Much Better estava saindo da raia, montado por Nelson Marinho, apelidado de "Neguinho", o redeador de confiança, do treinador, João Luiz Maciel. Era ele que trabalhava o craque do Stud TNT, e também Sandpit, do Haras São José da Serra, Ramirito, do Stud José Adamian, e tantos outros, daquela constelação de craques residentes, no Vale da Boa Esperança. N. Marinho, que poucos anos depois seria efetivado como treinador do Stud Rio Aventura, chamou João Maciel para lhe dizer alguma coisa em particular. Irreverente, João falou: "Pode falar Neguinho! O Paulo Gama faz parte do nosso time". Sem graça, o redeador retrucou. "Mas, João. É um negócio meio chato de dizer". "Pode falar cara!".
"Está bem. A respiração do cavalo não está boa. Ele ficou muito ofegante. O Latino é no próximo sábado. Ele vai viajar. Sabe como é. Fiquei preocupado", disse impaciente. João Maciel, em vez de ficar aborrecido, soltou uma gargalhada. "Fica tranquilo, Neguinho. Pode levar o cavalo para a cocheira. Depois que acabar a segunda turma, eu vou lá dar uma olhada nele. Assim que Much Better saiu de cena, ponderei com Maciel que ele deveria levar em conta o comentário de um dos seus homens de confiança. Largar tudo, e ir olhar o cavalo logo. João sorriu e me explicou.
"O cavalo está cansado por que eu o deixei, propositalmente, bem acima do peso. Ele vai encarar autêntica maratona até chegar na cocheira de trânsito, na Argentina. Duas horas de caminhão daqui da Serra até o aeroporto. Depois a burocracia, para embarcar. Em seguida, quase 3 horas de voo até Buenos Aires. Lá, mais embaraço na alfandega. E, depois disso, mais duas horas de caminhão até La Plata. Much Better está com uns 20 quilos a mais do peso em que vai correr", esclareceu.
Na madrugada do mesmo dia, antes de embarcar, João Maciel colocou Much Better na balança. Ele estava com 500 quilos. O treinador então me olhou e disse. "Quando chegar lá em La Plata, ele vai estar com uns 485 quilos. Aí, eu vou deixá–lo descansar, e fazer um apronto forte, na quinta–feira, para ele ficar com uns 480. A raia de La Plata tem uma reta final pequena, de no máximo 400 metros. Ele não pode ficar longe dos ponteiros, senão não chega a tempo de alcançar os ligeiros. E, um deles, é o Romarin, um cavalo veloz e duro".
Nem é preciso dizer que toda a previsão de João Maciel estava certa. Problemas no embarque com os apetrechos de Much Better. A água era mineral, a mesma que ele bebia no haras diariamente, a ração também, e tudo o mais. Na Argentina, os caras queriam encrencar com tudo isso, mais atraso. Enfim, ainda houve problema para entrar no caminhão. Much Better estava nervoso. Ele já sabia que ia correr. Todo cavalo sabe, quando muda a sua rotina. As 3 horas da tarde estávamos, enfim na cocheira. João Maciel me chamou para acompanhar a pesagem. Era inacreditável. O cavalo pesou 485 quilos. Nem uma grama a mais ou a menos. No dia seguinte o apronto. O craque fez 49s nos 800 metros, e endoidou os cronometristas de La Plata. Todos queriam saber. Quem é este cavalo? Maciel levou Much Better de novo até a balança. Nem precisa dizer, 480 quilos.
"O cavalo está no último furo. Ninguém pode errar agora. Vadinho e Neguinho se revezam na porta do boxe. Se um sair, o outro fica. Faltam 48 horas para a corrida. Todo cuidado é pouco. Tive de mostrar o cavalo com este treino. Todo mundo no prado já sabe que ele é a encrenca do páreo", discursou para Vadinho, o cavalariço, e para Neguinho. Logo em seguida apareceu o veterinário do hipódromo, perguntando se o cavalo ia correr com, ou sem agarradeiras. Maciel, disfarçou, e perguntou, como quem não quer nada. "O que o senhor me aconselha?". E aí explicou que no Brasil não era permitido utilizar este tipo ferragem. Mas, ele não queria dar vantagem. O veterinário, como se fosse um funcionário de uma sapataria, respondeu. "Meu amigo. Eu lhe aconselho então a correr o cavalo sem agarradeiras. O cavalo que está acostumado se sente confortável. Mas, no seu caso, o cavalo vai ficar igual a um sujeito que coloca um sapato novo. Demora um pouco para se acostumar", explicou.
Depois que o veterinário saiu da cocheira, preocupado, perguntei ao João: "Será que o cavalo não vai dar muita vantagem para os outros sem agarradeiras?". João Maciel, um dos caras mais inteligentes e maliciosos que conheci na minha vida, sorriu para mim. "Quem disse para você que ele vai correr sem agarradeiras? O cara é argentino, já sabe do treino do nosso cavalo. É claro que eu vou fazer o contrário do que ele sugeriu. E Much Better, pela primeira vez de agarradeiras em sua campanha, ganhou o Latino–americano sobre o chileno Enfático, em segundo e o craque Romarin, em terceiro. Era o primeiro triunfo de uma temporada de sonho, em que ele ganhou depois, o Grande Prêmio São Paulo, o Grande Prêmio Brasil, e o Grande Prêmio Carlos Pellegrini. Estávamos em 1994. Eu era tão feliz, e nem sabia o quanto...
Por Paulo Gama