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A Bíblia do turfe, com peso pluma, sem os páreos de SP 22/12/2016 - 10h24min
Acabei de comprar a revista Turf Brasil, na banca de jornal da Rua Miguel Lemos, esquina com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. É o meu primeiro passo todas às quintas–feiras, de manhã. O jornaleiro, tricolor como eu, antes de xeretar se eu sabia alguma novidade do Fluminense, perguntou por que a revista do jóquei havia encolhido. Sem jeito, expliquei a ele que no Natal são apenas duas reuniões no Hipódromo da Gávea, e mais o programa do Rio Grande do Sul. Os turfistas teriam uma semana magra, só com três programações. Surpreso, ele perguntou: “E São Paulo? Antigamente, os programas de lá eram lotados de cavalos. E as corridas começavam nas quintas–feiras. Houve algum problema por lá?”, me questionou.
Na verdade, estas perguntas do povão, são sempre as mais difíceis de responder. O cara te aperta com espontaneidade, sem firulas, ou talvez seja melhor dizer, sem rodeios. O sujeito vai logo na ferida. Com pressa de sentar logo no computador para escrever tentei lhe explicar que existe crise econômica e política do Jockey Club de São Paulo, atraso de pagamentos dos funcionários, ameaças de greve e os proprietários estavam há mais de um ano sem receber os prêmios. E aí, o jornaleiro, de boca aberta, veio para cima de mim com outra pergunta que me encurralou de vez
“Meu amigo. São Paulo é o estado mais rico do país. E a capital é uma metrópole moderna, com empresas poderosas e fábricas com tecnologia de ponta. Se as coisas no turfe estão assim por lá. Pode esperar que a vaca vai acabar indo para o brejo em todo o Brasil. Ou estou enganado?”, perguntou. Não é que o cara havia esquecido completamente de falar de futebol. Nem parecia aquele cara simpático que ainda estava inconformado por que o Fluminense havia vendido Fred, o seu maior ídolo dos últimos tempos.
Sem argumentos convincentes, lembrei por um segundo do turfista do “espaço do leitor”, que discordou de mim quando escrevi que havia luz no fim do túnel em Cidade Jardim. Inclusive, aproveito para lhe dizer que não possuo qualquer informação privilegiada sobre os destinos do turfe paulista. Apenas, tenho a absoluta convicção de que não há mal que sempre dure. E a minha convicção se baseia no amor incondicional do turfista de São Paulo pelo esporte. Em que lugar do país, os proprietários continuariam a correr os seus cavalos de graça? Utilizei este argumento com o jornaleiro. Ele arregalou os olhos quando lhe disse isso.
Contei também para o dono da banca da Miguel Lemos que o time de transmissão das corridas de Cidade Jardim possui um locutor de outro planeta, Roberto Casella, capaz de transformar a transmissão de um páreo de cinco cavalos perdedores numa epopeia tão brilhante como um “Prix L” Arc de Triomphe”. E o seu parceiro, o comentarista Jair Bala, tem talento, percepção e conhecimento para enxergar um páreo com a precisão de um puma antes de dar o bote na caça. Além disso, descrevi para ele as cores de várias fardas imortais do turfe brasileiro, que já foram defendidas por craques inesquecíveis da arte de correr.
Um lugar assim, expliquei ao amigo jornaleiro, não pode morrer. Um lugar com esta tradição, não pode sucumbir. Um templo como o Hipódromo de Cidade Jardim, jamais vai fechar. Tem muita gente de bem que ama de paixão o turfe de São Paulo. Gente de bem que tem compromisso pessoal de levantar o turfe paulista. E o compromisso hereditário, de reviver o lugar onde os seus pais e avós, que já se foram, lá viveram momentos eternos. Por isso, e por outros milhares de motivos, São Paulo vai ressuscitar. Esta pequena bíblia pessoal, de cada turfista, com os retrospectos dos cavalos, chamada Turf Brasil, está bem leve neste Natal. Mas, num belo e próximo dia, voltará a ficar pesada. Pesada com quatro programas lotados de cavalos. Como nos anos 70 e 80, em que os turfistas se acotovelavam para procurar espaço para sentar nas tribunas de Cidade Jardim. Tempos dourados, que vão voltar. Quem viver, verá.
por Paulo Gama

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