa Ana do Rio Grande – a extraordinária Riboletta e Redattore (que começa a surgir entre nós como o grande perpetuador, não só da absoluta distinção do modelo físico, como das soberbas origens de seu pai);

. Know Heights (Shirley Heights e Unknown Lady, por Hoist the Flag), pura linhagem Never Bend, escolhido a dedo pelo centenário Haras São José e Expedictus – Coray, ex–recordista dos 2.400 metros na Gávea.

Em resumo, um Northern Dancer e, pelo menos até agora, nenhum Mr Prospector. Isso é bom ou ruim? Nem uma coisa nem outra. É assim que é.

Uma (merecida) lista complementar

É claro que há outros sementais notáveis integrados ao nosso turfe e, de saída, nos lembramos de pelo menos 20 deles, que poderiam compor uma merecida lista complementar, tais como: Swallow Tail (pai do tríplice–coroado Timão), Sayani (pai de Xaveco), HunterÂ’s Moon (pai de Loretta), Royal Forest (da impecável Dulce), Sandjar (de Queridona), Violoncelle (pai de Gaudeamus, o de bravura indômita); Seventh Wonder (pai de Hamdam), Elpenor (um magnífico Owen Tudor, ganhador da Ascot Gold Cup, com citação e foto no livro de Sir Charles Leicester, pai de Corejada); Cadir (pai de Clareira), Faublàs (pai de Quartier Latin), o inesgotável Present The Colors (pai de Villach King), Executioner (de Grimaldi), Burpham (filho de Hyperion e pai de Farwell, a “máquina de correr” e, ainda, de Gabari), Figurón (de Campal), Millenium (de Pallazzi), Cigal (pai do tríplice–coroado Giant), Vacilante (pai de Troyanos), Tratteggio (pai de Off The Way), Tumble Lark (pai de Dark Brown), e Baynoun (pelo sucesso estrondoso, aqui e no exterior, de seus dois esplêndidos e belíssimos filhos Sandpit e Much Better).

Mas é exatamente o embaraço e a dúvida de ter que escolher apenas 15 nomes que dá consistência e gera interesse sobre o processo.

Numa época em que o “shuttle” de garanhões se tornou moda, e que é possível usar nomes consagrados do parque mundial de reprodutores nas temporadas de monta do hemisfério sul, o mais importante é saber o que o futuro nos reserva nesse particular – e exatamente que espécie de animal serve melhor aos propósitos e aos interesses da criação nacional.

Mas isso é assunto para o próximo artigo dessa série.



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