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O tédio de quase uma semana sem corridas na Gávea 06/01/2017 - 10h20min
O turfista carioca teve corridas na Gávea na última segunda–feira. E ainda vai esperar mais 48 horas para ter de volta o seu lazer favorito. No próximo domingo e segunda–feira, mais 20 páreos na pista de areia, totalizando oito reuniões sem grama, nas últimas três semanas. Mas, perto dos problemas sociais do país na atualidade, e, sobretudo da falência absoluta da cidade do Rio de Janeiro, nem se deve reclamar de nada. Para quem curte praia tem sido possível aproveitar o sol escaldante do verão. Mas, com muito cuidado, por que os pivetes estão sempre de plantão para arrastar celulares, óculos, relógios e outros pertences.
Para aqueles que preferem ficar longe do sol e do calor insuportável resta a internet e a televisão. Em qualquer um dos casos fica impossível não esbarrar com noticiário repleto de violência, no dia a dia, e nas investigações de escândalos de corrupção na política. E se for olhar para outros continentes, o assunto preferido é o terrorismo. O Estado Islâmico explode bombas aqui e acolá. E o pior de tudo é que nos Estados Unidos, o Donald Trump está próximo de assumir. Aí mesmo é que o bicho vai pegar. Nem mesmo apertar o controle manual para o canal do turfe serve de consolo. Lá, o cara esbarra nas charretes francesas e nos seus trotes atrelados. É pior a emenda do que o soneto. Por isso, a gente morre de saudade dos nossos páreos, na raia de grama bem cuidada do hipódromo carioca.
Escrevo para vocês aqui de Copacabana, na Rua Sá Ferreira. O meu edifício é este que vocês acabaram de ver a faixada nas câmeras da TV Globo, no Bom Dia Rio. Inspiração para o cronista no cotidiano da cidade maravilhosa. Lá do Pavãozinho ecoam tiros da turma da Core e da PM. Escrevo, tendo como pano de fundo, as rajadas de metralhadora e os tiros de fuzil. Eles se confundem com alguns fogos de artifício, cabeças de nego, que sobraram da entrada do ano. Esta é sonoplastia que sacode as minhas pobres janelas. A minha esquerda, na imagem da televisão ligada, ouço a voz baixa do presidente Michel Temer. Ele diz que lamenta o “acidente” horroroso em que morreram 55 detentos, numa prisão do Amazonas. E pensar que eu ainda tenho que aturar a ausência das corridas até domingo.
Só não podemos é nos contaminar. Não devemos aceitar a inércia que, aos poucos, transforma vidas em peças de carne do açougue. Afinal, as bombas terroristas, do noticiário internacional, interrompem a trajetória de crianças inocentes. Esta banalização da existência nos enfraquece como seres humanos. Por isso, que voltem logo os páreos na grama do mais lindo hipódromo do planeta Terra. As nossas corridas funcionam como anestesia para este mundo virtual em que se transformou o nosso dia a dia. Um mundo cruel, impiedoso e sem sentido. Enquanto estamos no prado, a gente viaja na emoção dos páreos. E podemos curtir o nosso faz de conta. O nosso mundo encantado, que nos deixa bem longe desta sociedade doente e desesperada.
por Paulo Gama

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