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Colunista:

Kurrupako, por Milton Lodi
06/08/2008 - 11h47min

O meu fraterno amigo e hipólogo Samir Abujamra está escrevendo um livro, uma publicação referente aos Haras que tiveram grande importância na criação brasileira, e que já não estão em atividade. O trabalho em questão exige, para ser bem feito, a autoria de um pesquisador inteligente e conhecedor, e esse é o caso de Samir Abujamra.

Entre outras informações, ele me pediu que relacionasse os melhores corredores criados no Ipiranga, não necessariamente os maiores ganhadores, mas os de melhores qualidades, os de mais aptidão nas pistas. Eu não escrevo os meus artigos procurando prestígio pessoal, procuro ser comedido, imparcial, apolítico, escrevo sobre tudo que me parece interessante e sobre o qual tenha conhecimento e opinião própria. Mas é natural que, de vez em quando, tenha que me referir a cavalos do meu pai e meus.

Listei para o Samir, pela ordem de minha preferência, os vinte que considero mais importantes em termos de qualidade, tendo de deixar fora da relação nomes importantes, até mesmo ganhadores clássicos.

O número um da lista dei ao Kurrupako. Quis a fatalidade me tirar um excepcional corredor e me dar em troca um excelente reprodutor.

Tudo começou em 1961, quando eu projetava a carta de montas. Eu tinha uma égua que viera importada da França trazida no ventre, importação do meu pai e que foi o criador. Berceuse era o nome dela, de nascimento de 1° semestre, filha do francês ganhador do Derby inglês Galcador, de criação e propriedade de Marcel Boussac, francês que dividia com o indiano Aga Khan, criador na Irlanda e na França, a supremacia mundial na criação do cavalo de corrida. Berceuse estreou em 1.200 metros na areia da Gávea, vencendo fàcilmente e estabelecendo novo record para a distância. Era uma formidável égua. Essa vitória foi a última corrida que o meu pai teve conhecimento. Eu estudava um garanhão especial, o que era difícil, pois à época não havia trocas nem vendas de coberturas, cada criador tinha os seus próprios cavalos, a não ser a Remonta do Exército, que mantinham gratuitamente para os criadores uns tantos garanhões, mas que eram de qualidade modesta para grandes pretensões, e o Posto de Fomento do Jockey Club de São Paulo, uma das mais importantes realizações no turfe brasileiro em todos os tempos. E lá estava o irlandês, da criação Aga Khan, Al Mabsoot. Esse garanhão era um pouco temperamental, mas tinha sido bom corredor, tinha por pai um cavalo de sangue de distâncias maiores, e por mãe uma linha fecunda em produção clássica. O próprio Al Mabsoot tinha dois irmãos maternos clássicos e garanhões. Mandei Berceuse para ele. O resultado dessa cruza Aga Khan X Marcel Boussac foi o Kurrupako.

Preto, forte sem ser bruto, mobilidade elástica e muita qualidade, essas as características principais.

Esperei passar a campanha dos 2 anos, eu não queria desgastar um cavalo tão promissor antes dos grandes eventos clássicos. Kurrupako estreou no início da campanha dos 3 anos.

Na véspera da estréia, eu estava no Haras Bela Esperança conversando com o Dr. Paulino (José Paulino Nogueira) e com Samir Abujamra, e disse que seria uma corrida muito especial, o potro era um fora–de–série, ninguém sabia o quanto ele corria. Contei que, na fase de preparativos, o meu treinador Zé Pinto (José Silvestre de Souza) havia determinado uma partida de 800 metros, seria a primeira vez. Para pegar uma raia bem parelha, o cavalo chegou cedo ao Hipódromo de Cidade Jardim para aguardar a abertura da raia. Quando abriu, o Bolino não estava ainda, e foi pedido ao Clovis Dutra para ir de galope até os 800 metros, dar intenção, e deixar o cavalo bracear à vontade dele, sem quaisquer exigências. Quando Clovis desceu, disse que havia marcado errado, o cavalo havia chegado tranqüilo, sem mostrar sinais de cansaço, e o relógio dele marcara 47 segundos cravados. O Zé Pinto, que conhecia bem o Kurrupako, mostrou o cronômetro dele, também com 47 marcados, e esclareceu que assim era o Kurrupako, um potro poderoso, máquina de correr, um luxo de um cavalo de altíssimo padrão. Eu disse ainda ao Dr. Paulino e ao Samir que havia uma informação de que no páreo havia outro estreante, de nome Folhetim, que teria batido o recorde dos 1.300 em trabalho, seria a grande barbada do programa, de modo que eu ia mandar o Bolino correr em 2°, acompanhando o tal Folhetim da melhor forma possível, e tentar passar por ele na reta. O Dr. Paulino, que escutava calado, me deu então uma grande lição. Se eu na verdade achava tudo aquilo de bom no Kurrupako, ele que fosse para frente, impusesse o seu ritmo, e o Folhetim e os outros que tentassem ultrapassá–lo. O bom, o melhor, é quem tem que mandar na corrida, tem que impor a sua melhor qualidade. Se o Kurrupako ganhasse, que fosse como melhor e não aproveitando detalhes do páreo, e se perdesse mostraria logo que não era tudo o que se imaginava dele.

No dia seguinte, pedi ao Bolino para tomar logo a ponta e nela se manter enquanto pudesse, aceitando eventuais lutas, era a hora de o potro mostrar, em um páreo de perdedores com um estreante de ótimas recomendações, se era mesmo um corredor de exceção. Kurrupako pulou na frente, logo Folhetim tentou ultrapassa–lo, e até o meio da reta final, com o Folhetim correndo tudo que sabia e o Bolino mantendo o nosso potro sempre na ponta correndo apenas o suficiente para manter–se na frente. Nos últimos 300 metros, enquanto o Folhetim exausto ficava para a 4ª colocação, o Bolino deu intenção, sem chicote ou outras exigências, deu rédeas e o Kurrupako ganhou por larga diferença. O Dr. Paulino sabia das coisas.

A segunda corrida do Kurrupako foi ainda mais impressionante. Com Bolino suspenso, coube ao Selmar Lobo a montaria. Era um páreo cheio, corriam uns 15 cavalos em 1.300 metros na grama. O starter era Joacir Porto, um sócio do Jockey Club de São Paulo que exercia com grande maestria aquela função por simples prazer. Era a época anterior ao partidor elétrico ou mecânico, a partida era dada com o levantamento de cintas que atravessavam a pista, e que eram alçadas por uma alavanca pelo starter. Os animais estavam mais ou menos quietos, alguns se mexiam, nervosos, mas não comprometiam o trabalho do Joacir Porto, a não ser um filho de Coaraze de nome Cuore, uma fera de difícil controle, e que se negava a alinhar. O Kurrupako estava parado, quieto, no meio do pelotão, o tal Cuore endiabrado por fora de todos. A partida estava demorando, e o Lobo entendeu, muito bem a meu ver, tirar o potro da posição parada, desalinha–lo para depois alinha–lo outra vez. Segundo depois me disse o Joacir, como todos os outros davam condição de largada, e o Cuore de repente sossegou, ele deu a partida sem perceber que o Kurrupako estava fora do alinhamento, de costas para as cintas. Quando vi que ele largara mais de cinco corpos atrás do penúltimo, eu comentei com o Bolino, que assistia ao meu lado, que o páreo estava perdido. Ele imediatamente retrucou, para o nosso potro aquela aparente enorme desvantagem ainda era pouca, o Kurrupako podia dar ainda mais e certamente venceria. No início da grande curva, o potro já havia descontado o atraso inicial e se metia entre os últimos, foi progredindo até que, no meio da reta, ele já apareceu na ponta e daí para o final aumentava cada vez mais a diferença.

Kurrupako, no meu entender, e no de todos que o conheciam, era um corredor sem limites, ele se desprendia dos adversários em galope elástico, tranqüilo, não tomava conhecimento dos adversários. Mas quis o destino que, galopando na raia de areia de Cidade Jardim em preparativos para correr o Derby Paulista, ele fraturou o sezamóideo. Já saiu da raia inutilizado para corridas.

Perdi um ótimo corredor, ganhei um ótimo garanhão.

Essa é a história resumida da campanha do Kurrupako, o melhor cavalo de corridas criado no Haras Ipiranga.

Muitos anos depois, perguntei ao Bolino quem ele montaria, em um páreo em 2.400 metros, entre Kurrupako, Gourmet (GP Brasil), Moustache (GP São Paulo) e Negroni (GGPP Paraná e Bento Gonçalves). A imediata resposta foi Kurrupako. E se ele desse 4 kg de vantagem aos outros três? Kurrupako foi a resposta. E se no tal páreo o Kurrupako fosse com 60 kg e os outros com 52 kg, diferença de 8 kg? Bolino pensou, e disse que ainda assim ele ficava com o Kurrupako.



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